Algoritmos Quantitativos



POR SAM McPHEETERS
 
oss finalmente avistou na estrada, a poucos quilômetros do aeroporto, um sinal luminoso de uma concessionária que exibia JIM CURLAN VENDEDOR DO MÊS. Ele via cada vez menos anúncios como esses nas estradas interestaduais durante suas viagens. Haveria menos bons vendedores no mundo? Ou apenas menos empresas dispostas a parabenizá-los publicamente? A concessionária passou como um borrão de luz enquanto ele digitava informações no celular.

Uma voz robótica perguntou pelo nome da cidade. Ross falou de forma extremamente clara, como se estivesse falando com um idiota: “San-jo-sé, Ca-li-fór-nia”. A voz pausou, e pediu em seguida um nome da empresa, que ele disse enquanto via esse nome claramente invertido no espelho retrovisor. Houve um silêncio e então o robô fez um telefone tocar em algum lugar dentro do prédio excessivamente iluminado, que ainda piscava nos espelhos. Ross digitou um ramal para a central da empresa e em seguida outro ramal para contatar a pessoa que procurava. A voz de Jim Curlan—confiante e levemente entediada—pediu que deixasse uma mensagem. A secretária eletrônica deu o sinal. “Jim. Seu bosta”, disse Ross serenamente. “Você pensou que eu esqueceria o que você fez? Seu verme do caralho. Seu sifilítico de merda.” Ele suspirou e olhou pelo espelho retrovisor, e apesar de soar contraditório, com a concessionária se afastando cada vez mais, disse: “Eu vou te pegar, Jim. Lá vou eu”. Ele bocejou e fez uma pausa.

“É bom você criar olho nas costas, meu amigo. Você vai se dar muito mal. Então esteja pronto. Vinte e quatro horas por dia.”Ele fez outra pausa e sussurrou bem baixinho: “É o juízo final, Jim Curlan”.

Uma hora depois, em São Francisco, ele passou por cortinas estampadas com desenhos de polvos. Steff lhe dissera para encontrá-la naquele lugar, naquele restaurante de culinária japonesa fusion, tarde demais para jantar mas não para tomar alguma coisa e colocar o papo em dia. Steff e Ross namoraram alguns meses na faculdade, mas sempre se deram bem melhor como amigos. Agora ela estava casada com um homem chamado Kim, que Ross jamais conhecera, e quando ele os viu no fundo do restaurante—Steff sentada ao lado de um sujeito meio baixinho e de bigodes—se deu conta de que nunca conhecera ninguém chamado Kim e que talvez ainda não confiasse nesse novo marido.

Ele se sentou do lado oposto dos recém-casados. Trocaram apertos de mãos. Um garçom se aproximou. As bebidas chegaram. 

Kim disse: “Então. A Steff me contou que você está sempre na estrada”. 

“Estou. Dez meses por ano, 15 apresentações por semana.”

“O que você faz, exatamente?” 

“Já te expliquei”, bufou Steff, sarcasticamente. Ela havia engordado bastante desde a última vez que se viram, há seis anos, mas ainda tinha o mesmo largo e belo sorriso.

“Sou um vendedor de quant”, disse Ross. 

“Uau. Tá. O quê?” 

“Viu?”, disse Steff com o canto da boca. 

“Ah, não é nada de outro mundo”, disse Ross, balançando sua cerveja. “Sou a face pública de um fundo de investimento administrado quantitativamente. Ou seja, um fundo que usa apenas dados computadorizados para tomar decisões de investimento.”

“Achei que vocês tivessem estudado a mesma cois”, disse Kim. 

“E estudamos”, disseram Ross e Steff quase em uníssono. 

“Não sou analista, sou apenas vendedor”, Ross explicou. “Traduzo conceitos altamente técnicos para apresentações de fácil compreensão. Para a maioria dos investidores iniciantes, a ideia de que é possível desenhar uma estratégia de investimento bem-sucedida sem nenhuma contribuição estratégica de seres humanos é muito estranha. Então sou o cara que transforma isso em algo normal.”

