A sala está cheia de flores de plástico tão extravagantes que fica impossível me concentrar no que o homem à minha frente está dizendo. Para piorar, um calor insuportável que me deixa desconfortavelmente irrequieta na cadeira onde estou sentada. O xador (espécie de túnica) preto enrolado na minha cabeça—para seguir a lei islâmica de vestuário—cai e alguns cachos suados do meu cabelo deslizam até meu ombro. O Sr. Hosseini, um dos maiores líderes islâmicos de Qom, capital religiosa do Irã, não percebe. Ele está recitando.
“Há uma razão para eu querer conhecer pessoalmente os jornalistas que visitam o templo de Hazrat-e Masumeh’’, Hosseini me informa através do meu guia e tradutor. “Existem muitos mal-entendidos a respeito do Islã. Quero que se lembre disso: o Islã é paz. Infelizmente, a política sempre separa as pessoas. Mas não somos hostis a ninguém.” Ele parece realmente sincero, mas o fato de eu estar sendo obrigada a escutá-lo não torna a situação muito convincente.
Acabo de chegar na sonolenta cidade de Qom com meu fotógrafo, Pieter-Jan, depois de uma parada de uma semana para coletar o material de imprensa em Teerã. No táxi, da estação de trem ao centro da cidade, nosso motorista estava surpreso: “Be khoda, em nome de Deus, o que você está fazendo aqui?”. Antes de eu poder explicar que estávamos buscando material para um futuro livro sobre movimentos juvenis, ele cruzou seu olhar com o meu pelo espelho retrovisor, sorriu e balançou a cabeça. “É muito raro ver estrangeiros na cidade—mesmo jornalistas. Você vai ser o principal assunto da cidade.” Ele então nos deixou no Hazrat-e Masumeh, o templo mais sagrado em Qom, e foi só então que entendemos o que ele queria dizer. “Salam khareji! Olá, estrangeiro!”, um jovem me acenava do outro lado da rua. “Be behesht khosh amadid! Bem-vindo ao paraíso!”
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Mal havíamos entrado no templo quando o supervisor geral insistiu que o acompanhássemos até o escritório do hojatoleslam local. Esse título é dado a clérigos de status avançado em estudos islâmicos—na essência, são intérpretes muito influentes do Corão e modelos de padrão moral. Eles exercem grande poder em todas as camadas da cultura iraniana e era óbvio que, se nos recusássemos a encontrá-lo, não poderíamos entrevistar ou fotografar ninguém. “Não se preocupe, o Sr. Hosseini só quer ter uma conversa amigável com você”, disse-nos o supervisor. Eu já havia tido uma conversa parecida com autoridades civis em Teerã—é estranho quando você começa a se acostumar com coisas desse tipo.
Mas aqui estamos nós, em uma sala abafada e úmida com Hojatoleslam Hosseini. A conversa se volta a assuntos como tirania, injustiça e outras coisas ruins que o Islã é contra. “Me dói o coração saber que há tantas pessoas que cometem crimes em nome do Islã”, ele começa. ‘’Tenha isso em mente: o Talebã e os homens-bomba não têm nada a ver com o Islã. Nada a ver mesmo. Eles são pessoas que não tiveram educação.” Ele parece fazer uma objeção. “Se eles tiveram qualquer tipo de educação, foi nos Estados Unidos. Como você sabe, Osama bin Laden e outros líderes importantes do Talebã foram treinados e educados na América.”
Eu assenti com a cabeça educadamente e tomei um gole do chá servido a mim pelo secretário de Hosseini, que se senta em um canto da sala parecendo profissionalmente interessado. O suor escorre pelo seu rosto e ele segura um lencinho numa mão e um celular na outra. Há alguns furos em suas meias pretas e eu posso ver dois dedões pulando pra fora.
