Discos: Daniel Avery


Drone Logic 
Phantasy Sound

2013


Na nobreza da electrónica actual, Daniel Avery é um autêntico príncipe que caminha, a passos largos, para um trono maior. E o seu percurso fala por si mesmo; afinal, com pouco de mais de 20 anos, já usufrui de uma preciosa residência no incontornável clube londrino Fabric enquanto tem vindo a reter a atenção necessária de quem interessa nesta lógica de crescimento (comunidade artística, media, circuito editorial, e claro, junto do público). Revivalista e cultivador do espírito acid que fez furor em meados dos anos 80 — e que hoje volta a fervilhar em tantas vertentes —, é um caso de estudo de quem soube absorver, com nervo e sapiência, essa escola para depois recontextualizá-la num plano actual. Estratégia eficaz, sem se prezar a fetishismos de época ou upgrades desnecessários. O feeling hedonista original continua lá, absolutamente intocável, de uma ponta à outra, talvez ainda mais lascivo, pois nos dias que correm, convenhamos que ninguém tem paciência para rodeios.

“The one thing I knew was that I wanted this record to be a trip”. A declaração de intenções chega-nos directamente do jovem DJ e produtor britânico que desde logo, na primeira pessoa do singular, nos adverte para essa busca de efeito em Drone Logic. Consciente da sua arte em mexer nos neurónios alheios, Avery (com o toque de Erol Alkan na produção) não expõe qualquer pudor em activar aqueles pontos sensoriais associados à sensação de bem estar e êxtase. Neste aspecto, ocorrem-nos algumas memórias da electro e da big beat (via The Chemical Brothers, permitindo agora, à distância, observá-los como grande banda que eram e são) e saltam-nos igualmente nomes como James Holden, The Field e Todd Terje, master of fun dos dias de hoje, principalmente pelo modo como nos faz flutuar num inebriante espectáculo de luzes, cor e bolas de sabão de várias dimensões. Estava escrito nas estrelas que um dia tinha de surgir um disco assim, pronto a limpar o mau nome das festa de espuma.



Nesta bizarra guloseima ao estilo Peta Zetas, estamos por vezes muito próximos do estado sublime (“Free Floating” faz jus ao título) num céu hiper-melódico em todas as direcções possíveis — e às vezes, aparentemente impossíveis. Minimalista nos padrões, não poupa no entanto nos detalhes exuberantes que se vêm tornar fundamentais. E aqui podem entrar efeitos libertadores em delay, excertos vocais sensuais ou então uma mera nota em rodopio até ao desvanecer. Na metodologia vale tudo, menos vacilar na descolagem. Em boa medida, traços que  até então já se conheciam, timidamente é certo, em formatos de natureza diferente como EPs e mixes (o seu contributo para o podcast da Resident Advisor não deve escapar a ninguém).

Meio mundo aplaudiu (e bem) o nascimento dos Disclosure, mas com Drone Logic, Daniel Avery traz quase tantos e bons argumentos quanto Settle. Para já, e porque há que ser realista, são campeonatos obviamente distantes; todavia, dois mundos bastante próximos em termos de ideias, formas de estar e de ser. Quer isto dizer que se trata um disco merecedor de mais pecadores. Que todas as raves fossem assim.

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