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James Ellroy: No fim de 2011 vai estrear o meu programa de televisão James Ellroy’s L.A.: City of Demons. Eu sou a estrela. Sou o interlocutor, o interrogador, a personalidade e o narrador que aparece na frente das câmeras. Apresentamos crimes históricos de Los Angeles conforme vou contando a história. Escrevo cada palavra que falo. Tenho também um parceiro, que é um cão feito no computador. O nome dele é Barko. Ele é baseado no meu cachorro de verdade, o Barko, um bull terrier, que vou encontrar quando passar pro outro lado. Ele é imortal. O programa é uma cópia fiel minha. Falamos profundamente de Los Angeles. É descaradamente auto-promocional e biográfico. É uma maravilhosa oportunidade para apresentar a literatura, a autobiografia policial, Los Angeles, um certo comentário social, e o humor que pertence a cada um dos itens acima na televisão.Parece ótimo. O The Hilliker Curse é seu segundo livro de memórias, depois de Meus Lugares Escuros, em que investigou o assassinato não solucionado de sua mãe. Porém esse livro não trata do assassinato de sua mãe, mas fala sobre as reverberações de sua morte em toda a sua vida e seus relacionamentos com as mulheres.
É sobre o homem romântico, seu desejo sexual e, como aconteceu no meu caso, sua formação traumática. Fala muito sobre o romantismo e seus antecedentes, remontando ao maior artista de todos os tempos, Ludwig Von Beethoven. É a história da minha incrivelmente detalhada, pesquisada, variada e apaixonada busca por amor, e é um livro de memórias, certamente. É também um ensaio autobiográfico, o primeiro que escrevi em que tudo é verdade. Mas como biógrafo e ensaísta, me é permitido enfatizar, omitir e comentar retrospectivamente, então há duas vozes narrativas o tempo todo. Há o Ellroy, o homem mais velho que descreve Ellroy, o homem mais jovem, e editoriais sobre isso. É também um tratado sobre a escrita de ficção e como o romance da vida real forma a ficção, pelo menos no meu caso. É um tratado sobre alguém que era um homem muito cruel e egoísta, encontrando a família em um estágio mais avançado da vida.
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No meu décimo aniversário, em março de 1958, minha mãe Jean Hilliker, uma alcoólatra de 43 anos de idade, deu-me a escolha de viver com meu pai ou ela. Escolhi o meu pai. Ela me bateu. Eu caí no sofá. Eu bati minha cabeça na borda de uma mesa de vidro e a chamei de bêbada e prostituta. Ela me bateu novamente. Queria vê-la morta.Tinha lido um livro sobre bruxaria e maldições apenas alguns meses antes, e senti um profundo sentimento de vergonha, uma auto-aversão – um ridículo sentimento de cumplicidade que pertence à morte dela. Eu não a matei. Não arranjei pra que ela fosse morta. Era uma criança de dez anos de idade. No entanto, foi o momento decisivo da minha vida até hoje – o da maldição – tanto quanto foi sua morte.Já ficava louco com meninas antes mesmo de saber o que o sexo era formalmente. Tinha uma piada da década de 1950, que é bastante irônica, e acho que diz tudo. É assim: "Quero encontrar o sujeito que inventou o sexo e perguntar-lhe no que ele está trabalhando agora". Vivo nesse conceito. Sou fixado, romanticamente, dessa maneira. Sou religioso. Sou muito conservador. Perduro através do prisma de Deus, e há a união sagrada entre os homens e as mulheres. Nunca superei isso. Procuro o “ela” mítico faz um bom tempo da minha vida, e eu a encontrei. É claro que iria encontrá-la. Sempre consigo o que quero. Esse é o cerne de The Hilliker Curse. Vai do lento ao rápido, mas sempre custa um bocado.
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Bem, essa é uma percepção interessante. Tanto o Por Causa da Noite quanto o The Hilliker Curse são livros em que muitas coisas acontecem as quais não tenho contemplado há muitos, muitos anos. Sou eu pré-Dália Negra. Sempre fui místico. Se observar antes disso e der uma olhada em Sangue Errante, é inteiramente sobre crenças. Inteiramente. Sangue Errante e esse livro de memórias são endereços do acesso estilístico dos cultos. Tomei uma decisão consciente para escrever um livro mais integralmente romântico e emocional com Sangue Errante, e cheguei a um ponto em minha vida – isso foi no outono anterior ao meu primeiro encontro com a [minha namorada] Erika – quando eu estava ligado a uma mulher chamada Karen em um relacionamento adúltero. Ela era imune aos meus pedidos para deixar o seu marido por mim. Comecei a abordar de forma mais consciente tudo o que já conhecia inconscientemente ou semi-conscientemente havia muito, muito tempo. A viagem chave da minha vida não é o crime, não é minha mãe como vítima de um assassinato, mas minha mãe como um espírito fundador.O The Hilliker Curse sugere que cada um de seus livros tem uma musa inspiradora em seu cerne.
