Annie Proulx

Fotos por Gus Powell



Tenho que admitir que quando os livros de Annie Proulx chegaram pela primeira vez nas livrarias, eu passei reto pelas prateleiras. Talvez por causa dos títulos—Heartsongs and Other Stories, Postcards—e das capas em tom sépia. Então, em algum momento dos anos 90, um amigo me deu uma cópia do The Shipping News, e disse que foi uma das melhores coisas que já tinha lido. Esse amigo era mais ligado em Lovecraft, crime pesado e em revistas como a Answer Me!, então fiquei surpreso quando vi o nome da Annie Proulx na capa. Depois de dois dias de leitura me vi envolvido com as aventuras mal-sucedidas de Quoyle na pequena cidade canadense de Newfoundland, e pelo próprio estilo de escrita da autora. 


O ano de 1999 trouxe Close Range, o primeiro dos seus três contos de Wyoming (Bad Dirt de 2004 e Fine Just the Way It Is de 2008). As histórias eram como socos curtos no estômago, uma percepção profunda da obstinação das pessoas e do esplendor indiferente do mundo físico. Lá estava uma escritora dando tapinhas nas covas de Conrad e Hemingway. A história final, “Brokeback Mountain”, tem apenas 29 páginas, mas é arrebatadora de uma maneira que um filme jamais poderia ser. Esses últimos livros surpreenderam até os críticos e os juízes literários que a premiaram com um Pulitzer por The Shipping News. O quão esquisito é o fato de Annie ter aparecido do nada com seu primeiro livro aos 53 anos de idade e num período de 15 anos ter se tornado conhecida como uma das melhores escritoras norte-americanas?

Annie viveu em Wyoming por muitos anos, evitando qualquer tipo de atenção (e, aparentemente, enlouquecendo fãs de “Brokeback Mountain” que queriam co-nhecê-la). Quando liguei para ela para fazer a entrevista, disse que gostaria de concentrar nossa conversa nos contos. Ela resistiu: “O problema é que não me lembro muito bem deles. E não tenho os livros aqui comigo”. Mas não importa, ela é tão franca e envolvente que acabamos conversando sobre vários assuntos, inclusive sobre literatura. 

Vice: “Tits-Up in a Ditch” é uma das histórias mais implacavelmente frias que você já escreveu. Mas eu moro no Oeste do estado de Nova York…
Annie Proulx:
 [risos] Falando de frio.

…e tem muita gente aqui cujas vidas estão tão fadadas economicamente quanto aquelas que você descreve—incluindo aquela história desafortunada de amputação no Iraque. O quanto você reflete sobre as condições econômicas dos personagens?
Bastante. Um dos meus pontos de partida é saber qual a situação econômica do lugar e da época. Sou acusada de escrever demais sobre homens, mas todo o preparo da economia rural pertence ao mundo masculino. São tarefas ao ar livre, peso para carregar, traba-lho com madeira, trabalho de fazenda e assim por diante. É aí que estão as histórias. Não estão na cozinha, especificamente. Então, toda a base da economia é muito importante para mim—mas não digo isso de forma ofensiva. Você só quer deixar isso entrar na história de forma sutil. 

Suas histórias contam a verdade sobre viver sem dinheiro.
Nunca tive nenhum interesse particular em escrever sobre pessoas com dinheiro. Seria um esforço muito grande. Vim de uma família que começou na classe trabalhadora. Meu pai batalhou muito para chegar à classe média. Então estou bem ciente disso. Ele também queria interar seu passado franco-canadense. Mas sei que você sabe um pouco sobre isso.

Na verdade eu sei sim. Meu pai também era franco-canadense e fez a mesma coisa em Denver. 
Ah, em Denver. Entre tantos lugares.

Um mundo diferente do que você vive em Wyoming.
Nem tanto. Ainda é uma cidade rural. De onde ele era?

Portage la Prairie, Manitoba. Ele também batalhou para chegar ao que minha mãe chamava de classe alta baixa. Grande parte da vida dele foi como as últimas palavras de “Brokeback Mountain”: “Você tem que aguentar o que não pode consertar”.
Esse é um resumo da experiência rural. Os tempos difíceis chegam, você tem que enfrentá-los. Coisas boas chegam, você coloca algumas de lado e não faz muito alarde. É uma questão de ficar onde está e acocorar-se em tempos difíceis. É isso que os personagens de “Tit-Up in a Ditch” fazem, porque têm que fazer. Posso pensar em um escritor que aposto que você vai gostar se não tiver lido nada dele. Têm tão poucos e, sério, muito poucos escritores nesse país que escrevem sobre a classe trabalhadora. Mas um deles é o Dagoberto Gilb, um texano de origem mexicana que mora em Austin. Sua mãe era mexicana, e seu pai alemão deixou a família muito cedo. Não são rurais—são mais urbanos—mas são trabalhadores. Um escritor maravilhoso, se é que você já não conhece seu trabalho.