Qom é o coração dos estudos islâmicos no Irã. Também foi a primeira cidade onde o finado Ayatollah Khomeini atacou as políticas quase-amigáveis aos norte-americanos do xá em 1962. Isso fez com que o xá prendesse e então expulsasse Khomeini do Irã em 1964—o que, na verdade, inflamou a Revolução Islâmica Conservadora liderada por Khomeini que, de certo modo, perdura até hoje. A mesma Revolução que Hosseini está tentando, com tanto afinco, descomplicar aos meus olhos.
Mas sua voz vai ficando cada vez mais fraca minuto a minuto. Ele começa a tossir e seu rosto fica vermelho. Ele sorri pra mim quando percebe minha preocupação. “Inshallah, nós teremos um mundo mais pacífico no futuro”, ele me diz. “Você tem o seu Jesus e nós temos nosso Mahdi. Ambos vão voltar e causar uma revolução no mundo, que será enfim um lugar perfeito.” Não muito depois disso, estamos livres pra seguir em frente.
Fico aliviada em voltar às ruas. A proximidade da eleição presidencial deu novo ânimo para a cidade. As mulheres carregam seus xadores pretos em uma mão e uma plaquinha com a foto do presidente em exercício Mahmoud Ahmadinejad na outra. Vejo um menino com um periquito verde no braço. Os iranianos acreditam que os periquitos podem prever o futuro, então eu lhe pergunto o que acontecerá ao país em quatro anos: “Ahmadinejad!” ele sorri radiante, e seu pai acena afirmativamente.

Seguindo pela rua, um grupo de pessoas se acotovela perto de uma parede coberta de verde, a cor do partido da oposição. Mesmo nessa cidade abertamente conservadora, aqueles que apoiam Mir-Hossein Mousavi, o principal rival do presidente, garantiram seu espaço. Dezenas de pessoas se amontoaram ao meu redor, implorando pra serem entrevistadas. Um velho aponta para um pôster de Mousavi e faz o sinal da paz. Um mulá nos observa, com o Corão em sua mão esquerda e um iPhone na direita.
Poucas horas depois, somos parados por três policiais. Um deles me mostra um crachá de imprensa com a foto de Pieter-Jan. “Você conhece esse homem?”, ele pergunta. Através do meu tradutor, respondo que sim, ciente de que Pieter-Jan está mais abaixo na rua, tirando fotos de apoiadores de Mousavi. Ele nos ordena que o sigamos, mas antes me olha com certo desprezo: “Você não tem um bom hejabi—você não está seguindo os códigos islâmicos de vestuário”. Eu peço para o meu tradutor perguntá-lo qual o problema, já que estou usando uma camisa bem grande que quase chega nos meus joelhos. O oficial grita que minha roupa é muito curta. “Talvez isso funcione em Teerã, mas não aqui na cidade de Qom.”
Pieter-Jan e eu recebemos voz de prisão. Somos levados até o centro de detenção, que não lembra em nada um posto policial. Parece mais um ministério religioso. Os três oficiais que nos prenderam falam uns com os outros por walkie-talkie, e um homem sentado atrás da mesa nos observa em silêncio. Um jovem impecavelmente bem vestido aparece pelo corredor e nos saúda com um sotaque americano. “Hi there! Vocês gostariam de participar da minha aula de inglês?” Os policiais ficam rindo. Eu digo que preferimos ficar onde estamos, mas novamente não temos escolha. Uma porta se abre e uns 20 olhares muito curiosos se voltam para nós. “Esses são meus alunos! Por favor, queiram se sentar. O que vocês acham do Irã? E de Qom?” A situação é tão absurda que é difícil não rir. É essa nossa punição por termos conversado com a oposição e pelo meu “mal hejabi”.
Não há tempo a perder: o policial entra na sala e nos ordena que o sigamos para fora. Pela primeira vez, nosso guia parece confuso— quase preocupado. “Eles são uns cuzões”, um jovem sussurra pra mim em inglês quando voltamos às ruas. “Nós os odiamos. Temos problemas com eles todos os dias. Não demonstre que você está com medo. Eles adoram isso.”
