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Falámos com o artista que está a fazer o filme mais longo de sempre

Uma conversa com Anders Weberg sobre tempo, arte e o que se passa quando se faz um filme que dura 720 horas.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

A história do cinema está repleta de experiências no que diz respeito a resistência. Nos anos 1960, Andy Warhol foi responsável por um punhado de projectos em modo duração-de-maratona. Um exemplo é Empire (1964), um plano de oito horas em câmara lenta do Empire State Building. Nos anos 2000, vimos realizadores tirarem partido da transição para o digital, para esticar os limites da tradicional duração de uma longa metragem. Algo exemplificado em Modern Times, projecto dinamarquês de 2011, que actualmente detém o recorde de filme mais longo de sempre, com umas épicas 240 horas.

O artista sueco Anders Weberg quer bater esse recorde. Durante mais de 20 anos, Weberg trabalhou no meio artístico ligado aos "visual media" e navegou por outras expressões artísticas em que o aspecto dimensional era preponderante. Em meados dos 2000 foi responsável por cunhar o termo "peer-to-peer art", ou seja, trabalhos que só podiam ser vistos ou partilhados através de redes digitais peer-to-peer. 

Também brincou com o tempo, com o seu vídeo mais longo a atingir as 12 horas. Agora, o sueco quer dizer adeus aos "visual media" (mas não à arte no geral) e, no seu último estertor, quer deixar marcas e conquistar um espaço na história do cinema. "Ambiancé" está a ser feito há seis anos e é um filme com 720 horas.

"Pode ser difícil colocar  Ambiancé em palavras, mas, visualmente, é exuberante".

No IMDB é descrito como um filme em que "espaço e tempo se entrelaçam numa viagem que parece um sonho surreal" e, para Weberg, é algo que se posiciona entre uma memória e uma retrospectiva de carreira, embebido da energia de um sonho febril. Quando pressionado para fazer uma sinopse, o realizador acaba um bocado perdido. "É a pergunta que mais me fazem", diz. "Como é que uma pessoa explica um filme que dura 30 dias?". Ao invés, agarra-se a uma série de grandes temas abstractos para descrever o projecto: vida, busca, poder, morte, escape, descanso, amor.

Pode ser difícil colocar Ambiancé em palavras, mas, visualmente, é exuberante: do pouco que vi, o filme pega em imagens texturizadas do mundo natural (abelhas a polinizar, água a correr, nevoeiro a cobrir a silhueta de um farol) e funde-as com breves trechos surrealistas, como os movimentos de sonho de bailarinos, ou os detalhes mais perturbadores de um olho humano.

Pode parecer uma tentativa de fazer um moderno e personalizado "Koyaanisqatsi", ou até um grande golpe de RP para meter a Internet a olhar para a sua outra arte: depois de em 2020 projectar o filme simultaneamente em todos os continentes, Weberg planeia destruí-lo, fazendo com que a sua projecção seja única. O marketing experimental de "Ambiancé" tem seguido um padrão semelhante. O primeiro "teaser", lançado em Julho de 2014 e com cerca de 72 minutos, desapareceu quase de imediato da net. Em Novembro, Weberg partilhou um excerto de cerca de um minuto de um trailer que será lançado no próximo ano e que terá sete horas e 20 minutos de duração.

Esta é a minha conversa com Anders Weberg sobre tempo, arte e o que se passa quando se faz um filme que dura 720 horas.

VICE: Podes explicar porque é que quiseste que o teu último projecto cinematográfico fosse uma experiência tão rigorosamente formal?

Anders Weberg: Este é o meu último filme, portanto, como é que um gajo acaba em grande? É muito pessoal e como já tinha feito filmes longos anteriormente, este teria de ser bastante especial. É também uma forma de encontrar o meu foco outra vez e mergulhar profundamente no processo, que adoro, de fazer um filme, uma última vez.

Pessoalmente, como é que te preparaste para tamanha tarefa? Podes falar um pouco sobre o processo de pré-produção, bem como o que tem sido a construção do filme até agora?

Passei muitas horas só a pensar nisto e ainda continuo. O filme está dividido num determinado número de partes e cenas, todas já rascunhadas, mas como é um processo em curso está sempre a mudar. Tenho um sistema de anotações caótico no meu computador, onde guardo as ideias e os esboços.

Há diferentes abordagens à pré-produção dependendo se há actores envolvidos, ou não. Se sou só eu, não há problema. Quando filmei o trailer de sete horas e 20 minutos tive de lutar bastante para o fazer da forma que queria. Tinha de ser um "take" em contínuo durante o tempo todo e o equipamento que temos hoje em dia não está propriamente feito para isso.

"No meu processo recolho vislumbres de luz com uma câmera, levo-os para o computador e é aí que o trabalho a sério começa".