Na sua história “Them Old Cowboy Songs”, vemos que mesmo se você consegue aguentar, mal e mal, você ainda pode ser apagado da paisagem. A coleção é parte do que se chama, estranhamente, Fine Just the Way It Is.
Bom, isso é dito com um tom sardônico. Obviamente as coisas não estão bem do jeito que estão, mas esse é o brilho que todo mundo na vida rural coloca nas coisas. Dizem que não trocariam aquilo por nada, que não viveriam em outro lugar, que não gostariam que suas vidas fossem diferentes. Está bem do jeito que está. 

Isso deve ter te incomodado.
É por isso que estou em Albuquerque agora.

Para sempre?
Não. Não estou nem lá, nem cá. Semi-sem-teto. O problema com minha casa em Wyoming… é uma casa nova e nós não sabíamos, porque o agente imobiliário que nos vendeu a propriedade cometeu um erro. Quando eu perguntei a ele se o condado cuidava da estrada durante o inverno, ele disse, ah sim, claro. Bom, eles não fazem isso, e nós só descobrimos isso depois que a casa foi construída. No primeiro inverno em que eu estava lá, veio uma nevasca, e eu esperei pelo trator para limpar a neve. E esperei. [risos] Finalmente acabei ligando para o condado dizendo que eu estava presa, que havia montanhas de neve de sete metros atravessando a estrada. Houve um longo silêncio na linha, e então descobri a amarga realidade. O trator só vem se você tiver crianças em idade escolar na casa. 

Jesus. Eu fiquei preso em uma dessas suas nevascas de Wyoming uma vez, enquanto viajava de carona. Fora de Centennial.
Eu morei em Centennial antes de mudar para o outro lado das montanhas. 

OK, então você sabe algo a respeito. Violência climática súbita é algo esperado. Seus livros têm aquele clima do Peckinpah de violência rápida e emblemática. Você é cinéfila?
Na verdade não. Atualmente estou tendo aulas de espanhol, então às terças-feiras eu tenho filmes em espanhol nas aulas, e são sempre interessantes. O meu preferido é La Caza, de Carlos Saura, feito em algum momento da década de 60. Mas violência gratuita em filmes não é algo que me interesse. Aconteceram tantas coisas pesadas na vida real do Ocidente que não poderiam ser transformadas em histórias. É simplesmente horrível demais. Tem uma historiadora que escreveu uma história da prostituição no Ocidente. Uma das pessoas que ela descreve é uma garota de 12 anos em uma casa em Denver que havia perdido ambos os braços e uma perna em um acidente de bonde. As ramificações e possibilidades da vida dessa criança infeliz são terríveis demais para se pensar a respeito. Como a cafetina a encontrou? Ela também era negra. Não a cafetina, a criança. Quanto tempo ela viveu? Você começa a imaginar que tipo de clientes ela tinha—ela não podia fazer nada. Como a alimentava? Graças à gentileza de outras pessoas ali? É só que… bom, eu não deveria ter falado nisso. 

Mas entre os horrores de algumas de suas histórias há uma veia de humor macabro. Dei muita risada daquela onde o Diabo redecora o Inferno. 
Escrevi várias histórias sobre Diabo, estão espalhadas nas compilações. Acho que “Hellhole” foi a primeira.

Ah sim, onde pessoas detestáveis são engolidas por poços em chamas. 
Isso nasceu em uma conversa que eu estava tendo com um amigo de jogo, que é biólogo especializado em peixes. Ele estava contando sobre pessoas horríveis que fazem parte da sua vida profissional. Boiadeiros mesqui-nhos, caçadores ilegais abusivos, esse tipo de coisa. E ele disse, “Só queria que houvesse algo que pudesse ser feito com essas pessoas”. Imediatamente os vi desaparecendo em um buraco no chão e sugeri que um fosso direto para o Inferno seria bem divertido. Nós dois rimos e voltamos a jogar. Mas depois eu continuei pensando a respeito e finalmente resolvi me sentar para transformar isso em uma história. Foi meu agente quem sugeriu incluir as partes mais pesadas. Provavelmente para dar ao leitor um pouco de alívio também. 

