Sempre no Limite

Um prédio na fronteira de Ras al-Ain e Ceylanpınar, bombardeado durante combates entre rebeldes sírios e as forças armadas curdas. 

Fevereiro de 2013. Estou no cruzamento de Kilis, no lado sírio da fronteira entre Turquia e Síria. Um cara grande, de cabeça raspada, vestindo um uniforme desalinhado e com uma Kalashnikov muito antiga pendurada no ombro verifica lentamente meu passaporte, folheando-o do começo ao fim, e uma página de cada vez. Sem levantar a cabeça, ele pergunta: “Você esteve na Síria?” Ele se comporta como um interrogador. Concordo com a cabeça.

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“Antes da libertação ou depois da libertação?”

“Antes da libertação”, eu digo. Imagino se devo me desculpar. Ele começa a folhear meu passaporte novamente, dessa vez de trás para frente. “E você é jornalista?”

“Sim”, respondo. Então, pela primeira vez, ele me olha direto nos olhos e sorri.

“Bem-vinda à Síria Livre!”, ele diz. “Você quer um carimbo?”

Sim, eu queria um carimbo. Claro que queria. Eu tinha acabado de entrar na Síria Livre e queria um suvenir – e o duty-free deles tinha sido saqueado. Então, sorri de volta e lembrei das boas maneiras. “Sim, por favor!”

“Sério?”, ele perguntou, levantando uma sobrancelha. “Tem certeza de que quer um carimbo?” Sem hesitação, confirmei. Ele apertou o carimbo contra a almofada de tinta e carimbou meu passaporte – um pequeno círculo difuso, que mal se distinguia na bagunça de carimbos da página. E depois eu me esqueci completamente disso.

Percebi meu erro sete meses depois. Eu estava no controle de fronteira do Aeroporto de Beirute, com uma fila cada vez maior e mais irritada se formando atrás de mim, e vi o guarda que verificava meu passaporte correr em direção aos colegas e começar a conversar com eles aos sussurros. Depois de falar com todo mundo que estava lá, ele entrou num escritório de painéis de vidro e passou os 20 minutos seguintes falando no telefone.

Segundos antes de se afastar, os olhos dele tinham parado sobre o carimbo. “Você esteve na Síria?”, ele perguntou.

“Sim”, respondi. E assim que o vi sair correndo com meu passaporte, pensei se devia correr atrás dele gritando: “Mas sou jornalista!”.

O mais preocupante nessa situação era que eu não estava tentando entrar no Líbano, mas sair. Eu tinha entrado no país uma semana antes sem nenhum problema e, agora, quando queria sair, o fato de eu ter entrado na área rebelde da Síria de repente se tornou um problema. Conversas vagas que eu tinha ouvido anteriormente começaram a voltar à minha mente. Não tinham me dito que havia um centro de detenção do Hezbollah embaixo deste aeroporto? Comecei a entrar em pânico.

Esse cruzamento de fronteira entre Ras al-Ain e Ceylanpınar foi inicialmente tomado pelo ELS e o Jabhat al-Nusra em novembro de 2012. O YPG curdo tomou o controle do lugar em julho de 2013. 

Aqui vai um resumo das dinâmicas mais sectárias do conflito sírio. O Hezbollah é uma poderosa milícia xiita com base no Líbano e está lutando ao lado de Bashar al-Assad na Síria. Já aos rebeldes sírios, incluindo o cara que carimbou meu passaporte, são sunitas, e lutam contra o regime de Bashar al-Assad. Algumas semanas antes, eu tinha visto um rebelde adolescente jogar um coquetel molotov na direção de combatentes do Hezbollah numa linha de frente em Alepo, um gesto fútil de ódio desesperado. O coquetel não explodiu porque o petróleo que ele usou no explosivo provavelmente tinha vindo de uma refinaria improvisada em Deir ez-Zor. Talvez ele tenha conseguido atingir um deles com a garrafa. Eles realmente não gostam uns dos outros, o Hezbollah e os rebeldes sírios.

“O Hezbollah vai me prender”, pensei. “Eles vão me prender, me encarcerar no buraco negro do Aeroporto de Beirute, e tudo porque pedi um carimbo na fronteira síria.”

O guarda desligou o telefone e voltou. Eu me preparei para as más notícias. E então, sem nem olhar para mim, ele carimbou e me entregou meu passaporte.

“Algum problema?”, perguntei.

“Nenhum problema!”, respondeu e acenou pedindo o passaporte da próxima pessoa. Saí do Líbano confusa.

Mais tarde, contei essa história para um amigo sírio. Ele ouviu, concordou com a cabeça e sorriu. “Eles te deixaram ir porque você é britânica”, ele disse. “Se fosse síria, você estava perdida. Eles iam te prender.”

