Lista de Leitura

Leio a caixa de leite enquanto bebo suco de laranja direto da garrafa, segurando a porta da geladeira aberta com meu corpo. Enquanto se bebe suco de laranja seria melhor ler a respeito de laranjas, ou da luz do sol, ou até de limões. Não leite.

Leio a minha lista de tarefas do dia. Primeira coisa: “Imprimir o roteiro.” Última coisa: “Coisas do cachorro.” Quer dizer, comprar bolinhas e comida para o cachorro. Algo que acabei não fazendo.

Leio lentamente as primeiras 30 páginas de um roteiro intitulado O Futuro, parando toda hora para adicionar a uma lista intitulada “O Futuro: perguntas e respostas de um ponto de vista diretorial.” Primeira coisa na lista: “Olhar fotos de gato.” Última coisa na lista: “Monte nele frequentemente”.

Releio a última página de In the Aeroplane Over the Sea, de Kim Cooper. É um livro sobre a criação do álbum do Neutral Milk Hotel do mesmo nome. Há uma citação longa e inspiradora na última página, que termina: “E é disso que precisamos: precisamos desesperadamente de você.”

Leio o nome na caixa que o carteiro entregou: “Mike Mills.” O carteiro está tremendo e suando, e diz “Merda” em voz alta, pois está com medo do cachorro (muito dócil). Passamos por isso ontem. Seu medo é um dos pontos altos do meu dia, é tão fora do controle, físico, não algo que se vê toda hora. E eu também tenho pavor de cachorro, então consigo me identificar.

Leio cerca de 50 e-mails ao longo do dia, a maioria deles das mesmas pessoas. Remetente principal: assistente Alf Secombe. Assunto de um dos seus emails: “Re: Sou o Autêntico Representante da Entidade que Minha Página Representa.” Este email contém sua correspondência com o Facebook.

Também leio, superficialmente, os emails que escrevo, enquanto os escrevo. Última frase para Brigitte Sire: “espero que tudo esteja indo bem com você. ou estou totalmente paralisada, sem ideia do que fazer a seguir, ou estou ocupada. 
bjos e abs, 
mj”

Leio as páginas 164-170 de Varieties of Disturbance, de Lydia Davis, enquanto almoço. As duas últimas frases lidas: “Como pôde fazer aquilo com a sua mãe? Você não tem vergonha?”.

Leio uma mensagem da Kitty: “Como está indo?”

Parada em um sinal vermelho, leio, na marquise do Cinema Vista, Os Homens Que Encaravam Cabras, e os nomes de cada um dos homens no filme. Tenho vários pensamentos sobre os atores, a maioria deles variando de levemente a muito críticos. Tenho um pensamento sobre um homem que é admirável.
Leio as palavras “Lil Joe” em um pequeno tapete na casa da Kitty.

Leio as palavras “Thelma e Louise” em uma caixa de vídeo-cassete; o filme está passando de fundo enquanto conversamos. Pausamos a nossa conversa para assistirmos a parte em elas dirigem através do precipício. “Acho que vou chorar”, diz Kitty. Mas um instante depois ela diz: “Não, acho que não vou chorar.”

Leio o título do livro de Jeremy Deller, Marlon Brando, Pocahontas and Me, e muitas páginas de dentro. Aperto os olhos para ler a legenda da foto, “Sacheen Littlefeather Recusa o Oscar de Marlon Brando, 27 de Março de 1973.” Devaneio brevemente sobre quem eu esco-lheria para recusar o meu Oscar.

Leio os títulos das canções de Antony and the Johnsons enquanto ouço Antony and the Johnsons, enquanto jogo a bola para o cachor-ro. “For Today I Am a Boy”, “Man Is the Baby.” Quando chego em “Bird Gehrl”, a língua dela está para fora e eu grito “Acabou! Muito bem!” e nós entramos.

Leio um email de Jesse Pearson, editor da Vice. Ele termina, “eu também estou triste por você não estar representada de forma alguma na edição de ficção. talvez até uma lista de leitura sua ou algo assim?
bjos e abs
jp”

Me esforço para ler a caligrafia de Mark Borthwick na sua exposição de arte, mas desisto e decido apreciar a letra de uma maneira visual, o que não é difícil.

Como uma criança irritante, leio todas as placas e cartazes pelos quais passamos enquanto dirigimos por Los Angeles à noite. Tento não lê-los em voz alta, mas acidentalmente sussurro “Voyer”. Mike diz “O quê?” “Voyer”, digo, apontando para o cartaz em cima de um prédio. Estamos parados em um sinal vermelho.

Planejo ler antes de ir para a cama, mas o abajur está no outro quarto e estou muito cansada para ir pegá-la. Deito no ombro de Mike e tento ler o livro que ele está lendo. Poemas de Rilke.

Lamento

Tudo é longe
e foi tudo há tanto tempo.
Creio que aquela estrela brilhando acima de mim
está morta há mil anos,
Creio que havia lágrimas
No carro que escutei passar
E algo terrível foi dito.

Esse não é o fim do poema, mas o Mike estava lendo mais rápido que eu e virou a página.

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