“Hellhole” era a primeira história em Bad Dirt, o segundo volume das histórias de Wyoming. Era um jeito muito corajoso de começar, já que a coletânea anterior tinha sido tão malhada. Muitos críticos reclamaram que você mudou seu estilo com Bad Dirt.
Muitos críticos são completos idiotas. É basicamente isso. Por exemplo, Edith Wharton foi muito criticada por Ethan Frome, que considero a melhor coisa que ela já escreveu. Mas eles dizem, ah, ela não entendeu o país de jeito nenhum, ela só entendeu os ricos e a vida da sala de estar. Que podre. 

Verdade.
Ela foi uma ótima escritora e Ethan Frome é perfeito.

Videos by VICE

 


Tem um pouco desse tom nas críticas feitas a Bad Dirt. Essa é uma citação de uma delas…
OK, antes que você faça isso, eu não leio resenhas.

Tudo bem. Bom, eu só quero falar de algo a respeito do qual os críticos atacam os escritores de ficção em geral: “Proulx não tem amor por esses personagens”.
Isso é mais do papo-furado que os que se dizem críticos passam para frente. Em geral, são pessoas devagar. Não são bons leitores. Não leram muito. Têm uma educação péssima. Críticos literários, pode ficar com eles. 

Mas os leitores fazem esse tipo de reclamação a você?
Não. As pessoas normalmente chegam para mim e dizem, “Ah, as suas histórias são tão sombrias e tão negativas”. Eu decidi desde cedo que eu ia brincar com essa ideia. O resultado foi The Shipping News, cujo começo da história e os eventos todos se juntam no final, onde a felicidade é mostrada como a ausência de dor. Francamente, não é meu conceito do melhor tipo de felicidade, mas as pessoas acharam que era um final feliz. Eu disse, ”Final feliz? É, eu posso fazer um final feliz”. 

Às vezes eu fico tão nocauteado pelo seu uso da linguagem que perco alguns pontos do enredo. Sempre tenho que voltar e ler de novo. 
Sou extremamente encantada com palavras, e escrever para mim é uma brincadeira—brincar com palavras e arranjá-las para que elas tenham eco e significado que possam carregar o peso da história. 

Uma das minhas histórias preferidas é uma das suas primeiras, “Negatives,” onde um casal masculino saudável se muda para New England e constrói uma casa de vidro numa montanha. Um deles é um fotógrafo e acaba explorando todos os pobres coitados à vista com sua câmera, uma situação que cresce até um final bem cruel. Você acha que as artes visuais são mais aptas a exploração das pessoas que a ficção? 
Eu acho. Provavelmente não diria isso para ninguém fora você. 

Você conhece Shelby Lee Adams, o fotógrafo polêmico por só fotografar o povo dos Apalaches? 
Sim. Um amigo meu é amigo dele, e eu já vi algumas daquelas fotos de cobras retorcidas e Bíblias. Tenho certeza que ele não as vê como exploração. Não faço ideia de como as pessoas se sentem em relação a elas. Não sei como ele as convence, e talvez elas não aceitem mais. Eu sei que alguns dos fotografados pela FSA durante a Grande Depressão ficaram muito bravos depois, porque foram retratados como sujos e seminus. Então sim, está lá. Isso alimenta algum tipo de coisa indecente em seres humanos que gostam de ver outros mais miseráveis e humilhados. Não é isso que eu tento fazer. Não tento explorar as pessoas e não escrevo sobre pessoas específicas, é mais uma amálgama de centenas de pessoas que eu vi, observei, co-nheci, vislumbrei. 

Em seus livros há um discurso incessante constante contra forasteiros sem-noção que se mudam para a zona rural. A história que mencionei, “Negatives”, estava em seu primeiro livro, Heart Songs. Você morava em Vermont na época, final da década de 80, que é cheia de malandros de Nova York. Você escreveu por experiência própria? 
Tinham muitas pessoas assim por lá. Vermont é um estado pequenininho. Era o segundo estado mais rural no país na época que eu estava escrevendo essas histórias, depois de Wyoming, que é o mais rural. 60 milhões de pessoas moram a um dia dirigindo de distância de Vermont, que é muito, mas muito bonita, como você sabe. Então havia enxames de pessoas indo para lá procurar por velhas casas de fazenda que pudessem reformar. Isso espreitava no fundo da minha mente quando eu escrevia sobre essas pessoas. Em Wyoming isso está começando agora, gente vindo de Denver ou Boulder. Especificamente, Boulder meio que perdeu seu charme para muita gente que se mudou para lá porque é muito perto das [montanhas] Flatirons, outro lugar rural excelente. Mas agora mudou e estão começando a vir para Wyoming.

