Curiosities
Bastard Jazz 2013
Alguma vez repararam que a música escolhida para acompanhar cada uma das situações da série
Riscos nunca era muito credível? Se a Rita, por exemplo, tivesse uma discussão super-agressiva com os pais e fugisse toda rebelde para uma rave, a música que se escutava nada tinha a ver com esse contexto. Quando o Diogo era seduzido pela professora bombástica de ginástica (adoro-te, Margarida Marinho), tocava Tracy Chapman ou Sara Tavares, e toda a sensualidade da cena morria logo ali. Safava-se no meio de tudo isto “Seven Fingered Friend”, dos Primitive Reason, que funcionava bem quando era necessário mostrar que havia uma festa na escola e toda a malta iria lá estar. De resto, a série juvenil da RTP era um desastre no critério musical.
Curiosities, o segundo longa-duração de Lord Echo, é uma espécie de disco feito para não falhar aos ouvidos de quem hoje tem entre 30 e 40 anos, mas que ainda gosta de sair para beber um copo e dançar. Em comparação com o
Riscos, na sua função de proporcionar uma banda-sonora para vidas muito fixes [alerta: sarcasmo],
Curiosities consegue triunfar em tudo o que a série dos jovens enjoados era um fracasso: orienta-se por um inquestionável bom gosto musical, oferece boas opções para os ânimos de cada momento e é convincente nesse desdobramento multifacetado (o levantar de voo tropical de “Endless Dawn” é tão agradável como a curtição especial de “Arabesque”). O responsável por tanto acerto é o próprio Lord Echo, produtor neozelandês especialmente reconhecido no seu país pela sofisticação do seu trabalho.
Na verdade,
Curiosities é tão certinho e seguro no seu desfile luxurioso de funk, boogie e soul, que acaba por soar um nadinha chato. Contudo a insipidez deste novo disco de Lord Echo só passa a ser realmente ofensiva quando “The Creator Has a Masterplan” tem um refrão a meio-caminho entre o Michael Jackson ecológico e The Kelly Family (e aí fica mais perto do
Riscos). Se nos alhearmos disso,
Curiosities é quase o primo-direito de qualquer coisa gravada pelos Fat Freddy’s Drop (ambos os nomes provêm de Wellington, Nova Zelândia) e o disco certo para, neste Natal, oferecer a alguém que goste de
clubbing e essas coisas.