Somos levados para um posto policial, e os oficiais começam a se reunir em torno de nós. Não parece mais uma formalidade.
Chegamos, e um grupo de oficiais tira suas botas de combate, batendo umas contra as outras. Me colocam sentada e então me ignoram. Nosso guia inicia uma discussão em voz alta em farsi com um dos policiais: “Mas nós temos permissão para trabalhar aqui! O documento que você nos pediu ainda está no escritório do hojatoleslam”. Por “nós”, entende-se eu e o outro ocidental, Pieter-Jan. O policial o acusa de mentir e então marcha para fora, murmurando algo paro o seu colega, que ri histericamente. Na pequena televisão da sala, Barack Obama está discursando a respeito do Oriente Médio. Na primeira menção ao Irã, um policial desliga a TV.
São 10 horas da noite e o calor ainda é torturante. Oferecem um copo de água a Pieter-Jan. Eu sou ignorada. Percebo que nosso guia desapareceu.
Uma hora e meia depois ouço vozes no corredor. Olho para minha esquerda e nosso guia está parado no corredor, acompanhado de Hojatoleslam Hosseini. O rosto do clérigo está rubro e ele começa a gritar com os policiais.
“Vocês não têm vergonha na cara?” Os policiais ficam quase em posição de sentido, e eu mesma me aprumo na cadeira. “O que essas pessoas fizeram de errado? A permissão oficial de trabalho em Qom está de fato em meu escritório. Foi minha culpa: esqueci de devolvêla.” Ele está lívido, e eu, me sentindo muito melhor comigo mesma. “Que vergonha de vocês! Que ignorantes! Eu digo a esses jovens que o Islã é paz e esse é o jeito que vocês os tratam?”
É importante mencionar que Hosseini estava em um jantar bem importante quando o meu guia o encontrou. Ele havia deixado seus convidados na mesa de jantar para nos pedir desculpas pessoalmente. Parece importante para ele que testemunhemos sua censura aos policiais, ainda que ele esteja verdadeiramente envergonhado.
Fora do posto policial, Hosseini me pergunta se os oficiais me trataram mal. Eu conto sobre o copo de água e ele se desculpa—dessa vez em um inglês perfeito. “Homens como esses não respeitam mulheres. É uma vergonha.” Ele suspira profundamente. “Eles ofendem a minha religião. São ignorantes. São maus. São pessoas como eles que dão má reputação ao Islã. Vou preparar um relatório sobre esse incidente às autoridades.” Enquanto nos despedimos, ele se oferece generosamente para me hospedar em minha próxima visita.
Deixamos Qom antes do planejado—na verdade, na manhã seguinte. No trem a Arak já conseguimos fazer piada sobre nossa aventura de um dia, mas uma sensação estranha logo volta quando os resultados das eleições presidenciais são anunciados dias depois. Ahmadinejad tinha vencido. Estamos em Isfahan quando isso acontece. O clima fica sombrio. Boatos sobre manifestações contrárias começam imediatamente, mas ainda não ocorreu nenhum protesto. O silêncio nas ruas é ainda mais assustador do que nossa prisão dias antes.
Com nossos vistos renovados, podemos continuar no país por mais uma semana. Visitamos as cidades de Yazd, Bandar Abbas e Shiraz, mas é como se estivéssemos em um país que pertence àquele policial idiota do “mal hejabi”, e não o de Hosseini. Antes das eleições, iranianos se aproximavam espontaneamente de turistas para conversar sobre seu país. Agora há medo e preocupação nos olhares de todos, e os opositores estão se reunindo nas ruas. O governo comandado pelos clérigos do legado de Khomeini está irritado e encheu as ruas de patrulhas, dando aos policiais total autoridade de conter os protestos com violência. Alguns dias depois, junto com outros jornalistas ocidentais, somos obrigados a deixar o país.