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​Como Ensinar Sentimentos a Um Robô? Faça-o Cantar Ópera

O robô Myon tem o tamanho de uma criança de seis anos e é protagonista de uma ópera em Berlim, na Alemanha
2.7.15
Crédito: Iko Freese/ drama-berlin.de

Na semana passada, o robôzinho humanoide Myon assumiu o papel de destaque de "My Square Lady", uma nova ópera que estreou no Komische Oper, em Berlim, na Alemanha. Ele surpreendeu a plateia ao cantar e balançar seus braços pouco articulados durante uma longa apresentação sobre humanos e máquinas.

Myon foi construído no projeto Evolução de Linguagem Artificial em Robôs Autônomos da União Europeia (ALEAR, na sigla em inglês) para explorar robótica cognitiva e evolução em linguagens artificiais. Trata-se de uma criação do Laboratório de Pesquisa em Neurorobótica do professor Manfred Hild na Universidade de Humboldt, localizada na capital alemã.

Para My Square Lady, os pesquisadores e elenco trabalharam juntos durante dois anos. Eles ensinaram a Myon uma série de comportamentos e o colocaram para cantar junto dos outros vocalistas e uma orquestra.

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Myon não é controlado nos bastidores por um operador; ele foi programado para agir por conta própria e reagir à equipe no palco. O robô pode deslizar pelo palco, prestar atenção à sinais visuais (à cor vermelha, no caso) e cantar acompanhado da orquestra.

"A ópera é sobre mostrar ao robô o que significa ser uma pessoa com emoções", disse-me Bernhard Hansky, cantor da ópera. "Cada parte que cantamos para ele durante o show é sobre uma emoção diferente." Hansky canta sobre morte e destruição.

Myon tem mais ou menos o tamanho de uma criança de oito anos e pesa 16 quilos. Ele tem uma câmera na costas e é constituído de seis peças destacáveis. O que é legal (ou bizarro) é que cada peça tem sua própria fonte de energia, processamento e rede neural – ou seja, cada uma pode funcionar por conta própria.

"Ninguém pode controlar Myon e não tem nenhum humano lhe dizendo o que fazer – o que é fascinante mesmo é o fato de ele ser independente", disse Hansky. O cantor falou sobre quando "conheceu" Myon há dois anos atrás, quando a máquina ainda não tinha nenhum talento teatral.

"Ele estava numa cadeira bem na nossa frente e era isso. Não fazia nada além de nos observar", disse Hansky. "Mas nesses últimos dois anos, ele adquiriu conhecimento sobre comportamentos humanos e agora consegue fazer as coisas sozinho."

Ao passo em que Hansky afirmou que atuar ao lado de um robô foi uma oportunidade única, os ensaios e o show em si não foram destituídos de problemas. Ele lembra de uma ocasião em que Myon parou de funcionar em meio a uma cena e também durante alguns ensaios. "Algumas vezes ele travava porque alguém tinha apertado o botão errado, aí já era e o ensaio acabava mais cedo", afirmou.

Crédito: Iko Freese/ drama-berlin.de

Em outras ocasiões, parece que Myon comanda o espetáculo.

Na última cena, o robô — que canta junto do elenco — decide acompanhar a orquestra. "O principal problema do condutor é ter que desacelerar a orquestra quando ele ouve que Myon decide cantar mais devagar", disse Hansky. "É um enorme desafio para todos no espetáculo acompanharem. Todos surtamos um pouco por não saber o que vem depois."

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A ideia de ter robôs no palco não é nova. Em 2008, o dramaturgo Oriza Hirata se juntou ao criador de robôs Hiroshi Ishiguro para fazer uma peça chamada I, Worker (Eu, Operário, em tradução livre) que estreou o conceito de teatro robótico no Japão. Desde lá, Hirata escreveu mais quatro peças robóticas que incluem robôs amarelos semelhantes a insetos até máquinas mais realistas.

Mas mesmo naquela época, os atores comentavam sobre as dificuldades de se lidar com autômatos. Quando uma atriz atuava ao lado de um androide F feminino de Ishiguro, dizia que faltava "presença" ao robô, o que a fez se sentir sozinha no palco.

Crédito: Iko Freese/ drama-berlin.de

Hansky disse que a reação ao seu espetáculo tem se dividido entre aqueles que gostaram e aqueles que esperavam mais de Myon. "Digamos que eu também esperava um pouco mais no início. Quando se ouve que irá atuar com um robô, imagino aquelas cenas tiradas de filmes, mas há certo desapontamento quando se vê a realidade daquilo", disse.

O colega humano de Myon disse que esperava que robô fosse mais inteligente e reagisse mais ao comportamento humano. "Você pensa que ele irá responder se chamá-lo ou que irá reconhecer e lembrar de você", disse. "Mas também é um alívio saber que serão precisos muitos anos até que um robô possa dominar o mundo."

O cantante e quase-dançante Myon com certeza está a anos-luz de distância das imagens de IAs assassinas conjuradas por nomes como Stephen Hawking e Elon Musk. E por mais que Myon exale fofura, Hansky afirmou não querer trabalhar com robôs mais.

"Teatro ou ópera é emoção e um robô não consegue transmití-la, e o público quer emoção legítima e pessoas no palco", declarou. "Para mim, basta de robôs — ao menos no palco".

Tradução: Thiago "Índio" Silva