A ZUM é fera. Abrir uma edição da revista de fotografia editada pelo Instituto Moreira Salles tem um forte paralelo com a sensação de flanar numa boa livraria: o capricho e a amplitude da publicação, a escolha do papel, as fotos de arquivo resgatadas, o espaço para novos e bons artistas, o conteúdo crítico primoroso.
O campo fotográfico nacional e internacional, a internet, a evolução tecnológica, política e artística são pontos costumeiramente colocados em debate na ZUM. A edição #4, que acaba de ser lançada, traz um ensaio fodido da norte-americana Katy Grannan, que fotografou velhas, prostitutas e viciados anônimos pelas ruas de Los Angeles e São Francisco. Outra matéria dessa edição é a que resgata fotos escondidas no assoalho do chinês Li Zhensheng, que, a contragosto do regime, clicou o lado B da Revolução Cultural Proletária de Mao Tsé-Tung. Junto com a nova edição, vem também a bolsa de fotografia 2013 do IMS, que investe R$ 65 mil em dois fotógrafos que apresentem projetos inéditos.
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Foi tão difícil conseguir falar com o Thyago Nogueira, editor da ZUM, que estava atabalhoado com o evento de lançamento do número mais recente da revista, que até lembramos deste som, mas valeu a pena esperar. Abaixo, você entende como uma revista brasileira consegue driblar os trâmites chatos dos direitos autorais, lidar com herdeiros e publicar imagens de caras fodidos da fotografia, vivos ou mortos, como William Eggleston, Enrique Metinides e Thomas Demand. E sim, também falamos sobre a bolsa do IMS, famélicos.
VICE: O que foi essencial para o surgimento da ZUM? Qual era o objetivo da revista, além do aspecto fotográfico?
Thyago Nogueira: A ZUM surgiu da vontade e da necessidade de criar um campo de exposição e debate fotográfico, diante da variedade e da riqueza da produção atual. O objetivo é apresentar um recorte criterioso do melhor da produção fotográfica acompanhado de reflexão intelectual profunda, que apresente os trabalhos e proponha novos caminhos. E já que se trata de uma revista em tempos de encolhimento do mercado editorial, interessa pensar também na relação que há entre a fotografia e as publicações impressas, para que o leitor perceba que aquele objeto é insubstituível, que há experiências visuais que só uma revista é capaz de articular. Por isso nos dedicamos a explorar questões como a edição, a narrativa, as tecnologias de impressão, a variedade de papéis. Assim como a experiência de ir a uma exposição é única, a de folhear uma revista tem de ser também.
“O objetivo é apresentar um recorte criterioso do melhor da produção fotográfica acompanhado de reflexão intelectual profunda”
Como cada edição da ZUM é pensada e estruturada? Existe uma temática inicial de acordo com atualidades ou tendências?
Não há temas nem critérios definidos de antemão. O cardápio de cada edição é pensado para que seja o mais variado possível, para que mostre o quão diverso e surpreendente é o universo fotográfico. Isso significa misturar ensaios longos e curtos, retratos e paisagens, trabalhos feitos por artistas, por fotógrafos ou por amadores, novos e consagrados, notícia e reflexão crítica, entrevistas e perfis, textos clássicos, históricos ou candentes. Também queremos que todas as áreas do conhecimento nos ajudem a pensar e explorar a fotografia. A fotografia é importante para fotógrafos, artistas e críticos, mas também para historiadores, arquitetos, cineastas, escritores, filósofos, sociólogos, todos – queremos contemplar essas vozes e aprender com elas.

A ideia é fazer algo propositivo?
Sim, se pensarmos que a ZUM olha para a fotografia de todos os tempos a partir do nosso tempo, isto é, com a lupa das questões que estão sendo discutidas hoje, que precisam ser pensadas e debatidas agora. Também procuramos, sempre que possível, publicar textos inéditos e convidar artistas e fotógrafos para produzir trabalhos especialmente pensados para a ZUM, como fizeram a Rosângela Rennó, na edição que está nas livrarias, e Mauro Restiffe, na edição #2.
“Herdeiros e agências, às vezes, dão mais trabalho”
Um dos pontos altos da publicação é resgatar preciosidades fotográficas. O trâmite para chegar aos autores ou detentores dos direitos autorais é muito complexo? Como vocês fazem?
O resgate de coisas que merecem ser vistas com mais atenção é um dos objetivos da ZUM. Seja uma preciosidade histórica, que mereça ser repensada com a cabeça atual, seja algo recente, que não foi visto com a devida atenção, que mereça ser examinado sob outro olhar. Os fotógrafos costumam ser muito acessíveis e muitos deles, mesmo estrangeiros, se impressionam com a revista e se envolvem com a edição, como o Jeff Wall ou o Thomas Demand; herdeiros e agências, às vezes, dão mais trabalho.
Alguma pauta foi mais difícil de ser realizada por conta disso? Qual?
Pautas de resgate de arquivo, como a do Jorge Bodanzky na primeira edição, ou a do chinês Li Zhensheng, exigem um investimento de tempo muito grande, para olhar centenas de imagens, deixá-las decantar, estudar a vida do fotógrafo e fazer uma seleção que seja representativa de um trabalho que muitas vezes é gigantesco, complexo. A pauta dos retratos do genocídio do Camboja na ZUM #1, por exemplo, exigiu não só uma profunda pesquisa sobre a história do país, como também que olhássemos quase seis mil imagens. E, uma vez feita a seleção, tivemos de arrumar uma especialista em Phnom Pehn para procurar os negativos escolhidos e escaneá-los em alta definição. Semanas e semanas de trabalho, com vários telefonemas só para acertar os ajustes do scanner.

Você acha que o advento da internet, dos celulares com câmera e de redes como o Instagram diminuiu o interesse das pessoas por fotografia profissional?
Tendo a pensar o contrário. Todo mundo carrega uma câmera no bolso e pode, portanto, ser um fotógrafo em potencial. Se você fotografa e tem curiosidade intelectual, em algum momento vai querer saber mais sobre a fotografia, sobre as técnicas, sobre a história, sobre o que fizeram ou estão fazendo outros profissionais ou amadores como você. Meu palpite é que o interesse pela linguagem fotográfica tende a aumentar, e a própria fotografia vai enriquecer com praticantes tão diversos. As redes sociais e os celulares mudam a maneira como a fotografia e a informação circulam, e isso vai ter um impacto profundo na linguagem.
“O interesse pela linguagem fotográfica tende a aumentar”
O que vocês buscam nos candidatos à Bolsa de Fotografia 2013?
Bons projetos. Sérios, consistentes e visualmente ousados. A bolsa é também uma forma de estimular fotógrafos e artistas a elaborar um projeto pessoal ou tirar um projeto da gaveta – uma forma indireta de esquentar a produção.
Como os vencedores serão escolhidos, e por quem?
Os vencedores serão escolhidos por uma Comissão de Seleção, composta por membros do Instituto Moreira Salles e um especialista convidado.
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