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Quanto tempo dura a Cerimónia dos Óscares? Demasiado

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Em 1929, a primeira cerimónia de entrega de prémios da Academia durou 15 minutos. É provável que o número seja chocante tanto para os super fãs como para os haters que, na noite de 4 de Março [uma da manhã de dia 5 em Portugal], irão sintonizar os seus televisores para assistirem à 90ª edição do evento, numa transmissão que deverá durar pelo menos quatro horas.

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Os Óscares duram demasiado tempo. Talvez seja por causa da necessidade que a ABC tem de amortizar os 75 milhões de dólares que paga pelos direitos de transmissão, com o maior número possível de anúncios a 2.6 milhões de dólares cada. Talvez seja por causa do desejo de Hollywood encher uma sala com o maior número possível de gente famosa. Eventos em directo como este também são sempre imprevisíveis, com as suas tiradas nem sempre eficazes, discursos apaixonados e piadas sexistas desconfortáveis. De qualquer maneira, o que me interessa mesmo agora, aqui, é perceber porque é que aguentamos esta entrega de prémios longa e chata como o caraças, que nem sequer foi criada para nós.

Para teres uma ideia do que é a cerimónia dos Óscares perfeita para uma pessoa normal, não tens de ir muito mais além do conteúdo que a comunicação social (a VICE incluída) produz à volta do espectáculo. Sacamos as melhores piadas e os discursos inspiradores, depois embalamos os vencedores num artigo partilhável e com SEO optimizado. De acordo com a a programação da ABC, o objectivo é arrumar a coisa em três horas, mas há três décadas que isso não acontece. Idealmente, podia receber a informação dos Óscares através de download directo para o meu cérebro uma leitura de cerca de 15 minutos – que é, precisamente, o tempo que demorou aquela primeira cerimónia.

Os Prémios da Academia dispararam para as duas horas em 1930, quando a cerimónia foi transmitida pela primeira vez através da estação de rádio local KNX, que, no entanto, teve o bom senso de manter a coisa no ar por apenas uma hora. Até 1974, os Óscares nunca passaram a barreira das três horas, ano em que The Sting ganhou o galardão para Melhor Filme e um homem passou a correr nu pelo palco durante a emissão.

Nos anos 80 e 90, os Óscares foram consistentes no que às cerimónias de mais de três horas diz respeito. Em 1998, Billy Crystal foi o apresentador e bateu as quatro horas pela primeira vez, ironicamente depois de, na abertura, ter comparado a Cerimónia a Titanic. “Isto é gigantesco, é caro e toda a gente quer que aceleremos as coisas”, disse. Em 2002, no entanto, Whoppi Goldberg destronaria Crystal, com uma extravaganza de quatro horas e 20 minutos. Tenha sido pela segurança reforçada devido ao facto de ser a primeira cerimónia pós-11 de Setembro, pelo caos de pela primeira vez se realizar no Kodak Theatre, ou simplesmente por um agendamento mal planeado, o evento nunca ante se tinha arrastado durante tanto tempo.

É difícil imaginar como é que os 270 convidados que se juntaram no Hollywood Roosevelt Hotel, a 16 de Maio de 1929, passaram o resto da noite. Nada de tentativas de números cómicos por parte das celebridades? Nada de actuações extravagantes? Nada de declarações políticas? Nada de palmadinhas nas costas? Hoje em dia ninguém sequer reconheceria esse evento como os Óscares.

Tal como o Facebook é desenhado para beneficiar os anunciantes que compram dados massivos de informação humana, a verdade é que os Óscares não são feitos para os telespectadores. Louis B. Mayer criou a Academia como uma máquina de relações públicas e como um mecanismo para impedir a indústria do entretenimento de se sindicalizar. Esse barco já zarpou, mas as câmeras estão lá para que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas possa pagar a sua festinha fina.

Isto não quer dizer que a mais importante noite de Hollywood não tenha valor. No fim de contas, não há melhor validação para o trabalho árduo e intemporal de um artista do que a estatueta dourada. Mas, o que é certo é que, em quatro horas, dava para ver duas vezes o tragicamente desprezado Florida Project, de Sean Baker – com intervalo para xixizinho – e o meu tempo seria tremendamente melhor empregue.


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