“Você está falando de uma caixa preta”, disse Kim. Ross decidiu naquele momento que gostava daquele cara.

“É exatamente isso. Os dados vão para a caixa preta, e da caixa preta saem as escolhas de ações. É basicamente isso.”

“Ross, e por que eu deveria confiar o meu dinheiro a uma caixa preta?”, perguntou Steff.

“Por que você deveria confiar em uma caixa preta de um avião?”, disse Kim, tomando o partido de Ross.

“Na verdade, a questão é por que confiar nas pessoas que construíram a caixa preta”, disse Ross. “O quant foi desenvolvido por seres humanos para eliminar a falha humana. Nós usamos, inclusive, um quant separado e menor para investigar as influências humanas no levantamento inicial de dados…”

“Soa como aposta na internet”, ela interrompeu.

“É verdade, se apostar garantisse uma taxa de retorno de nove pontos. Olha, nossa administração de riscos é exponencialmente mais rigorosa do que a maioria dos fundos de carne. É assim que chamamos internamente os fundos de investimento tradicionais”, ele disse, segurando a vontade de piscar. “E o nosso overhead é menor. Uma equipe pequena de analistas, sem estrelas do mercado financeiro, sem primadonas. Temos um lema: ‘Deixe os dados decidirem.’

“Fundos de carne”, disse Steff virando os olhos. “Isso é ridículo.” Mas Ross sabia, pelo sorriso dela, que poderia vender para eles. Não seria difícil. Até a conta chegar, eles teriam anotado o contato da empresa em um guardanapo. Em um mês seriam clientes.

“Aposto que você usa esse mesmo discurso no país inteiro, tentando engabelar todos os seus pobres colegas de faculdade com esse esquema de pirâmide maldito”, ela disse.

“Nunca neguei isso. Convenci o Stu em agosto”, ele disse.

Ross era o único da antiga turma que viajava com frequência, o polinizador cruzado solitário de uma turma que costumava ser bem unida e da qual Steff era a única garota: ele, ela, Stu, Chet, Todd e Gordo.

“Ah, em falar nisso, você tem visto o Chet?”, ela perguntou. 

“O Chet está se dando bem fazendo manutenção de caixas eletrônicos de banco. Ainda mora em Dallas. Estive com ele em junho.” 

Steff explicou para o Kim: “Tínhamos certeza que o Chat seria um comediante famoso”. “Lembra dos trotes horríveis que a gente dava?”, Steff perguntou a Ross, mas em benefício de seu marido. Ross, pensativo, deu um gole na sua cerveja e olhou para a placa pendurada na parede perto dos banheiros, com uma foto do dono do estabelecimento.

“Vagamente.” 

“Que tipo de trote?”, perguntou Kim. 

“Do pior tipo”, ela disse. “Os mais nefastos.” Kim olhou para o Ross com um olhar de expectativa. Ross deu de ombros.

“O Chet tinha aqueles personagens malucos que gostava de fazer. Tipo, um sargento, um vizinho enfurecido, um locatário húngaro”

“Albanês”, corrigiu Ross.

“Ele simplesmente aterrorizava as pessoas, as humilhava completamente. A gente ficava lá sentados escutando ele fazer isso por horas.”

“Vocês ficavam em volta do telefone?”, perguntou Kim.

“Não, alguém tinha um daqueles microfonezinhos antigos de telefones. A gente gravava as ligações num aparelho de som para todo mundo poder ouvir.”

“Ninguém rastreava o número?”, Kim perguntou.

“Não. Na época ainda não tinha bina. Dava para ligar a noite inteira para as pessoas sem ser pego.”

“Amém para isso”, disse Ross.

“E esse cara aqui!”, ela disse, apontando para o outro lado da mesa. “Ele era o pior. A especialidade dele…”

“Ah, o Kim não quer ouvir essas coisas…”

“O Ross descobria um casal na lista telefônica. Tipo, Jane e John Jones. Aí ele ligava, e quem atendesse—tipo, se uma mulher respondesse, ele dizia: ‘Jane?’. E ela respondia: ‘Sim?’. E o Ross dizia, com muita delicadeza: ‘O John está te traindo’.” Ela e o Kim riam juntos.