Conforme fui me tornando mais consciente e os meus livros se tornaram maiores e mais ricos em termos de história, o tema surgiu: homens maus apaixonados por mulheres fortes. Isso está predominante em Los Angeles – Cidade Proibida, que a Erika leu recentemente. É um livro muito, muito complexo, confuso, desconcertante, densamente plotado. A Erika não é uma grande fã da ficção policial, então ela foi direto para os três homens e seus relacionamentos torturados e, em última análise, transcendentes com as mulheres. As mulheres eram as musas, mas eu nunca havia falado sobre o fenômeno conscientemente como fui forçado a fazê-lo após meu casamento com Helen Knode ter ido pelos ares.
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É como se ela estivesse lá, eu estou aqui, e não posso tocá-la.Existe alguma bagagem que vem com o ato de escrever e falar sobre sua mãe e seu assassinato repetidamente durante tantos anos?
Tenho uma vontade muito, muito profunda e orgulhosa de ser feliz, e eu estou feliz. Nunca estive deprimido. Não tenho nenhuma queixa. Não tenho muita ironia. Sou o tipo linha dura, da direita religiosa americana heterossexual, sou de outra era. Não acho que o mundo vá explodir. Não acho que a América seja um demônio. Acho que a América irá prevalecer no mundo da geopolítica. Sou um nacionalista, um militarista, um capitalista, e um cristão. As pessoas acham isso chocante.
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É mais um show. A Erika vai a alguns dos shows. Vou contar a história. Vou fazer as leituras. Vou dizer a verdade e então vou ser feliz para que isso vá embora e para que eu possa me sentar e me aplicar mais consistentemente a um romance.Você se importa se eu perguntar detalhes sobre o seu novo romance?
É em Los Angeles. Em um momento bem anterior ao de qualquer um dos meus livros anteriores.O último projeto de filme sobre que você falou foi Jazz Branco.
Jazz Branco está morto.Ah. A coisa que sempre pensei que se traduziria em um grande filme ou série de TV é O Grande Deserto.
O Grande Deserto, entre todos os meus romances, é o que daria o melhor filme. Três horas e meia em preto e branco, você está absolutamente correto. Agora é propriedade de uma empresa de cinema italiano, e está falecido.
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Isso é para impedir a imigração ilegal?Sim.
Bem, então talvez possa ser justificada. Tudo tem que ser julgado numa base ad hoc, todas essas coisas. É muito fácil apontar imediatamente para o preconceito racial existente por lá. Discriminação racial é nada mais que o conhecimento empírico que certos tipos de crimes são cometidos em subcategorias por certos grupos raciais. É o senso de rua – se você fosse um policial e estivesse à procura do crime, você reagiria tendo como base esses fundamentos porque é isso que seus instintos lhe dizem. E se você fosse um agente da polícia com esse nível de esperteza e uma inteligência decente, você estaria certo com mais freqüência do que estaria errado. A ideologia muitas vezes falha quando é confrontada com questões como essa, e, pessoalmente, não sinto nenhuma obrigação social de participar do mundo como ele é hoje, ou de comentar sobre ele. Sou grato pelo paraíso histórico e confio nos meus instintos sobre períodos, tempos e lugares, e meios de caracterização históricos. Nunca vou adicionar a contemporaneidade e ignorar totalmente a cultura de hoje em dia. Não tenho um telefone celular. Não tenho um computador. Sou analfabeto em computadores. Nunca entrei na internet. Uma mulher chamada Melissa Stafford, que trabalha para mim, tem um computador pelo qual pode me encomendar um par de sapatos. Há um site bem bacana agora, James Ellroy ponto net, ou qualquer merda assim, não sei--nunca vou entrar nele. Fico feliz que ele está lá como uma ferramenta de venda de livro, mas não me importo com nada além disso. Todos esses meus regimes, minhas disciplinas, aumentam a solidão e a quietude mental de que preciso para criar o trabalho que escrevo.
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Estive no Facebook por um tempo. A Erika Schickel e eu finalmente convergimos para o Facebook. E isso só porque fui ordenado a entrar no Facebook pela Knopf. Eles pensaram que seria uma ferramenta eficaz em termos de vendas. A Erika estava me procurando e eu a estava procurando. Era inevitável, ela e eu, e o Facebook foi o meio, e agora mandei o Facebook pro saco, mas tenho um website.Então no que você escreve? Uma máquina de escrever?
Não, escrevo à mão. E acabo ganhando com isso porque sou ansioso por natureza. Ganho paz de espírito por saber que toda essa merda pode esperar até eu chegar em casa. Tenho uma merda de uma secretária eletrônica, e isso é uma mão na roda. Digamos que eu passe uma noite na cama da Erika. Eu volto. Bem, quem ligou enquanto estive fora? Você ouve as mensagens. Tenho um fax. É o suficiente.Você ainda se classifica como um escritor policial? Esse não é realmente um livro motivado por um crime ou uma busca por justiça.
