John Lurie é um especialista da falsificação. Mesmo deixando o óbvio de lado — o facto de ter sido actor de cinema (de Jim Jarmusch, principalmente; mas também apóstolo n’A Última Tentação de Cristo de Scorsese) —, não é necessário ser exaustivo para fazer uma enumeração demonstrativa dessa sua “qualidade”: formou, com o irmão, uma falsa banda de jazz, os Lounge Lizards; lançou o best of de Marvin Pontiac, um grande cantor afro-judeu desconhecido, que nunca existiu (era o próprio Lurie); escreveu, produziu e realizou um surreal programa sobre pesca, para o qual convidou os amigos Jarmusch, Tom Waits (com estes dois, formou ainda um grupo de falsos filhos de Lee Marvin), Dennis Hopper e Willem Dafoe, em que ninguém sabia pescar — Fishing with John. É exactamente da banda-sonora desse esdrúxulo programa de televisão que saem quatro dos sete temas que compõem The Invention of Animals da John Lurie National Orchestra.A John Lurie National Orchestra é, claro, outra efabulação do músico nova-iorquino. Na verdade, é um trio, em que o saxofone de Lurie é acompanhado pela percussão de Billy Martin e a bateria de Calvin Weston, que serviu para dar vazão a composições que não cabiam no repertório dos Lounge Lizards (banda da qual os outros dois músicos também pertenciam). Composições é como quem diz. A música da John Lurie National Orchestra é muito mais baseada na improvisação, sobretudo do saxofone, que cresce, deriva, perscruta, descobre e se perde, do que em qualquer pauta. Nessa medida, é até bem mais jazzística do que a própria obra dos Lizards. É uma música pseudo-tribal, em que as invectivas de John Lurie que se ouvem amiúde soam a chamamentos e a percussão e a bateria fazem lembrar tambores de civilizações perdidas no coração das trevas. “A field recording of a lost civilization” é como a define, e bem, Billy Martin. The Invention of AnimalsJohn Lurie National Orchestra deu na Polónia.