E ele estava certo. Minha nacionalidade me salvou. Mas minha nacionalidade e a sensação de segurança vinda disso também me colocaram nessa encrenca em primeiro lugar. Cresci na União Europeia, onde cruzar fronteiras é fácil e rotineiro, e onde – desde que você seja um cidadão da UE e fique longe de problemas – ninguém liga muito para onde você esteve nem para onde está indo. Ainda lembro de olhar melancolicamente pela janela do carro, ver uma pedra esculpida que dizia “Bem-vindo à Escócia” e imaginar por que tinha sido tão fácil.

Mas fronteiras são algo diferente no Oriente Médio. Na segunda metade do século 20, depois que as nações europeias que se massacraram na primeira metade fecharam um tratado de livre-comércio, depois uma união política, depois uma área livre de visto e adotaram uma moeda única, os países do Oriente Médio começaram a se rasgar com uma ferocidade cada vez maior. Duas guerras mundiais finalmente empurraram a Europa para a paz. Essas mesmas guerras, e más decisões políticas que se seguiram, ainda alimentam os conflitos no Oriente Médio hoje. Desde 1945, houve mais de 30 guerras nos países do Oriente Médio durante a dissociação dos impérios no século 20.

Então quem você é, de onde você veio e onde esteve determinam quais fronteiras você pode cruzar, e como você será tratado quando fizer isso. Para os estrangeiros que viajavam pela região, costumava haver uma dualidade simples para as fronteiras do Oriente Médio: Israel de um lado e países árabes do outro. Se você tinha carimbos israelenses no passaporte, havia certos países para onde você não podia viajar e vice-versa. Mas o conflito sírio mudou tudo. Essa dualidade está se transformando numa sopa caótica de Israel versus árabes e sunitas versus xiitas, e todos os outros países se juntaram à guerra síria por procuração e estão apoiando um desses lados.

O cruzamento de fronteira de Ras al-Ain e Ceylanpınar.

Parece que esse conflito vai redesenhar o mapa do Oriente Médio. Pelo menos uma fronteira já mudou inteiramente: a linha de 800 quilômetros que separa a Turquia da Síria. Como a maioria dos correspondentes de guerra que cobrem o conflito sírio, passei muito tempo nessa fronteira. Os nomes das cidades que pontuam essa faixa saem da minha boca num ritmo fácil: Antakya, Reyhanlı, Kilis, Akçakale.

Algumas pessoas dizem que a guerra síria nunca poderia ter acontecido sem essa fronteira, o que é verdade. Jornalistas se reúnem aqui porque essa é a maneira mais fácil de entrar na Síria sem um visto fornecido pelo regime. Já se perguntou por que há tantas reportagens de Alepo e tão poucas de Daraa, a cidade onde os primeiros protestos da revolução começaram? É porque Alepo fica a uma curta distância de carro da fronteira turca, enquanto Daraa está do outro lado do país, perto da Jordânia. Quando os rebeldes sírios do norte começaram a dominar os cruzamentos de fronteira no começo de 2012, o governo turco manteve seu lado da fronteira aberto. Os jornalistas podem entrar e sair com facilidade. Eles até conseguem um carimbo da Síria Livre. E se os jornalistas conseguem entrar e sair, combatentes, suprimentos e jihadistas também conseguem – e foi exatamente isso que aconteceu.

Essa fronteira, antes muito regulada no lado sírio, rapidamente se tornou livre para todos. Em maio de 2013, me ofereceram um veículo blindado pela bagatela de US$20.000 num feirão de carros não oficial perto do cruzamento de fronteira em Bab al-Hawa. Até então, eu só tinha visto Hummers em fotos, mas na síria sitiadas esses veículos são vendidos ao lado de BMWs, jipes e Land Rovers. Poucos deles tinham placas; os que tinham vinham do mercado de carros roubados da Romênia e Bulgária. Homens de negócio experientes tinham notado um espaço no mercado. Os rebeldes sírios não queriam dirigir os modelos Saba toscos feitos no Irã que dominavam o mercado sírio há anos. Eles queriam carros de prestígio, e agora eles podiam comprá-los sem a taxa de importação de 250%.

Eu não podia pagar pelo Hummer, mas comprei muitos dos cigarros que vinham de outro jeito.

Os comerciantes das cidades de fronteira da Turquia vendem dois tipos de cigarro: os baratos da Turquia e os muito baratos da Síria. Gauloises rapidamente se tornaram meus favoritos, principalmente porque eu sempre me divertia vendo os combatentes rebeldes durões fumando uma marca que antes eu associava a artistas parisienses. Eles custavam cerca de US$1 o maço numa loja de cidade de fronteira. Era possível comprar um monte deles dos campos de refugiados pela metade do preço.