Quantas pessoas tem a tua equipa? Já tinham trabalhado contigo noutros projectos?

Para este filme, a equipa é constituída, essencialmente, por mim. Produzo, realizo, filmo, edito e estou por trás de basicamente toda a pré-produção. Quando preciso vou buscar um "MacGyver". A pessoa mais importante numa filmagem é aquela que consegue fazer magia com fita-cola, óleo de bebé e uma folha de alumínio.

Como é que descreves o processo para se fazer um filme desta natureza?

No meu processo recolho vislumbres de luz com uma câmera, levo-os para o computador e é aí que o trabalho a sério começa. É pegar em todos esses vislumbres, organizá-los e reorganizá-los até encontrar uma linha fluída que eu ache que representa a emoção que estou a tentar expressar. Há muita pós-produção em "Ambiancé", em que passo todo o material captado por inúmeros processos.

É algo meticulosamente planeado, ou há muito de improviso e de "deixar correr"?

Toda a minha abordagem à realização passa por tentar expressar emoções através de imagens e isso é bastante difícil de planear, uma vez que são coisas que estão em permanente mudança. Nunca fiz um "storyboard" e certamente que não tenciono começar agora. Gosto de sentir prazer no que faço e para mim isso passa por sentir o momento e deixar-me ir. Tenho sempre um esboço de que material vou precisar para cada cena, por isso começo pelo que preciso para capturar o momento. Depois disso é "free style" e desfrutar do processo criativo.


Anders Weberg.

Há actores no filme?

Na versão final haverá cerca de 100 actores, bailarinos e performers envolvidos de diferentes formas. Alguns são de produções minhas anteriores, mas a maioria só entra neste filme.

Até agora não há uma única linha de diálogo. Talvez isso mude, mas não tenho tido a necessidade de usar diálogo para explicar o que quer que seja. Estou a trabalhar com um meio visual. Julgo que o diálogo no cinema é um pouco sobreutilizado. É como os ritmos na música - estas coisas nem sempre são necessárias. Existirá uma banda sonora para todo o filme feita pelo compositor alemão Martin Juhls, também conhecido como Marsen Jules.

As pessoas no filme usam os seus corpos e expressões e isso é um desafio. Mas a regra número um é filmar sempre de uma forma divertida, num ambiente relaxado. Num local onde consigamos sempre passar um bom bocado. A experiência deve permanecer sempre como uma boa memória para todos.

"Depois da exibição, viajarei para os locais e destruirei fisicamente todos os meios utilizados na projecção". 

Dizes que é o teu último filme. O que te leva a abandonar os meios visuais?

Nos últimos dois anos perdi um bocado o interesse pela imagem em movimento. Não tenho a certeza do que será o futuro dos media baseados na imagem em movimento e decidi pensar numa forma de seguir em frente.

Podes falar-me sobre o plano de exibir o filme simultaneamente em todos os continentes? Como é que imaginas que isto irá acontecer?

Ainda não estão definidos os locais exactos, mas o filme começará a 31 de Dezembro de 2020, nos diferentes fusos horários. Depois da exibição, viajarei para os locais e destruirei fisicamente todos os meios utilizados na projecção. Entendo como parte da performance garantir que os originais são todos apagados. Depois vou beber um copo de vinho.

O conceito do que é efémero é uma diferença chave quando se compara a era do analógico à era do digital, principalmente no cinema. Destruindo o filme estás a tentar ligar de alguma forma estes dois princípios distintos?

É isso mesmo. Para mim, o filme é apenas uma parte do projecto. A criação e destruição têm o mesmo valor. Acho que foi por volta de 2002, quando o meu filho mais velho tinha 10 anos e começou a usar o computador com mais frequência, que notei uma mudança na forma como os jovens tratavam todos os géneros de media. Música, filmes, jogos eram partilhados, descarregados, apagados sem qualquer tipo de emoção ligada ao processo. Com este filme, quero inverter e transformar isso.

Quem é que está a pagar o filme?

É 100% auto-financiado. Aprendi ao longo dos anos que a partir do momento em que começas a gastar o dinheiro de outros perdes controlo e tens de te comprometer. Para "Ambiancé" serei o único a ter a última decisão e o "final cut" de cada frame. Não sei quanto é que vai custar, mas é um trabalho a tempo inteiro para, pelo menos, cinco anos, mais os gastos de produção. Mas eu venho de uma cultura DIY, está-me no sangue. E como nunca fiz parte do "negócio" do cinema, não sei fazer as coisas de outra forma.

Como artista tão interessado no tempo, a destruição final do filme é uma forma de capturares a ideia de "final", de acabares de vez com este meio no geral?

É um adeus gigante. Depois disso vou gastar o meu tempo noutra coisa e tenho de ir livre. Anseio por esse momento.

Descobre mais sobre "Ambiancé" em thelongestfilm.com

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