Fomos lá e vimos: Fachada

Todos sabemos que o ano passado foi particularmente penoso para os portugueses, repleto de cortes de salários, subsídios, pensões e tudo isso o que nos vai apoquentando numa base mais ou menos diária. Como se isso não bastasse, houve também uma privação bem menos noticiada mas também difícil de suportar: B Fachada fez de 2013 o seu ano sabático, durante o qual – e pela primeira vez em alguns anos – não lançaria música nova. Depois de tanto tempo habituados a discos para enfeitar os nossos verões e invernos, eis que fomos postos à prova, como se de um período de seca se tratasse. Foi penoso, mas rejubilemos: ele voltou.

A galeria Zé dos Bois foi o local escolhido para anunciar o regresso de Fachada, que nesta nova encarnação deixou cair o “B” que tanto tempo o acompanhou. Perdemos uma letra mas no concerto ganhámos outra logo desde o início — o Éme abriu a noite com um set surpresa composto por novas canções, que poderão ser encontradas no seu próximo disco. Foi durante a última das quais que surgiu Fachada em palco, dançando ainda os tons finais da guitarra que se fazia ouvir. Poucos segundos se passaram entre o terminar de um concerto e o iniciar do seguinte — apenas os suficientes para afinações e abrir um bloco de notas com cábulas para a noite. Fachada explicou-nos desde logo que a febre que o atacou no início da semana poderia causar algumas dissonâncias, mas na verdade se não nos tivesse dito, nem teríamos reparado.



Os aplausos efusivos no final de “Zé!”, repescada d’ Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado e primeiro tema da noite não enganam: esta malta sentiu-lhe mesmo a falta. Inicialmente, o plano teria sido de dedicar a noite exclusivamente a novas canções, mas perante o grau inacabado de algumas delas viu-se obrigado a recorrer ao material antigo e dificilmente alguém terá levado isso a mal. Dividindo-se entre a guitarra e o sintetizador percorreu também temas de Criôlo, É P’ra Meninos e dos dois discos homónimos (enorme sing-along da audiência em “Kit de Prestidigitação”), e deixou um espacinho para uma versão aportuguesada do clássico folk norte-americano “This Land Is Your Land” num dos três encores: “das ilhas até à serra, de Alfama a Salvaterra, da Mata do Bussaco, às águas vicentinas, esta terra foi feita para nós.” “Uma brincadeira”, explicou, cuja letra foi rapidamente entoada pelo público que o enfrentava.



Nota final para as novas canções apresentadas, que enfrentavam ali um primeiro teste antes de serem gravadas e mostradas em disco. Foram cinco, todas vivendo do sintetizador e de cativantes beats produzidos, quase que continuando onde Criôlo nos tinha deixado no Verão de 2012. Conhecemos alguns dos títulos, como “Dá Música à Bófia” e “Pifarinho”, alguns detalhes surpreendentes (há um Ich bin ein poltergeist surpreendente algures num dos refrões) e no geral deixaram-nos óptimas sensações carregadas de tropicalidade e ritmos dançantes. Sensações de “porque-é-que-as-minhas-ancas-não-param-de-se-mexer?”. E como certa colombiana em tempos cantou, as ancas não mentem. Só podem estar para vir coisas boas.


Fotografia por Vera Marmelo

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