Caindo de Boca


Foto por Ítalo Gaspar.

MC Xuparina pega todas com sua lábia. Até devedores de cartão de crédito. A MC e performer carioca faz funk de suas aventuras com outras meninas e arrasa no palco com piadas e figurinos loucos. Ex-atriz, ex-bailarina, tristeza da família, Marcella Maria foi entrevistada e teve seus conhecimentos musicais lésbicos testados por Vivi Caccuri no Rio de Janeiro.

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Vice: Tá com fome? Quer bolacha?
MC Xuparina: Não…eu como o dia todo, cara. Como bolinho de feiijoada, bolinho de rabada, como bobó de camarão. Todo dia eu como tudo isso. Mas se tiver um snackzinho eu aceito.

Demorou. Você é xuparina desde sempre?
Cara, ser só a Marcella Maria já foi um puta trabalho. Quando eu tinha dez anos nos anos 80, eu era muuuito magra, de ser tipo corcunda. E eu ainda era mais alta que os moleques da minha idade. Eles tiravam onda demais no colégio… Porra, aí fiquei traumatizada.

Mas nessa época você já queria chupar as meninas?
[silêncio] Eu brincava de mamãe e papai.

Como era isso?
Era muito engraçado que eu era meio apaixonada por uma menina mais nova do que eu. Ela tinha sete anos e eu tinha dez. A menina tinha uma casa da Mônica que era de pano…e aí o truque era ir pra casa da Mônica, sabe como é. Aí ela já de cara falava “você vai ser papai”, porque eu sempre tive um instinto mais masculino, né…

Qual foi teu primeiro emprego?
Meu primeiro trabalho foi cobrança de cartão de crédito.

Você cobrava direitinho?
Porra, a minha comissão era sempre uma das maiores.

E por que você largou essa boquinha?
Ah bicho…era uma puta repressão no trabalho! Eu tinha sempre que mostrar pras pessoas que eu tinha um namorado. Eu pegava meus amigos gays pra fingir que era namorado, me buscar na porta…eu usava meus amigos gays e eles me usavam também pra disfarçar.

E o funk? Você já era do funk nessa época ou era uma coisa mais à distância?
Sempre. Sempre fui do funk. Eu nasci e fui criada em Nilópolis, baixada fluminense, terra do samba. E lá, nos anos 90, o funk era super político e eu gostava muito.

E como era ser lésbica no baile funk?
Cara, eu não era lésbica nessa época. Andava de sainha e pegava os bofes, uns bundalelê…mas isso era tudo por causa da pressão social. Eu não queria fazer nada daquilo! Homem era meio tosco…era aquela relação de meter o pau e sair falando pra todo mundo que comeu a menina. Isso foi uma das inspirações pra virar MC Xuparina.

Quero te mostrar uns vídeos, posso?
SIMONE XUPARINA! Desculpa, Simone…tu é muito xuparina. Essa música é do Milton Nascimento.

O que você acha disso?
Sex symbol das xuparinas total. Esse cabelo é um símbolo sapatão, até minha tia tinha um desse.

Agora vou te mostrar a xuparina que pegou o lugar dela.
Porra, pelo amor de Deus! Eu odeio! Eu odeio a Ana Carolina. Cara, vou dar uma definição disso. Ana Carolina é uma cantora de churrascaria que deu certo. Bota mais aí, vem.

Esse é autoexplicativo.

Como é que você acha que a MC Xuparina é diferente disso?
Eu acho que a MC Xuparina é uma mulher que tentou ser algo, não conseguiu e pulou um obstáculo pra ser outra coisa. É mais ou menos isso que eu pensei pra essa MC. Ela é ex-atriz, ex-bailarina e teve que buscar outra coisa para se encaixar no meio… e aí entra o funk. O funk me ajuda na desconstrução dessas classificações “lésbica”, “heterossexual”, “bissexual”… Eu gosto do andrógino, do meio-a-meio. Sou contra o gueto.

Mas é possível viver fora do gueto, sendo extremamente fora do “padrão”? Na favela, o homem manda. No asfalto, uma galera torce o nariz para o funk. Onde você fica nisso?
Eu sempre acreditei que o artista está onde o povo está. Sem essa de gueto. Eu quero estar dentro do local gay, do local hetero, da galera de jiu-jitsu, galera de Madureira… vou tocar lá na pqp em São João do Meriti, mas também em festa de playboy em Botafogo ou de gringo alemão. Essa coisa de “funk de raíz” não tem nada a ver. Meu funk é mestiço, misturado com electroclash, com pop…

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