
POR DEB OLIN UNFERTH
u finalmente me dei conta e disse: Vocês querem que eu vá embora? Disse isso porque eu tinha algumas evidências. No dia anterior eles tinham sido meio maldosos, ele em particular, que até então era meu defensor. Mas não entendi. Eu estava me divertindo tanto. Fiquei pasma. Por que de repente eles pararam de gostar de mim? Então, na manhã seguinte, aconteceu novamente. Ele tinha um olhar maldoso. Ela sabia que não precisava fazer cara feia pois ele já tinha assumido essa tarefa. Então ela podia ficar lá só observando. Mas fui muito burra, ainda não tinha entendido. Olhei para ela como quem diz: Por que ele está agindo dessa maneira? Finalmente me ocorreu: Quer que eu vá embora?
Claro que ele quer que eu vá embora.
Você quer? Perguntei.
Há dias queriam que eu fosse. Como não percebi? O que passou pela minha cabeça, me apoderando daquela maneira, ficando por lá o dia todo? Qualquer um teria tido o bom senso de se retirar dias atrás.
Ah, me desculpem! Eu disse. Vou embora agora mesmo!
Afinal de contas, eram pessoas reservadas, e eu deveria ter percebido. E fiquei no caminho deles o tempo todo, que dor de cabeça para eles. Outras pessoas ficaram lá e não causaram problemas. Outras pessoas foram embora antes mesmo de eles acordarem, ocuparam o quarto por apenas dois ou três dias. E enquanto estive lá esperei que ficassem comigo o tempo todo. Eles não tinham ideia que eu seria tão inconveniente.
Ele me seguia pelas escadas enquanto eu tentava juntar minhas coisas.
Não precisa explicar, eu repetia. Pode ter certeza que entendi.
Mas ele insistia. Como pude não perceber que ele estava tentando trabalhar? Não vi que o quarto em que eu estava ficando era onde ela trabalhava? Não a vi trabalhando em todos os cômodos da casa, carregando seu computador como uma sem-teto em sua própria casa? Eles precisavam do quarto que eu estava ocupando. E ele tinha certeza de que eu os ouvi conversando sobre como os pais dela chegariam na semana seguinte e ficariam no quarto em que eu estava, e como não teriam descanso com os visitantes.
Estou indo! Estou indo! Gritei, enquanto jogava as coisas na minha mala. Eu entendo! Eu disse, subindo na mala para que fechasse.
Eles não tinham ideia de que eu ficaria lá por tanto tempo que eles teriam que ser categóricos. Como eles saberiam que eu faria aquilo? Que aquele era o meu plano, aparecer lá e ir ficando, ficando e ficando, e ainda por cima ser tão pegajosa? Fora meus hábitos alimentísticos esquisitos, minhas longas horas de sono, meus gosto trivial por leitura e minha incapacidade de aprender uma única palavra da língua daquele país. Pelo amor de Deus! Eu poderia ficar em lugares que não fossem tão caros.
Tenho dinheiro! Gritei! Sério, tenho o bastante!
Para não mencionar—ele precisava me lembrar que mal me conheciam? Quantas vezes já tinham me visto antes dessa visita sem nexo interminável? Fora as poucas vezes que nos encontramos em eventos ou por causa de amigos em comum, quantas vezes, ele perguntou, tinham me ligado e marcado de me encontrar—somente eu, individualmente?
Não sei! Falei.
Duas vezes! Ele disse. E a primeira vez não conta muito porque era meu marido que queriam ver, não eu. A segunda vez também não, porque queriam me ver só para descobrir por que eu e meu marido tínhamos terminado. Então, sinceramente, disse ele, nenhuma das duas vezes conta, e mesmo que contassem, não seriam motivo para uma amizade tão intensa, que permitisse que eu agisse daquela maneira com eles. Vá embora!
Entendo! Eu disse. Claro, claro! Faei, descendo a rua, ele atrás de mim. Ele estava me seguindo agora, erguendo as mãos para os hotéis, motéis e pensões ao nosso redor. FIQUE CONOSCO, BENVINDO, diziam sinais por todo lado.Te garanto, disse sobre meu ombro, entendo o que você quer dizer! Não tenho o que argumentar! O que tinha de errado comigo? O grandão se surpreendeu! Não tenho o que argumentar! Que tipo de pessoa se comporta assim? Tinha um nome para mulheres como eu, ele disse enquanto eu corria dele.
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