Sam Lipsyte




ENTREVISTA POR ROCCO CASTORO 
RETRATOS POR ANNABEL MEHRANN
 

sse foi o ano de Sam Lipsyte. No mínimo, 2010 foi o ano em que os críticos de literatura resolveram finalmente dar ao homem os vivas que ele merece. A maioria do entusiasmo teve a ver com The Ask, seu terceiro romance, lançado em março desse ano [no exterior]. Para aqueles que ainda terão o prazer de ler esse livro primoroso e profundamente verdadeiro, The Ask conta a história de Milo, um judeu de meia-idade e insatisfeito que vive em Queens, Nova York, com sua esposa e filho. Milo se via como artista na juventude, mas, depois de fracassar no mundo da arte, trabalha como gerente de projetos em uma universidade medíocre. Ele e seus colegas tentam conseguir grandes investimentos de filantropos que gostam de ver os seus nomes exibidos na fachada de instituições de arte. Ainda no começo do livro, Milo é demitido. Depois de um tempo, ele é recontratado sob estranhas circunstâncias, ligadas a um amigo obscenamente rico dos tempos de faculdade. O que se segue envolve um ex-combatente da guerra do Iraque com pernas de titânio, a separação de Milo—em parte por causa das escapadas sexuais parcialmente negadas de sua mulher com um colega gay de trabalho—, envelopes de dinheiro, um homem de negócios à beira da morte cujo único prazer é o sorvete orgânico feito por um aluno da escolinha alternativa que o filho de Milo frequenta, apetite sexual constante e frustrado, uma mãe lésbica ausente e um pedófilo pervertido. Dúvidas esmagadoras exalam de cada página. É o tipo de livro que se deve guardar para ler quando sua vida cai na rotina, quando nada mais parece te estimular. 

Os primeiros livros e contos de Sam conquistaram o público lentamente ao longo da última década. Seu livro de estreia, O Paciente Steve, de 2002, e HomeLand, de 2004, são, assim como The Ask, corrosivos e deprimentes a ponto de causarem uma estranha sensação de alegria (e não a do tipo “pelo menos não sou como esse cara”). O Paciente Steve é sobre um sujeito pacato que é diagnosticado com o que se revela ser um tédio extremo, e Home Land é uma série de “atualizações” de um jornal de escola, escritas por um fracassado irremediável que mora em Nova Jersey 15 anos após a formatura. Ambos receberam muitos elogios de publicações e sites que são lidos principalmente por pessoas que já tinham ouvido falar de Sam. Home Land chegou a ganhar alguns bons prêmios, mas dezenas de editores o recusaram antes que fosse publicado. E mesmo assim foi relegado ao mercado de impressões baratas no Reino Unido até que a Picador o publicou nos EUA. Venus Drive, uma coleção de contos de Sam publicada em 2000, tem o mesmo tom de suas obras maiores, mas é diferente de maneiras que indicam que seu cérebro está inundado de histórias absolutamente inesperadas, relatadas pelos narradores mais improváveis.

Aos 42 anos, Sam é professor de escrita criativa na Columbia University e bolsista da Fundação Guggenheim. Como muitos entrevistadores e críticos já foram, digamos, perspicazes o suficiente para perceber, The Ask é seu primeiro livro de capa dura e seu primeiro livro com uma campanha de divulgação sólida—graças à Farrar, Strauss e Giroux. Levando em consideração os temas e os personagens esquisitos que habitam as histórias de Sam, talvez o reconhecimento de sua obra não tenha demorado tanto tempo assim. Ele é, sob qualquer ponto de vista, um escritor bem-sucedido que afiou sua voz em seu próprio ritmo. E talvez agora que o mundo parece estar condenado, temos autopiedade e melancolia coletivas suficientes para aceitar as observações de Sam em grande escala. Ou talvez ele tenha apenas escrito um livro inegavelmente bom e importante que realmente atinge as pessoas.

A escrita de Sam é profundamente engraçada e—e esse é seu maior diferencial—, de alguma forma, me força a ser honesto comigo mesmo, ainda que isso seja doloroso. Poucos autores me atingiram dessa maneira. Me encontrei com Sam há poucas semanas no campus da Columbia University para discutir tudo isso e outras coisas.

Vice: Seus últimos nove meses provavelmente foram intensos. Você já devia saber que The Ask era especial, mas a reação tem sido enorme. Agora que as coisas sossegaram um pouco, como você se sente? 
Sam Lipsyte:
 Fiquei entusiasmado com a atenção. Foi ótimo, eu nunca tinha passado por nada parecido. Com o meu livro anterior [Home Land] foi diferente, as pessoas foram descobrindo o livro gradualmente com o passar dos anos. Eu acho que The Ask engatou logo porque foi resenhado em todos os lugares quase instantaneamente. Algumas resenhas foram positivas, outras negativas, mas foi resenhado por todos os veículos de uma vez. Pelo jeito, isso é algo importante.

Essa atenção toda te deixou ansioso? Você tem medo que isso possa afetar o jeito como você escreve? 
Não. Eu só faço o que quero fazer. A minha estratégia é tentar ir de um livro a outro. O sucesso de crítica desse livro significa que vou ter outra chance. A indústria anda bastante agressiva, então muita gente não consegue uma nova chance. Mesmo que os livros recebam boas críticas, às vezes não vendem nada. Acho que tive muita sorte.

Você também viveu o outro lado. Seu primeiro romance foi lançado em 11 de setembro de 2001, e vários editores recusaram Home Land. Não faço ideia de como essas coisas funcionam, mas parece bastante arbitrário. Por que você acha que as coisas foram diferentes com The Ask?
Acho que eu vinha construindo algo desde o meu primeiro livro, e Home Land consolidou isso. Parecia haver um grupo de pessoas interessadas no que eu estava fazendo e no que eu talvez viesse a fazer depois. Eu também fiz muitas leituras nos últimos anos em Nova York e outras cidades, e sei que as pessoas usaram Home Land em cursos em diversos lugares. Ele foi publicado primeiro no Reino Unido porque ninguém queria publicá-lo aqui [EUA]. Home Land teve, na época, uma boa recepção da crítica lá. Nesse meio tempo, um editor chamado Lorin Stein, que hoje está na Paris Review, quis publicar Home Land, assim como outro editor da Farrar, Straus e Giroux, chamado Ethan Nosowsky. Mas eles ainda não tinham as condições necessárias. Mas, um ano depois, Lorin conseguiu publicar junto à Picador. E o livro foi ganhando público nos EUA, e The Ask se beneficiou com isso. Mas esse é apenas um caso específico. Em geral acho que foi meio sorte. Com The Ask—por mais estranho que pareça, ou talvez nem tão estranho—a FSG era a minha casa, e tudo estava indo bem nos EUA, mas eu não conseguia vender no Reino Unido. Passou de mão em mão, e mesmo o cara que era o meu fiel defensor lá o dispensou. Então nunca se sabe. No fim, foi publicado por uma pequena editora inglesa ótima chamada Old Street.

Você acha que a FSG será sua casa nos EUA no futuro próximo? 
Estou preparando outro livro com eles agora. Fiquei muito triste com a saída de Lorin, mas eu adoro o pessoal de lá. Agora estou trabalhando com um editor chamado Eric Chinski, que parece ser uma ótima pessoa e que tem uma reputação incrível. Enquanto eles me quiserem, vou querer ficar por lá.

Qual sua opinião sobre livros digitais, iPads e todas essas maneiras com as quais as editoras estão tentando reinventar seus produtos? Existe alguma esperança de os e-books colocarem um pouco mais de dinheiro no bolso dos autores? 
Eu tenho a mentalidade “o mundo editorial é horrível”, mas aí saio com agentes e editores. Eles sentem que tomaram outro rumo e estão começando a descobrir novas maneiras de trabalhar com as tecnologias digitais. Eles criaram, por necessidade, uma imagem otimista de como tudo vai funcionar. Mas eu ainda não estou muito seguro em relação a isso.

Uma coisa é certa, os departamentos de marketing terão ainda mais influência sobre o que será publicado uma vez que o mercado de digitais se expandir. E isso nos traz de volta a Home Land. Ele apareceu quando essa nova maneira de vender livros estava em ascensão. Eu fico com a impressão de que o pessoal de marketing não sabia como resumir o seu trabalho nos releases, e isso os assustou.
Isso sempre acaba acontecendo. Como escritor, você pensa: “Se é bom, vão querer publicar”. Não é o que um editor pensa. Um editor precisa passar por dois processos. Um deles é “Eu gosto disso?” e o outro é “Isso vende?”. Você imagina que se escrever um livro extraordinário que seja claramente melhor do que os que têm sido publicados, conseguirá publicar. Muitas vezes isso acontece, mas algumas vezes não. Com Home Land, algumas pessoas não entenderam ou não gostaram do seu humor—mas a maioria das pessoas dizia: “Eu não sei como vender esse livro, não sei como divulgar”. A certa altura eu tive que passar a mão no telefone e falar para o editor como eles deveriam me vender. Tive que dar ideias de como poderiam falar de mim. Me arrependo muito daquele telefonema. Foi um dos momentos mais baixos da minha vida de escritor.

Eles eram tão sem noção assim? 
Eram [risos]. E daí eles acabaram comigo, me humilharam. Finalmente, depois de uma hora de conversa sobre as minhas influências e todo esse papo literário, eles disseram: “Não, sério, isso não faz o menor sentido. O que vamos dizer às pessoas a seu respeito?”. Eu disse: “Eu não sei. Sombrio? Engraçado?”. E o editor disse: “Vamos deixar isso para os críticos”. Eu desliguei o telefone. Foi a última vez que levei uma coisa dessas a sério. Meu editor criou uma página no Facebook. Eu não tenho uma página pessoal. Colocavam trechos do meu livro no Twitter, mas eu não faço isso. Tenho certeza que isso me prejudicou de alguma forma, mas tenho que criar e manter uma certa distância.



A sua idade tem alguma coisa a ver com isso? Sinto que alguns anos atrás, quando você estava tentando vender Home Land, havia uma espécie de purgatório editorial com o qual os autores tinham que lidar se não fossem jovens adoráveis de 24 anos em conflito com sua etnia. Isso ainda acontece? 
Não sei se isso ainda acontece tanto, mas com certeza houve uma corrida para contratar jovens. Ofereciam contratos inacreditáveis para pessoas de 20 e poucos anos. O que acho que faz sentido nisso tudo, do ponto de vista deles, é que a venda em si cria a excitação do mercado. E como editor—se você fecha um contrato com alguém que não tem histórico de publicação, um histórico de desempenho—você não pode ser criticado pelas vendas baixas. Isso foi um problema com Home Land, porque o meu livro anterior foi O Paciente Steve. Saiu no dia 11 de setembro, e morreu. Então disseram: “Nossa, olha só o livro anterior dele. Não vendeu nada”. Obviamente, se você dá um monte de dinheiro para alguém que não vendeu livros, quando esse livro não vender os seus superiores vão dizer: “Você é um idiota. Fora daqui”. Mas ninguém vai te culpar por apostar em uma cara nova. O que tudo bem. Alguns desses jovens são bons. Alguns precisam de mais tempo para amadurecer.

Você se arrepende de algo em sua juventude? 
Me arrependo de algumas coisas, mas elas mudaram as coisas para melhor. Me lembro de ter passado uns dois dias na cadeia. Não caiu a ficha imediatamente mas percebi que as coisas não estavam indo na direção certa. Também teve uma vez, quando minha irmã era bem nova, que estávamos brincando no quintal e ela precisou ir ao banheiro. Por pura crueldade a convenci de que ela estava proibida de entrar em casa, então teria que fazer o que precisasse fazer lá fora, e ela acabou deixando um bolo na calçada. Não tirei lição nenhum disso, mas me sinto péssimo até hoje.

Muito do seu trabalho lida com a infância e a paternidade e maternidade de maneira bastante desconfortável. Você não ignora as alegrias de ter filhos, mas também explora a agonia que vem junto. A minha mãe leu The Ask porque tinha lido elogios sobre o livro. Ela me disse que apesar de ter gostado, e de ter achado a escrita excelente, não era o “tipo de livro” que ela normalmente lia. Cheguei `a conclusão que o livro a deixou desconfortável, e que esse sentimento não é o que ela busca na literatura. Acho que o que mais a incomodou foi sua maneira de escrever sobre a condição de ser pai e mãe e sobre o casamento. 
Tem muitas coisas deprimentes que envolvem ter filhos, assim como tenho certeza de que tem muita coisa deprimente em ser solitário. Acho que venho de um lugar onde a felicidade não é necessariamente um direito. Sua busca é. Esperam que eu te mostre uma foto dos meus filhos e diga o quanto eles são maravilhosos, e que eu seja modesto em relação a isso, mas não esperam que eu diga que me sinto sufocado e que perdi meu senso de identidade. Todas essas coisas acontecem, mas não é necessariamente sempre assim. É só uma questão de ser honesto.

Eu sempre disse que não quero ter filhos. Todo mundo me diz que isso vai passar. Você ficaria ofendido ou incomodado se eu dissesse que os seus livros reafirmam a minha repulsa à paternidade? 
Quantos anos você tem?

Vinte e oito. 
Você ainda tem tempo pela frente.

Tudo bem, mas eu posso te garantir que vai demorar muito para acontecer. Eu só vou ter filhos se tiver dinheiro para contratar pessoas para se encarregarem das partes ruins, me deixando só as alegrias. Talvez eu precise congelar meus espermas para ter tempo suficiente, mas esse é o meu plano. 
Eu não quis ter filhos, porque nunca pensei nisso. Nunca fui o tipo de pessoa que tem uma filosofia sobre o assunto. Eu não era do tipo: “Se você quer sair comigo, você precisa saber que eu nunca vou ter filhos”. Eu não pensava no assunto. Não é tanto uma questão de querer ter filhos, mas de querer ter filhos com alguém. Se você não está com aquela pessoa não é realmente um problema. E algumas pessoas podem querer ter filhos mais do que outras, mas é questão de querer isso com alguém. É por isso que nunca se sabe o que vai acontecer.

Você é religioso? 
É uma pergunta engraçada porque eu estive em um encontro de escritores judeus em um centro da comunidade judaica em São Francisco e não me saí muito bem quando comecei a falar da minha fé. Acho que eu disse algo como: “Sempre tive mais interesse no antissemitismo do que no judaísmo”. Digamos que sigo meu próprio caminho espiritual e que não pratico nenhuma religião institucionalizada.

A honestidade é o de que mais gosto no seu trabalho. É um tipo específico de honestidade que muitas pessoas têm medo de explorar porque os defeitos de seus personagens podem refletir os defeitos delas próprias, o que as faria se sentir um lixo. Mas todo mundo deveria passar pela sensação de ser cusão de vez em quando, porque senão você vira um cusão em tempo integral sem ao menos se dar conta. 
Isso foi muito importante para mim porque eu não havia lido muitos trabalhos de ficção que lidavam com a paternidade dessa maneira—a transformação que ocorre, o terror e confusão que acompanham a alegria. Por exemplo, em The Ask, a única coisa que Milo realmente ama é seu filho, mas ser pai juntamente com outra pessoa é uma fonte de ansiedade. Abre velhas feridas.

A sua mulher ficou puta com alguma coisa que você escreveu? 
Não. Ela é durona. Ela fica puta quando é estúpido [risos]. Mas ela é a minha principal leitora, antes de eu apresentar o livro para o resto do mundo.

Li em algum lugar que ela malhou a primeira versão de The Ask. 
Sim, é verdade. Não era nem a primeira versão. Era apenas uma versão [risos]. Acho que ela é bastante tolerante com eu usar coisas de nossas vidas, mesmo quando exploro o momento presente. Talvez eu tenha passado do limite uma vez ou outra, o que não a deixou feliz.

E quanto a outros parentes e amigos? Imagino que eles não sejam tão compreensivos. 
É, acho que perdi alguns amigos. Nunca me disseram abertamente, mas é bem óbvio. Alguns parentes ficaram um pouco chateados, mas as pessoas se reconhecem em coisas que podem ou não ter sido inspiradas nelas. Em um dos contos de Venus Drive—o primeiro conto, “Old Soul”—o cara vai visitar a irmã no hospital. De uma forma meio carinhosa ele tenta dar à irmã—que está em coma em uma cama de hospital à beira da morte—um pouco de prazer com sua mão, com os nós dos seus dedos. Ele passa os nós dos dedos lá, debaixo da camisola. A minha irmã, que nunca esteve doente e que não tem nada a ver com aquela personagem, disse: “Bom, aquilo foi bem incômodo”. Perguntei qual parte, e ela respondeu: “A parte em que você coloca os seus dedos na irmã”. Ela disse que tinha sido eu, e não um personagem de um conto, quem tocou na irmã, mas depois não era ela, era “a” irmã. Para mim isso tem a ver com a forma como as pessoas lidam com esse tipo de curiosidade—onde elas podem estar na história. É como se diz: no momento em que nasce um escritor na família, a família está acabada. E os meus pais eram escritores, então a minha família foi destruída bem antes de eu aparecer [risos].

Você simplesmente dança sobre as ruínas. 
Herdei o cenário pós-apocalíptico da minha família.



Na minha opinião, Venus Drive, Home Land e The Ask seguem um padrão não muito rígido. Com exceção de O Paciente Steve, seus livros fluíram cronologicamente, um é principalmente sobre a infância, o segundo sobre o subproduto da permanente e teimosa adolescência, até chegar a uma história sobre um homem que tem que encarar os fracassos de sua vida adulta. 
Eu não pensei em uma trilogia quando estava escrevendo as histórias de Venus Drive. Mas você tem razão de excluir O Paciente Steve porque esse é um animal diferente. Evidentemente é o livro menos autobiográfico. Mas sim, com certeza, olhando hoje, Venus Drive é sobre a infância e a adolescência e, um pouquinho depois, Home Land é sobre lidar com o fato de ter 33 anos, e The Ask é sobre finalmente ser o que essa cultura chama de “adulto” mas fracassar na tarefa. Talvez eu simplesmente não tenha imaginação, mas é bem possível que eu tenha que ficar próximo daquilo que acabei de processar.

Outro tema comum são os perigos das instituições, esses opressores intangíveis que influenciam nossas vidas de maneiras que estão além do nosso controle. 

Videos by VICE

Thank for your puchase!
You have successfully purchased.