“E o Ross tinha um jeito perverso de desligar o telefone. O ‘Estilo Ross’. Muito delicado.” Ela imitou esse gesto com o garfo. Kim ria de forma um pouco exagerada. “‘Achei que você ia gostar de saber.’” Ela levantou o garfo para um bis, sussurrando: “‘Tchau-tchau’, Clic”.

“Isso não é legal”, Kim conseguiu dizer entre as gargalhadas. Steff enxugou um olho. “Passávamos horas e horas fazendo isso. Era um vicio.”

Ross sorriu, deu outro longo gole na cerveja, e finalmente disse: “Então, Kim. O que você faz?”

Reuniões diárias com a sua chefe, Carly, enquanto viaja eram sempre mais complicadas na Costa Oeste. Na manhã seguinte, Ross estava de pé antes do amanhecer. Já deviam ser mais de 8h30 em Nova York. Ele afastou a cortina pesada do hotel e olhou para baixo como se estivesse procurando alguém. O ângulo só permitia que visse um pedaço da calçada cinza desolada que refletia o nascer do sol. Carly disse: “O seu número sempre aparece como bloqueado”. Perto da pia da suíte, uma cafeteirazinha tremia silenciosamente.

“Sempre esqueço de consertar isso”, ele disse, segurando um bocejo. 

“Aê!”, ela disse entre ruídos de papéis remexidos. Uma voz profundamente sexy vinda de um rosto profundamente comum. “Falando em consertos. Precisamos discutir os seus ‘poréns’. Outra vez.”

“Mesmo?” 

“Mesmo. O quant não está contente com isso.” Conforme estipulado em seu contrato, cada apresentação de Ross era gravada digitalmente e enviada por email para o escritório central, para ser transcrita e analisada pelo software da empresa. Suas palestras ainda estavam em processo de aprimoramento, sempre suscetíveis aos caprichos das análises. Apesar de esse programa específico operar independentemente do programa principal de análise de investimento, ele e Carly há muito tempo se referiam a esse sistema distinto como um cérebro único e benevolente que guiava os seus operadores humanos falíveis.

“Você usa demais essa palavra. Ela sugere indecisão, Ross. Repare que nunca uso essa palavra a não ser quando a discuto com você.”

“Se alguém na plateia me mostrar a bunda, como eu devo me referir àquela parte específica do corpo dela?”

“Você disse isso da última vez, e já não foi engraçado. O que você está vestindo?” Isso o despertou.

“O quê?”

“Camisa e gravata, combinação de cores. Nossa, o que você achou que eu tinha dito?”

“Ah.” Ele olhou para a roupa que ia usar impecavelmente estendida na cama da suíte. “Parece que hoje vai ser camisa branca—creme?—com a gravata azul-royal.” 

“Não. Pode esquecer. Branco e azul é coisa de varejista. Vamos mudar para verde-musgo com preto. Vou enviar algumas gravatas para o seu hotel hoje à noite. Me liga depois de Sacramento.”


A irritação com a mudança de figurino o acompanhou pelas apresentações do dia e no dia seguinte em Reno. Inserir cuidadosamente no entanto e apesar disso em seus discursos também o irritava, e refletir sobre sua irritação o irritava ainda mais. Ao ver seu reflexo no espelho do fundo da sala de conferências achou que a combinação de verde com preto o fazia parecer um jogador de pôquer ou um gigolô barato.

Mas eram raros os problemas que uma pausa forçada não resolvesse. Ele entrou no aeroporto internacional de Denver na manhã seguinte munido de 50 minutos e de seu caderno de bolso vermelho. O caderno estava organizado alfabeticamente por cidade. Sob DENVER, depois de uma meia dúzia de pequenas linhas cuidadosamente riscadas, ele encontrou dois nomes, cada um deles marcado com pequenas notas: CI para corretores de imóveis—informações conseguidas em placas aleatórias meses antes—e L para leitores, indicando algum pobre coitado que tivera o infortúnio de escrever uma carta para o Post no último ano.