Esse tipo de desilusão é um resultado de viver em uma cidade por tempo demais? 
Na verdade nunca pensei sobre isso. De pronto eu diria que é uma situação onde eles viveram com possibilidades. A possibilidade de mudar de emprego, ter aulas de sânscrito, tai chi, seja o que for. No campo você tem o que você tem, e é o que é. Não existe esse trampolim para a imaginação. Por outro lado, algumas pessoas são induzidas à criatividade pela solidão e distância. Existe uma história que escrevi chamada “55 Miles to the Gas Pump”, sobre dois personagens, um homem e sua esposa, e eu acho que essa história tem duas frases. O que eu estava tentando fazer, e pouca gente entendeu, era mostrar que em uma situação de isolamento a imaginação pode se dilatar loucamente. Essa história é só isso, a imaginação dilatada de duas pessoas que não gostam muito uma da outra num lugar distante. 

Uma delas havia matado mulheres e as empilhado em seu sótão por anos. Então por que você se mudou para o Wyoming?
Eu tenho a tendência de me apaixonar violentamente pelos lugares na primeira vez em que piso neles. Foi assim quando fui pela primeira vez para Newfoundland, com Wyoming também. Mas Wyoming era… por causa das linhas do horizonte distantes, e por causa do fato de você poder andar, andar e andar—desde que o fato de pular cercas de arame farpado não te incomode—, era maravilhoso para pensar. Histórias saltaram do ar só por causa da vista. Mas tem mais aí. Sou imensamente interessada em geografia e geologia. Tenho consciência da terra sob meus pés e penso nela constantemente. Vou mentalmente para dentro do magma derretido. Então isso acaba aparecendo nas histórias. 

Quanto tempo demorou até você sentir que era de Wyoming?
Eu nunca gostaria de me sentir assim. Nunca morei num lugar onde me sentisse parte dele. Sou uma forasteira perceptiva, e isso para mim está bom. É confortável para mim. Vim para Wyoming quando eu estava trabalhando no romance Postcards. Eu queria ir para todos os lugares que o meu protagonista principal tinha visto. Então fui para o Oeste, e precisava de um lugar para ficar um tempinho e fazer pesquisas para completar o que não sabia sobre a região. Descobri que existia uma espécie de retiro de escritores em Ucross. Então fui até lá, gostei muito aliás, e acabei me mudando. 

Suas descrições dos lugares do estado e especialmente do clima são precisão poética, se isso não for um paradoxo. 
Apenas tenho muita consciência da paisagem e da forma do mundo ao redor dos personagens.

Mas, por exemplo, a nevasca em “The Half-Skinned Steer”. Foi traumático só de ler. Aquilo não veio da imaginação. 
Quando eu morava em Centennial, o que fiz durante 14 anos, por estar tão perto dessas pistas de esqui realmente magníficas, eu esquiava todos os dias, sozinha. Eu estava lá fora em tempestades perigosas e em situações severas. Mas ainda estou viva. Acho que tenho mais bom senso que meus personagens. Eu sempre sabia quando voltar. 

Você não publicou seu primeiro livro de ficção até ter 53 anos. Você simplesmente pensava em fazer isso durante todos esses anos? 
Acho que escrevi ficção em minha mente muitos anos antes de colocar algo no papel. Sempre pensei em mim mesma como uma leitora, e obviamente ainda penso. Não como escritora, mas como leitora. 

Encontrei um livro de Annie Proulx num bazar caseiro anos atrás. É de antes de sua escrita de ficção, chama The Fine Art of Salad Gardening, e é excelente. Mais tarde descobri que você escreveu uma série de manuais. É isso que você pretendia fazer no começo? 
Não, isso colocava comida na mesa. Esses foram livros encomendados. Não eram coisas sobre as quais eu queria escrever ou tivesse interesse. Apesar de sempre ter gostado de jardinagem. Mesmo em Wyoming. Tenho uma estufa aqui e tenho os tomates mais frescos do quarteirão.

Ainda existe um desejo de mudar para outras geografias?
Ah, com certeza. Praticamente acabei de escrever sobre Wyoming. Estou tentando terminar a última coisa exatamente agora, que é um tipo de memória sobre minha casa com a estrada tomada pela neve. Então voltarei para a ficção e não será sobre Wyoming. Existe algo a respeito do qual venho coletando material há anos e espero poder me dedicar. É um romance sobre florestas, das marinhas à Nova Zelândia. [pausa] Eu não sei se você conhece um pequeno poema de Alastair Reid chamado “Counting”. É assim: “Ounce, dice, trice, quartz, quince, sago, serpent, oxygen, nitrogen, denim”. Falando nisso, boa sorte. 
Thank for your puchase!
You have successfully purchased.