Enrique Metinides

CONFORME CONTADO PARA SANTIAGO STELLEY

FOTOS POR ENRIQUE METINIDES

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Quando eu estava com dez anos de idade meu pai tinha uma loja onde vendia, entre outras coisas, câmeras fotográficas e rolos de filmes para os turistas. A loja ficava na principal avenida do centro da Cidade do México, a Avenida Juarez, em frente à Alameda Central, que é uma espécie de Central Park da Cidade do México. No fim dos anos 40, quando demoliram o prédio onde ficava a loja do meu pai para construir uma loja de departamentos, ele me deu uma câmera que não havia vendido e uma sacola cheia de filmes. Comecei a tirar fotos na região central da cidade, e na mesma época também passei a fotografar carros acidentados. Quando um acidente acontecia, a polícia rebocava os carros para a frente da delegacia do centro da cidade, e eu ia até lá para tirar fotos deles. Eu era fã de filmes de gângsters, de Al Capone e de filmes policiais em geral. Eu assistia todos esses filmes no cinema do centro da cidade, era fascinado por esses filmes. Um ano depois de começar a fotografar, meu pai abriu um restaurante.



Os policiais locais almoçavam lá todos os dias. Passei a co-nhecer muitos deles, e eles me levavam até a delegacia para tirar fotos das pessoas que prendiam e dos cadáveres que recolhiam. Me lembro quando eu tinha 11 anos e fui até a delegacia um dia, os policiais tinham acabado de aparecer com um sujeito que foi decapitado nos trilhos do trem. Alguém amarrou seu pescoço ao trilho e a roda do trem passou por cima dele. Foi a primeira vez que vi um cadáver tão de perto. Tirei uma foto do policial com a cabeça em suas mãos. Mais tarde comecei a trabalhar como assistente de fotógrafo em cenas de crime. Eu chegava a ver 40, 50, 60 cadáveres por dia. Eu queria muito ser um repórter de crime naquela época, colecionava reportagens de crime de jornais e revistas de todo o mundo. Eu as recortava e colava num álbum que eu tinha. Uma vez teve um acidente de carro bem ao lado do restaurante que meu pai tinha em San Cosme. Eu corri até lá para tirar fotos. Um fotógrafo do jornal La Prensa também estava lá tirando fotos, ele me viu e me convidou para ser seu assistente. Foi assim que consegui meu primeiro trabalho. Comecei a fotografar por toda a cidade e o jornal sempre publicava minhas fotos porque achavam que eram as melhores.

Eu ainda estava no ginásio na época. Aos 14 anos eu já fazia parte da folha de pagamento de um outro jornal importante chamado Zocalo, e trabalhava para revistas mexicanas de crime famosas como La Alarma, Crimen e Nota al Crimen? Naqueles tempos, os policiais e os bombeiros eram bem prestativos, ao contrário de hoje em dia. Eles te davam carona em seus veículos e te deixavam entrar nas cenas do crime. Agora não deixam você chegar nem perto da cena porque não querem que as pessoas saibam o que está acontecendo no México. Trabalhei durante 50 anos como fotógrafo de crime. Comecei a tirar essas fotos quando tinha dez anos e parei aos 59. Vi mais cadáveres que qualquer um. Diria que vi mais cadáveres que o próprio Weegee, e adoro o Weegee. Sou um grande fã dele. Tenho uns sete livros dele na minha casa. Na verdade já pu-blicaram um livro na França que é uma mistura do meu trabalho e do trabalho do Weegee. Ele tinha um rádio de polícia em seu carro. Fui o primeiro fotógrafo no México a fazer a mesma coisa. Assim que a polícia era informada de um crime eu ficava sabendo exatamente onde era, e chegava até antes que eles. Quando chegava na cena do crime eu fotografava a casa, a arma, as testemunhas, os curiosos, as fotos das vítimas de quand1o estavam vivas… tudo.

Na verdade eu dava as minhas fotos para a polícia para ajudar nas investigações. Uma vez solucionaram um crime graças a uma foto minha. Eu costumava fotografar as pessoas que iam olhar a cena do crime, os curiosos. Uma vez fotografei todos os curiosos na cena de um assassinato e mais tarde descobriram que registrei o assassino em uma das minhas fotos—que era o melhor amigo da vítima e tinha dito que estava fora da cidade no dia do homicídio. Ele estava na foto olhando a cena do crime, mas quando foi interrogado jurou que estava fora da cidade visitando uns amigos. Na Cidade do México sempre houve muitos acidentes e mortes. Me lembro de vários casos em que os corpos das vítimas foram cortados em pedaços e espalhados pela cidade. A Cidade do México está cheia dos piores crimes que você possa imaginar. Você não acreditaria quantos acidentes e crimes eu já vi. Mas queria muito ter visto o 11 de setembro em Nova York. Que espetáculo foi aquilo!

Essa mulher foi a Chapultepec, o maior parque da Cidade do México, e perguntou qual era a árvore mais velha. Ela foi até a árvore, tirou uma corda da bolsa e se enforcou. Quando eles tiraram o corpo da árvore, acharam em sua bolsa uma foto de sua filha. No verso da foto estava escrito: “Meu marido me abandonou e levou minha filha de nove anos de idade com ele. Hoje ela faz 15 anos e não a vi desde então. Não consigo mais suportar a dor e vou tirar minha própria vida”.

Essa é uma foto de uma das muitas pessoas pobres que rouba eletricidade na Cidade do México. Isso é feito até hoje. Eles conectam um cabo em suas casas e sobem no poste para conectá-lo ao sistema. Muitas vezes são eletrocutados.

Nos arredores da Cidade do México tinha uma pista de decolagem usada por pilotos que estavam aprendendo a voar. Vira e mexe tinha uma acidente lá, e tanto o instrutor quanto o estudante morriam. Devo ter visto uns 70 acidentes nesse lugar.

Os comandos assaltaram um banco e mataram três policiais. Depois de matá-los pegaram o dinheiro e correram. Quando os carros de polícia e as ambulâncias começaram a chegar, os cri-minosos entraram em um shopping center na Avenida Universidad. Uma vez lá dentro, começou um tiroteio e vários clientes do shopping se feriram. Os assaltantes fugiram pela porta de trás. Nunca foram pegos. Já me vi no meio de muitos tiroteios! Me lembro de um em que alguns comandos assaltaram uma fábrica. Eles mataram quatro pessoas. Durante a fuga eles se esconderam em um cinema. A polícia cercou o cinema e eles começaram a trocar tiros. O policial que estava do meu lado levou um tiro no estômago.

Essa foto foi tirada na Avenida Chapultepec com a Calle de Monterrey em Colonia Roma. Ela era uma jornalista muita famosa que escreveu alguns livros muito bons. Nesse dia ela estava a caminho de um evento de lançamento de um livro. Ela estava toda arrumada, ia buscar a irmã para irem juntas ao evento. Enquanto atravessa a rua, dois carros bateram e a atropelaram. Essa foto é ótima porque ela está maquiada e não parece estar morta.

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