Pela lista telefônica que encontrou na cabine telefônica, ficou sabendo que o corretor de imóveis tinha tocado a vida adiante. Mas encontrou o escritor de cartas na lista, o que resultou em uma secretária eletrônica. Ele esperou pelo sinal.

“Oi, Josh. Adivinha quem é. Não, não adivinhe. Eu digo. Sou um maluco. E tem mais, adivinha? Estarei na Rua Elkwood número 2320 entre 4h e 6h da manhã, e vou espalhar as minhas fezes moles nas suas janelas. Então fique esperto.”

Em um outra cabine, ele encontrou outra lista telefônica. Ele a folheou e escolheu ao acaso uma linha: Moisey, Cindy e Danny. Quem coloca apelidos numa lista telefônica? Uma mulher atendeu.

“Cindy?

“Sim”, disse a voz de uma mulher, um pouco sem fôlego. Ela havia corrido para atender o telefone.

“O Danny está te traindo.”

Depois de um maravilhoso silêncio, ele acrescentou: “Tchau, tchau”. Desligou o telefone com delicadeza. Foi naquele momento que percebeu: um dia sentira falta dos telefones públicos. Não tem como expressar emoções apertando o botão de um celular. E como se para enfatizar essa ideia, seu celular tocou. Ele ficou surpreso ao se dar conta de que não havia reconhecido o código de área 918.

“Alô.”

“Ah.” Era uma voz de mulher diferente, alegre mas hesitante. “É… Posso falar com o Ed?”

“Você quer falar com Ed?” Houve uma pausa. “Sim. Ele está aí?” “Não sei muito bem como dizer isso”, ele disse, olhando para o seu portão de embarque e exalando ar. “Então vou simplesmente dizer. Ed morreu há duas horas.”

Ele desligou o telefone completamente, sentindo-se bem novamente. Amostra grátis.

Alguns anos antes, depois de ter sido despedido de seu casamento, Ross acompanhou durante um mês reuniões dos alcoólatras anônimos no subsolo de uma pet shop. Ele não pretendia adotar nenhum dos 12 passos. Na verdade, precisava de uma abordagem de vendas, de uma perspectiva. Ele já trabalhava na área: queria que alguém lhe vendesse a ideia de sobriedade. Ele precisava encontrar uma maneira de largar o hábito de beber para se embriagar sem que parecesse abnegação.

As reuniões não o ajudaram em nada. Mas uma noite ele chegou em uma delas meio alto e, apreciando o fato de estar sentado, resolveu ficar para o grupo das 21h. Era um pessoal completamente diferente. O arrependimento convencional dos alcoólatras havia sido substituído pelo caos suplicante do vício generalizado, uma turma selvagem, desesperada,. O conselheiro era um rapaz envelhecido com um cabelo loiro estilo escovinha. Ele, aparentemente, havia ido e voltado do fundo de cada poço de vício existente, e não tinha paciência para autopiedade.

“O que você anda comendo compulsivamente?”, o conselheiro perguntou sarcasticamente a uma mulher que sofria de obesidade mórbida. “Cenoura? Aipo?” 

Ela baixou a cabeça para choramingar, e ele subiu em uma cadeira dobrável e usou a cena como um momento de aprendizado.

“O vício não é um problema, contanto que você seja viciado em alguma coisa que não te prejudique. Encontrem essa coisa e se viciem nela. É simples assim.” 

Ross sorriu. Isso ele era capaz de fazer. Ele não bebeu desde então.

De acordo com sua visão, havia uma quantidade finita de stress no mundo. O que ele precisava fazer era transferir a tensão de si, como um aquecedor. Em momento algum ele acrescentaria ou subtrairia do volume agregado de dor do planeta. Ela apenas passava de pessoa a pessoa. O hobby dele, acabou descobrindo, envolvia exatamente o mesmo processo de seu trabalho: reduzir ideias complexas a pedaços vendáveis. Deixe os dados decidirem. Sem prima-donas. Danny está te traindo.&

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