Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Alemanha.
Ano passado, a fotógrafa Rebecca Rütten passou três meses num hostel isolado numa ilha tropical, onde um grupo de mochileiros transformou utopia em realidade. Ela documentou os excessos diários desse espíritos livres seminus, predominantemente de países desenvolvidos do globo e privilegiados o suficiente para poder escapar da vida normal por vários meses. Rebecca tentou manter uma distância objetiva, mas obviamente não queria ficar fora da festa. O único jeito de se aproximar dos temas era se tornar parte desse grupo de hedonistas, que tenta encontrar o sentido da vida bebendo e transando muito.
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Ela transformou esses meses num livro chamado Never-Never Land, que começa com foto idílicas de floresta tropical intocada e um porco na praia. A próxima imagem é de duas bundas, recentemente tatuadas com a pergunta “¿POR QUÉ NO?” Rebecca é lacônica sobre a localização exata do hostel, porque quer proteger o lugar de uma invasão de turistas.
Conversei com Rebecca sobre como a série surgiu.
VICE: Seu livro me lembrou muito o filme A Praia — várias pessoas num paraíso isolado, fugindo do mundo real, tacando o foda-se numa dinâmica de grupo possivelmente tóxica. Como você achou que seria a vida lá no hostel?
Rebecca Rütten: Minha primeira vez nesse hostel em particular foi em janeiro de 2014. Todo mundo estava vestido, a música era boa, as pessoas estavam empolgadas e tudo parecia muito intenso. Havia uma sensação real de comunidade. Para Never Never Land, voltei pra lá para ver se esse estilo de vida era tão despreocupado quanto parecia. Mas eu deveria ter questionado os excessos que notei mesmo quando estive lá na primeira vez.

Lendo seu diário, fica claro que você ia perdendo sua distância objetiva a cada dia.
O fato disso ser um projeto fotográfico estava sempre no fundo da minha mente, mas era difícil manter distância. A internet funcionava só às vezes, então eu tinha pouco contato com meus amigos e família. Muitos dos hóspedes estavam lá há mais tempo, e as regras eram imediatamente estabelecidas para os recém-chegados. Era importante fazer parte. Todo mundo participava dos jogos de beber e claro que o sexo casual era encorajado. Tudo isso acrescentava ao tipo de febre de férias que o grupo estava experimentando.
Como você capturou tudo quando também não estava sóbria?
Eu estava sempre com a minha câmera pequena na bolsa. Capturar tudo foi difícil porque eu também queria ser parte do grupo e curtir. Parei de gostar disso quando comecei a notar como as coisas eram repetitivas. E eu via mais e mais pessoas que não pareciam bem tentando entorpecer os sentimentos. O que não é muito diferente do que acontece numa balada num sábado qualquer — às vezes as pessoas querem perder a cabeça mesmo.

Rebecca.
O hostel parece ser bem dentro da floresta, como era lá?
Muito tropical — tinha um monte de escorpiões, papagaios e macacos. Pisei numa jiboia uma vez. O cenário era incrível, mas também perigoso. As pessoas ficavam chapadaças às vezes iam incomodar os animais. E o lugar era tão isolado que não dava para chegar rápido ao hospital se alguma coisa acontecesse. Os hóspedes geralmente tomavam um monte de analgésicos e torciam para o problema passar.
Você pode falar um pouco sobre os textos escritos à mão do seu diário que aparecem no livro?
Fiz algumas perguntas sobre a vida dos personagens interessantes que conheci e pedi que eles escrevessem a resposta no meu diário. É incrível quão ingênuo alguns deles consideravam seu tempo lá. Eles escreveram coisas como “Essa é a melhor experiência da minha vida”, e nas fotos você vê pessoas vomitando ou esfregando o saco na cara de alguém.

A resposta de um dos hóspedes no diário de Rebecca. “Para ser importante isso deve valer a pena, para valer a pena temos que ganhar alguma coisa. O que você ganha viajando? Entendimento. Conhecimento. A remoção de influências externas que podem nublar verdades pessoais. REALIZAÇÃO.”
Como você se sente sobre mochilar depois dessa experiência?
Pergunto a mim mesma por que principalmente garotos brancos de classe média tentam construir essas utopias escapistas em países em desenvolvimento, sem envolver a população local. Por que eles escolhem ir para esses países politicamente fracos — só porque o clima é ótimo? Ou porque sentem que ninguém vai incomodá-los?
Mochilar era minha religião — eu achava que esse era o único estilo de vida verdadeiro. Mas tenho uma visão mais crítica agora. Quando viajo, tento fazer trocas com pessoas e coisas que não entendo ainda — quero sair da minha bolha. O hostel é uma bolha.
Veja mais do trabalho da Rebecca aqui ou no Instagram.




















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