Q&A: ANNA GEDDA

Anna Gedda, head de sustentabilidade da H&M, fala sobre os desafios da moda sustentável.

Por que você acha que a moda deve se preocupar com a sustentabilidade?
Acredito que a sustentabilidade é um pré-requisito para qualquer empresa de qualquer setor que queira crescer e ter sucesso no futuro – e a indústria da moda não é exceção. Sabemos que o mundo está usando mais recursos que a capacidade do planeta e, ao mesmo tempo, o número de pessoas no mundo continua a crescer. Em algumas décadas, seremos 9 bilhões – e todos precisarão de roupas e terão vontade de expressar quem são através do que vestem. Então o desafio para a nossa indústria é fazer com que seja possível desfrutar da moda, continuar contribuindo com o crescimento e o desenvolvimento, mas dentro dos limites do planeta. Para fazer isso, precisamos desassociar crescimento de consumo de recursos e ir na direção de um modelo circular de negócios. Como parte disso, a H&M definiu a visão de se tornar 100% circular, incluindo o uso exclusivo de materiais reciclados e de outras fontes sustentáveis, além de adotar uma abordagem circular na fabricação e uso dos produtos. Isso quer dizer, entre outras coisas, que queremos criar um circuito fechado para a moda, no qual as roupas velhas podem se transformar em novas sem o acréscimo de mais nenhum material. Ainda temos muito a fazer, mas já hoje temos um programa global de coleta de roupas usadas e também conseguimos fazer os chamados produtos de circuito fechado com tecido reciclado de peças doadas. Outra iniciativa é o Global Change Award, um dos maiores desafios de inovação em circuito fechado do mundo, gerido pela H&M Foundation. Foram inscritas 2.600 ideias de todo o mundo e selecionados cinco vencedores, como por exemplo, os micróbios que podem comer e reciclar poliéster e um tecido maravilhoso feito a partir de resíduo cítrico.

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Na sua opinião, como a indústria da moda pode se tornar mais sustentável? Assim como qualquer indústria, a da moda está utilizando mais recursos do que a capacidade do planeta, então desassociar o crescimento do consumo de recursos será essencial para o setor se tornar sustentável de verdade. O caminho para isso é migrar para um modelo circular de negócios, o que significa desenvolver soluções para estender a vida útil dos produtos – de olho no design, na durabilidade e em soluções práticas para que as roupas sejam usadas inúmeras vezes antes de irem para a reciclagem em um circuito fechado. Outro desafio para a indústria da moda é que ela está localizada em mercados complexos, como Camboja e Bangladesh, onde as condições de trabalho e salário ainda precisam melhorar. No entanto, esse é um problema que se estende por toda a indústria, não uma coisa que uma empresa pode resolver sozinha, não importa o tamanho que tenha. Para lidar com essas questões, as marcas, os fornecedores, os sindicatos e os governos precisam trabalhar em conjunto para encontrar soluções sustentáveis e de longo prazo, incluindo um diálogo social que funcione e sistemas e um regime jurídico efetivo que permita reajustes justos e regulares dos salários, só para ficar em alguns exemplos. Por último, essa indústria precisa se tornar mais transparente para criar uma mudança de verdade. Como empresa, você precisa saber como e onde os produtos são feitos para poder lidar com as coisas certas do jeito certo. E você precisa estar aberto para ver o que funciona e o que não funciona para estimular sinergias e colaboração no sentido de criar soluções sustentáveis.

Você acredita que nossas ações como consumidores – consumindo menos, pressionando por mudanças positivas – podem levar a uma transformação de mão dupla na indústria também?
Acredito que os consumidores de hoje têm o poder de criar mudanças, sim, e fico muito feliz de ver que o interesse dos nossos consumidores pela sustentabilidade cresce mais a cada ano que passa. Como consumidor, há muitas coisas que você pode fazer no cotidiano para contribuir para um futuro mais sustentável para a moda, como lavar suas peças em temperaturas mais baixas e reciclá-las. Mas não acho que consumir menos seja a resposta para tornar essa indústria sustentável – pelo contrário, mas que se consuma de forma responsável e sustentável. Milhões de pessoas dependem do trabalho gerado pela indústria da moda e para muitas delas essa é a melhor oportunidade de ter renda e sustentar a si próprias e suas famílias. Assim, o setor já contribuiu para a redução da pobreza de milhões de pessoas no mundo todo. Então não há dúvida de que a indústria têxtil é uma peça chave no crescimento e desenvolvimento social, e também já se mostrou ponto de partida para muitos países se desenvolverem e se industrializarem mais. Foi isso que aconteceu no meu país de origem, a Suécia, muitos anos atrás, é o que a China está fazendo neste momento e o que Bangladesh deve fazer nos próximos anos. Para atender às necessidades das 9 bilhões de pessoas que seremos em 2050, precisamos de crescimento e desenvolvimento contínuo também no futuro – mas isso deve acontecer dentro dos limites do planeta. A chave para isso está em desassociar o crescimento do consumo de recursos, para que o desenvolvimento econômico e social possa acontecer dentro das capacidades do planeta.

Que perguntas os consumidores devem fazer às marcas para reforçar as mudanças que precisamos?
Como consumidor, você pode fazer a diferença com o simples questionamento sobre o trabalho que as empresas fazem em sustentabilidade, como: onde e como as roupas são produzidas? como são transportadas? e como você pode, como consumidor, se engajar e contribuir para a mudança? Estamos vendo um interesse cada vez maior pela sustentabilidade entre nossos clientes de todo o mundo, o que é ótimo. Isso nos estimula a continuar com o nosso trabalho, a nos desafiarmos para facilitar ainda mais para os consumidores as escolhas sustentáveis, e fazer parte da solução. Um exemplo é o nosso programa global de coleta de roupas, em que nossos clientes já doaram mais de 28 mil toneladas de peças desde que começamos, em 2013. Isso mostra que os clientes querem se engajar e, juntos, podem fazer a diferença.

Como você vê sua atuação como agente de mudança nesse cenário ?Para uma empresa do tamanho e da escala da H&M existe uma responsabilidade, mas também uma oportunidade de ajudar a liderar o caminho para uma indústria da moda mais sustentável. Queremos ser uma força para o bem e usar nossa vantagem para aumentar as ambições, pressionar por mudanças e inovar. Acredito que nosso trabalho no sentido de chegar a um circuito fechado na moda, a salários justos na cadeia produtiva e à transparência são exemplos disso. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que os desafios que enfrentamos não são específicos da H&M. Questões como condições de trabalho, poluição e emissão de poluentes são encontradas em toda a indústria e nenhuma empresa conseguirá solucioná-las sozinha, não importa o tamanho que tenha. Portanto, a chave para o futuro da moda sustentável é uma ampla colaboração entre os atores de diferentes organizações e direções. O grupo ACT, uma colaboração entre 19 marcas que estão trabalhando em conjunto para promover salários justos, é um exemplo disso. Outro é a Sustainable Apparel Coalition, uma imensa colaboração entre diversos públicos de interesse para desenvolver um padrão comum de medição de desempenho sustentável. Estou convencida de que veremos cada vez mais colaborações desse tipo, porque todos temos o mesmo interesse em criar um futuro sustentável para a moda.

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