Bombas em Kampala

Uma bomba explodiu a cerca de dois minutos da minha casa na noite de domingo durante a final da Copa do Mundo. Explodiu em um pequeno restaurante etíope diante do qual eu havia passado, a pé, cerca de uma hora antes, e treze pessoas foram mortas. Mais ou menos uma hora depois outras duas bombas explodiram em um bar em outra parte de Kampala, em Uganda. Até agora, o número de mortos chegou a 74.

Na hora da primeira explosão eu estava em outro bar curtindo uma final de Copa do Mundo tensa, com outras cem pessoas aproximadamente. Em todas as ruas perto de mim havia outras centenas de pessoas fazendo a mesma coisa.

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Alguém ouviu a primeira explosão e disse a mim e aos meus amigos que era melhor voltar para casa, mas achamos que não fosse nada e ficamos, afinal, ninguém acreditava que uma coisa como essa poderia acontecer em Kampala. Foi só depois da segunda e terceira explosão que a maioria das pessoas começou a se mandar.

Depois de esperar que alguns amigos pegassem táxis para suas casas, eu fui junto com um amigo ver o que tinha acontecido. Fomos até onde havia ocorrido a primeira explosão – um subúrbio ao sul da cidade chamado Kabalagala, um tipo de distrito da luz vermelha [bairro de prostituição] e lugar de baladas populares. Depois de passar pelo cordão de isolamento da polícia, encontramos um outro grupo de jornalistas, que estavam tão confusos quanto nós. Ninguém parecia entender o que estava ocorrendo. Diziam que al-Shabab (o principal grupo islâmico militante da Somália) tinha problemas com Uganda por causa de sua participação nos esforços de manutenção de paz na região e havia ameaçado atacar Uganda. Ainda assim, ninguém acreditava que aconteceria, como disse um amigo, “nossa pequana Kampala”.

Um tempo depois um caminhão que carregava corpos de vítimas saiu do restaurante. Havia pedaços de corpos empilhados na caçamba, dava para ver cabeças descobertas, membros e entranhas escorregavam por toda parte. Não era o que eu esperava assistir aquela tarde.

Conversamos com diversas pessoas – curiosos espantados do outro lado da rua que haviam ouvido o barulho e correram – e escutamos as obviedades da polícia para nos acalmar antes de irmos ao local da segunda explosão no Rugby Club (um campo de esportes e bar popular).

Aqui a polícia não deixava ninguém chegar perto. As fotos publicadas no dia seguinte mostravam cadáveres cheios de estilhaços ainda em suas cadeiras. Um amigo médico entrou para ver se poderia ajudar, mas disse que só encontrou mortos. Eu conversei com um sobrevivente que havia voltado para pegar seu carro que parecia completamente em choque. Ele também havia apenas ouvido a explosão e se mandou o mais rápido que pode. Ele havia sido arremessado pelo impacto e simplesmente engatinhou para longe. Depois de um tempo ele se deu conta de que suas costas estavam salpicadas de estilhaços e encharcado de sangue. Ele não conseguia nos olhar nos olhos.

Eu falei com alguns motoristas de boda boda (mototáxi) que estavam do outro lado da rua. Eles não haviam visto nada por causa do muro alto, mas haviam ouvido a explosão e visto a fumaça. Depois, disseram, centenas de pessoas feridas e desorientadas saíram pelo portão. Algumas sangravam e tropeçavam, algumas até tinham perdidos membros inteiros de seus corpos.

Em ambos os locais houve um frenesi de atividade. Ninguém sabia o que fazer, quem eram os responsáveis ou como reagir. Eu anotei no meu telefone à 1:23 da manhã, um pensamento que ainda me parece ter sido o sentimento: “Ninguém esperava por isso, não em Kampala”.

Fomos de carro até p Hospital Mulago – o hospital central de Uganda aonde haviam sido levados a maioria dos feridos. Eram cerca de duas horas da manhã quando chegamos e ainda era evidente o quanto os ataques haviam sido sérios. Médicos e enfermeiras andavam para cima e para baixo, removendo suas luvas manchadas de sangue e orientando macas ensanguentadas pelos corredores. Se você nunca viu esse hospital antes, saiba que é uma experiência impressionante. É uma relíquia do império britânico, mal financiada e antiquada, repleta de moribundos e desprovida de equipe e recursos. A primeira vez que vim ao Mulago, vi dois mortos, e era um dia normal. Há problemas endêmicos de falta de dinheiro que dão em corrupção e serviço inadequado. Resumindo, é uma zona.


Um homem ferido no hospital de Mulago.

A essa altura, eu comecei a receber avisos de vários amigos pela cidade: não tome um boa para voltar para casa. A polícia estava caindo em cima de quem estava pelas ruas da cidade e diziam que estavam apavorando as pessoas em seus carros. Além do mais, não oficialmente, claro, os motoristas de boda boda haviam sido mobilizados, como acontece às vezes, no papel de tropa de choque clandestina, armados de porretes e dispostos à violência.

O sentimento na cidade hoje é bastante estranho. Kampala é uma cidade cuja vida está nas ruas – os vendedores de comida, os mercados, o tráfego e os bares todos se esparramam para fora das casas e prédios. Assim como depois dos distúrbios do ano passado, as pessoas agora procuram ficar em suas casas, especialmente à noite. Hoje, dois dias depois dos ataques, mais pessoas se arriscam a sair mas eu imagino que, assim que cair a noite, o mesmo vazio tomará conta da cidade novamente.

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