O Quarteto de L.A. desvia do gênero de ficção e ficção policial para a ficção histórica e política, e vai se agravando. Vira algo mais e mais e mais sobre a história social conforme vamos adentrando os anos 1950. Então se torna algo completamente diferente na Trilogia do Submundo Americano: Tablóide Americano, Seis Mil em Espécie e Sangue Errante. Então, fisicamente, eles são romances históricos, mas sempre vou ser classificado como um escritor policial. É interessante, contanto que venda meus livros. E escrevi três livros de contos sobre jornalismo e escrevi dois livros de memórias. Então tenho uma carreira muito mais variada, sem dúvida mais profunda, de alguém que originalmente colocou a caneta no papel para escrever mistérios e romances policiais. Já subi o nível, consideravelmente.
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O Chandler veio antes do filme noir. O noir é totalmente uma construção da América do pós-guerra. É arte americana e européia do pós-guerra. É uma refutação direta do nazismo e do Holocausto. É uma forma de arte subversiva simultaneamente, sendo uma forma de arte conformista. Os livros do Quarteto de L.A.: Dália Negra, O Grande Deserto, Los Angeles -- Cidade Proibida e Jazz Branco nunca foram feitos para ser noir. Eles são romances históricos que se passam na era do filme noir. O equívoco mais comum sobre o filme Los Angeles – Cidade Proibida -- e o diretor Curtis Hanson pode confirmar isso também --, é que o filme é noir, mas não o é. É um filme histórico. É um romance histórico situado na era do filme noir.Você indicou o Jim Thompson como outro escritor cuja obra é frequentemente classificada como noir, mas não é realmente noir.
Li alguns dos livros do Thompson, mas não pensei muito neles. Me senti como se eles fossem escritos por 500 dólares em três semanas, porque eles realmente o foram. E não tenho absolutamente nenhuma paciência para romances. Nenhuma. O cara que chegou lá primeiro, que pressagiava o noir antes do Chandler, é o James M. Cain, com o O Destino Bate à Sua Porta e o Dupla Indenização. Depois há sugestões do noir em A História de Mildred Pierce e o noir ópera em Serenade. E o livro de Horace McCoy, Mas Não Se Matam Cavalos?, são novelas curtas de 1930 prescientes ao mal-estar pós-guerra, ao Holocausto, à Segunda Guerra Mundial, às milhões de mortes, e ao noir. Eles chegaram lá primeiro – o McCoy em segundo lugar, e o Cain primeiramente.
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Fiz uma aula de apreciação musical no John Burroughs Junior High School. Foi no inverno de 1960. O nome do professor era Allen Hyams, um rapaz arrumadinho com um topete. Ele foi o professor de música na John Burroughs Junior High. Escrevi um ensaio sobre o John Burroughs chamado "Let’s Twist Again" em Onda de Crimes, minha coleção de ensaios. O Hyams tinha um busto de Beethoven, inúmeros bustos de Beethoven, em uma mesa na frente da sala, e ele olhava para as crianças. Ele colocava um toca-discos ali, um fonógrafo, e dizia algo como: "Ei crianças, se liguem nisso", e colocava a agulha e uma orquestra começava dun, dun, dun, duuuun. Fiquei louco por aquilo.Você é estritamente clássico. Não curte rock and roll.
Rock and roll sempre foi limitado para mim. Como uma rebeldia institucionalizada. Parece ser inerentemente não-profundo para mim. Aquela tipo de música "I like you good baby, I’m gonna make you mine”. As influências culturais que moldaram a minha geração, ou as pessoas 10 ou 15 anos mais jovens que eu, nunca me prenderam emocionalmente. Que é minha maneira de dizer não curto. Não estou dizendo que é desprovido de conteúdo social ou é meretrício. Estou dizendo que não me importo. Estou dizendo que não faz vibrar minha energia.Você sente como se tivesse dito tudo que poderia dizer sobre a Jean Hilliker com este livro?
Não sei. Ela está lá. Eu estou aqui. Não prevejo escrever outro livro de memórias. Escrevi um artigo para o West, que é a revista do LA Times, chamado "To Live and Die in LA" depois de me mudar de volta para Los Angeles passados muitos anos. Disse que seria meu último pedaço de autobiografia, mas eu estava enganado. Então, nunca diga nunca.Los Angeles é inevitável?
É inteiramente evitável. Quando as filhas da Erika forem pra faculdade vamos cair fora daquela porra.Mas aquele ensaio de 2006 foi tão definitivo. O impulso foi muito "Sou LA e LA sou eu".
Bem, eu acho que a resposta mais honesta é que LA é onde vou quando as mulheres se divorciam de mim e não sei mais para onde ir.Então, qual é o próximo lugar? Os locais ainda são importantes para você?
Ah, sim. Quero um clima bom, pacífico, frio, acolhedor, homogêneo e rico. Não preciso de cultura. Não preciso de outra coisa senão o ambiente mínimo.Originalmente publicada em stemebro de 2010.ENTREVISTA POR MATTHEW CARON
FOTO POR MICHAEL DE LEON
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR
