O hyperlink é um negócio louco se você parar para pensar. Um dos mais básicos pilares do HTML mudou completamente a indústria de notícias, transformando um texto preto em azul (ou no caso do Motherboard, em roxo), e popularizou uma prática completamente proibida no jornalismo – copiar o trabalho do concorrente e transformá-lo em algo banal. Mas em breve, se você quiser usar o hyperlink na Espanha, vai te custar algo.
A lei, chamada de norma AEDE, deve colocar uma taxa na agregação, e deve colocar na ilegalidade os blogs, sites de notícias e talvez até o Google Notícias, que usarem links de fontes originais sem pagar uma taxa. Sem dúvidas, isso mudaria fundamentalmente o modo como a economia da indústria da mídia funciona (pelo menos na Espanha – veremos se outros lugares farão o mesmo).
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A ideia é tão grande que um blog espanhol chamou-a de “a mais infame lei da história da internet“. Pode ser uma hipérbole, mas sacanear o jeito como a internet funciona desse jeito certamente tem o potencial de causar uma pequena bagunça, no mínimo.
De acordo com o modo como a lei é redigida, ela requer que os portais de notícias paguem uma taxa por “listar um link e uma descrição significativa dele”, o que provavelmente significa que as citações e algumas frases blogadas que ficaram populares por toda a web teriam que se submeter a isso.
As redes sociais serão isentas do requerimento, mas, apesar disso, o governo espanhol continua calado sobre o que exatamente uma “descrição significativa” de uma notícia significa.
O que eu estou fazendo nesse exato momento é um agregado? Eu estou pegando informações de uma fonte oficial do governo, mas eu também fui alertado da existência dessa lei através de um post no Qartz, que vem cobrindo essa história desde que ela foi proposta em Fevereiro. Um link que leve até eles é o correto, mas se eu mesmo puder confirmar e reportar a história, então ela vira minha?
Se eu não estou conversando com pessoas de Madri sobre isso, eu posso escrever sobre sem pagar? Posso fazer isso eticamente?
Quando foi a última vez que você leu uma notícia sem links para outros sites? Seria o próprio texto do link uma “descrição significativa”? Não é o propósito de um link prover uma “descrição significativa” do que você está prestes a clicar? Quanto me custaria para licenciar esses links sobre os quais estou escrevendo aqui?
A questão dos créditos e dos links (ou da falta deles) é sempre um assunto polêmico no jornalismo. Hoje, os detalhes que você pode evitar, assim que você usa um link, não têm muitos limites. Principalmente porque policiar a internet e como as pessoas se comportam nela e o que elas publicam é um grande pesadelo. Eu suspeito que a Espanha logo vai aprender essa lição – como raios você coloca uma taxa em todos os ilimitados links?
Artigos da Glenn Greenwald sobre NSA, foram notoriamente banidos de alguns dos mais importantes subreddits, que levam, às vezes, a centenas de milhares de cliques. Nesse meio tempo, alguém de outro site de notícias escreveria algumas frases introdutórias, com algumas citações em metade da história, colocaria um novo título e levaria as recompensas da reportagem de Greenwald.
Algum dia, a versão “popular” de uma grande notícia – aquela que acaba passando pelo Twitter, chegando o topo do reddit, sendo compartilhada massivamente no Facebook, postada no Digg ou no Slashdot ou no Drudge Report ou liderando no Google Notícias –normalmente não será aquela que foi reportada originalmente, escrita e publicada.
Em alguns casos, o apanhado de informações é uma leitura melhor e mais simples – enxuto, direto ao ponto, mostrando diferentes ângulos. Em outros, você chega ao limite com um título quase idêntico. Alguns sites se especializaram na primeira opção, outros são notoriamente praticantes desse último.
Em todo caso, a internet como um todo não decidiu como lidar com agregadores. Ao invés disso, todo mundo pratica, pelo menos às vezes – até nos tradicionais jornais diários espanhóis que estão pressionando a norma AEDE.
Há alguns jeitos certos de se fazer dinheiro sem agregar um monte de coisa. Talvez os jornais espanhóis tenham descoberto – eles conseguirão processar os violadores em quantias de até 300 mil euros. No entanto, eu aposto que isso irá transformar tudo numa grande bagunça.
Tradução: Letícia Naísa
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