Mas ainda existem regras internacionais para fronteiras, e elas ditam que as fronteiras controladas pelos rebeldes entre Síria e Turquia são ilegais. Mesmo brutal e difamada, a Síria ainda é um país soberano reconhecido pelas Nações Unidas. O presidente Assad não reconhece o direito dos rebeldes de controlar aquela fronteira, e nem o resto do mundo. E agências de ajuda humanitária precisam respeitar as leis internacionais, mesmo que jornalistas, rebeldes e o capitalismo não respeitem.

Respeitar as regras é uma dor de cabeça quando há milhões de pessoas que precisam desesperadamente de ajuda dentro da Síria. O Programa Alimentar Mundial (PAM) está lutando para lidar com uma das maiores crises humanitárias já vistas, e está tentando entregar alimentos a centenas de milhares de pessoas no norte dominado pelos rebeldes do país. Mas o PAM não pode passar a ajuda através da fronteira com a Turquia. Em vez disso, o grupo precisa atravessar uma rota sinuosa através de fronteiras controladas pelo governo, e depois rodar milhares de quilômetros e dezenas de frentes de combate até chegar onde é preciso. Uma jornada que poderia levar horas dura dias. E os alimentos frequentemente são saqueados ao longo do caminho.

Um combatente do YPG caminha pela curta faixa de terra de ninguém entre a Turquia e a Síria, no cruzamento de fronteira de Ras al-Ain e Ceylanpınar.

Quando você percebe o quão ridículo é isso tudo, você também começa a pensar no quão ridícula é essa fronteira. É uma linha divisória tão arbitrária quanto qualquer outra no Oriente Médio, desenhada por políticos estrangeiros que dividiram o Império Otomano com o tratado de Lausanne em 1923. Esses políticos pareciam ter pouca consideração por áreas étnicas e cidades que a fronteira cortou. No extremo leste, ela corta o território curdo, deixando-os como uma minoria que enfrenta décadas de perseguição tanto na Turquia como na Síria. Famílias estendidas foram separadas por arame farpado e campos minados. Cidades foram cortadas ao meio. Por toda a fronteira, é possível encontrar cidades com dois nomes: Ras al-Ain e Tell Abyad no lado sírio se tornam Ceylanpınar e Akçakale na Turquia. Nada as separa, a não ser o nome e a cerca da fronteira.

E agora, na segunda década do século 21, os fantasmas de Lausanne estão acordando. Os protestos que começaram em Daraa em 2011 foram uma resposta instintiva à brutalidade do regime sírio. Um grupo de crianças em idade escolar foi preso e torturado por fazer pichações contra o regime, e as famílias foram exigir a libertação delas. Mas o regime as reprimiu e os protestos cresceram. Agora, três anos depois, a Síria se despedaçou numa confusão sangrenta. Os curdos estão lutando para proteger seu território. Os rebeldes sunitas estão lutando por liberdade – seja lá o que isso signifique. Os jihadistas estrangeiros estão lutando para estabelecer um califado islâmico. E o regime dominado por alauitas luta para se prender ao poder a qualquer custo. Tudo isso parecia impensável três anos atrás, mas alguns dizem que o conflito sectário na Síria estava escrito nas entrelinhas do Tratado de Lausanne.

Então, qual é o futuro? Enquanto os dias passam e as atrocidades se acumulam, é cada vez mais provável que a Síria termine dividida: um lar autônomo para os curdos no nordeste, um estado alauita que se estende de Damasco até a costa e um estado sunita ocupando o restante do território. Aqueles que observam o conflito de suas poltronas, a milhares de quilômetros dali, acreditam que essa é a melhor opção para a Síria. Mas poucos dos sírios com quem falei concordam.

Isso porque esse país tão lindo, antigo e vibrante sempre foi mais que uma federação forçada de sectos e etnias. Cada cidade e região é uma mistura de culturas e religiões, e era isso que fazia o país ser tão maravilhoso. Então o que vai acontecer com as pessoas que não se encaixam tão perfeitamente nesses novos estados que os comentadores de poltrona imaginam? E como esses novos estados vão lidar uns com os outros?

O Oriente Médio não precisa de mais fronteiras. O Tratado de Lausanne nos ensinou que desenhar mapas raramente funciona, e mais traços nesses mapas dificilmente vão resolver os problemas atuais da região. Mas essa é a coisa triste sobre a história. Ela tende a se repetir.

Tradução: Marina Schnoor

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