Um Rolê Fotográfico com as Mambas Negras

Imagens cortesia da artista

Acordar às 5 da manhã, vestir uniformes surrados e botas de combate, pular para o jipe com suas companheiras e partir para a imensidão de areia. Assim começa a patrulha da Black Mambas, a primeira unidade exclusivamente feminina de combate àc aça furtiva da África.

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Fundada em 2013, a equipe de 23 mulheres patrulha uma área de cerca de 650km² na Reserva Natural Balule, na África do Sul, e ainda este ano recebeu o prêmio Campeões da Terra da ONU “pela destacada coragem na luta contra o comércio ilegal de vida selvagem em nível comunitário”. A fotógrafa e cinegrafista alemã Julia Gunther embarcou numa jornada com o grupo para registrar seu cotidiano num filme, parte de uma série chamada Proud Women of Africa [Mulheres Orgulhosas da África].

“Meu objetivo é tentar mudar a imagem estereotipada que o mundo ‘desenvolvido’ tem das mulheres na África”, explica Gunther ao The Creators Project. “As mulheres que fotografo têm orgulho de suas vidas e de quem são. Têm sonhos e estão cansadas de serem vistas como vítimas.”

Desde 2008 Gunther documenta histórias de mulheres que se rebelam contra a opressão, a adversidade e o horror. “Eu queria acompanhar as Black Mambas para registrar seu cotidiano”, diz. “Isso significou fazer tudo o que elas faziam. Acordei com elas às 5 da manhã, fiz patrulhas a pé com elas e me juntei a elas num jipe aberto.”

As fotos de Gunther não só destacam o poderoso papel que cada vez mais as mulheres estão assumindo na África moderna; elas também ajudam aqueles que combatem o mercado global de exploração da miséria.

Conversamos com Julia Gunther sobre sua estada com as Black Mambas e suas histórias, e os motivos que a levaram a falar sobre a emancipação da mulher na África.

The Creators Project: Como você ficou sabendo das Black Mambas?

Julia Gunther: Trabalho em um projeto de longo prazo chamado Proud Women of Africa, em que registro as vidas de diferentes mulheres no continente africano. Durante minha pesquisa, me deparei com um artigo sobre as Black Mambas e, assim que o li, soube que aquele era meu próximo tema.

Como você explicou seu projeto sobre as mulheres na África para elas?

Basicamente lhes mostrei exemplos de algumas das outras mulheres que fotografei para Proud Women of Africa e discuti com elas os detalhes de meus planos. Assim elas puderam ter uma boa ideia do tipo de fotos que eu queria tirar.

Como foi a sessão?

Eu queria acompanhar as Black Mambas para registrar seu cotidiano. Isso significou fazer tudo o que elas faziam. Acordei com elas às 5 da manhã, fiz patrulhas a pé com elas e me juntei a elas num jipe aberto. As patrulhas duravam cerca de seis a sete horas, e eu tentava registrar o máximo possível durante esse tempo: elas conferindo se havia buracos em cercas, procurando e removendo armadilhas etc. Também saímos em patrulhas noturnas porque era época de lua cheia – quando os caçadores ficam mais ativos.

Cada Black Mamba que conheci teve uma aproximação diferente em relação a mim e à câmera. Algumas gostaram da atenção mais do que outras; algumas ficaram desconfiadas no começo, mas todas foram logo muito calorosas comigo. Acho que elas reagiram como qualquer pessoa no mundo.

Você poderia falar um pouco sobre essas mulheres?

Acompanhei Joy e Felicia em uma patrulha de 16 quilômetros ao longo da cerca perimetral em meu primeiro dia no posto das Black Mambas. As duas haviam sido treinadas pela Protrack, uma organização que ensina táticas anti-rastreamento e anti-caça. Elas procuram por rastros tanto humanos quanto animais e vêem se a cerca foi alterada de algum jeito ou se há algum sinal de que caçadores possam ter entrado na reserva. Também conferem as câmeras e vêem se a corrente elétrica da cerca não foi interrompida.

A cada hora elas têm que entrar com contato com a sala de controle na base para dizer a localização em que estão e se há alguma situação para relatar.

Joy tem 24 anos, é quieta, um pouco reservada no começo. As Mambas foram alvo de muita atenção da imprensa no ano passado e, às 7 da manhã, ninguém quer uma câmera com flash em cima de si. Ela tem muito orgulho de ser uma Mamba e fica muito feliz de contribuir para a conservação da natureza para as próximas gerações. No futuro, pretende ser enfermeira. Felicia, de 27 anos, nunca ficou muito à vontade comigo, mas aceitou minha presença e cuidou de mim. Uma das primeiras Black Mambas, ela quer estudar Preservação Ambiental para salvar os animais e pretende ensinar seus filhos sobre a importância da natureza.

No terceiro dia, estava caminhando com Yenzekile e Proud. Quando contei a Proud que meu projeto se chamava Proud Women of Africa, ela achou que eu estava louca. É comum as pessoas pensarem isso. Adorei o fato de estar ali naquela patrulha com uma mulher chamada Proud, uma mulher orgulhosa, que faria parte de meu projeto. Ela tem 25 anos, é casada, tem uma filha de cinco anos e faz parte das Black Mambas desde 2014. Proud se tornou BM porque ama a natureza e espera acabar com a matança de rinocerontes e elefantes.

Yenzekile, de 23 anos, quer se aprofundar em sua carreira. Frequentou a escola de vida selvagem de Timbivati para estudar a natureza e ficou sabendo das Black Mambas, onde começou em 2013. Sua intenção é continuar com as Black Mambas até 2020, quando gostaria então de se tornar médica e patrulheira. Ela gosta especialmente das patrulhas noturnas. Em minhas duas patrulhas noturnas ela estava comigo.

Você encontrou algum caçador durante a estada?

Felizmente, não. Mas vi muitos deles nos registros feitos pelas câmeras da reserva. As Black Mambas são instruídas a reportar qualquer sinal de atividade de caçadores aos ProTrack Rangers (que são armados) e a não entrar em confronto direto com os caçadores. Elas reportam a localização dos caçadores e a situação do lugar.

As Black Mambas fazem suas patrulhas ao longo das cercas e monitoram atentamente a estrada, os arbustos e as árvores em busca de caçadores. Bloqueios são colocados e as pessoas são interrogadas numa abordagem educada. Também são estabelecidos pontos de observação, onde as mulheres se sentam em silêncio e tentam ouvir qualquer sinal de disparo. Elas prestam muita atenção a movimentos, luzes e sons.

O que a fez dar início ao projeto Proud Women of Africa?

Eu estava trabalhando em uma empresa de produção na Cidade do Cabo em 2008. Nunca havia visitado lá antes, então decidi tirar um ano longe da minha vida e meu trabalho com cinema em Amsterdã e descobrir um pouco do mundo.

Enquanto trabalhava na Cidade do Cabo, conheci Philipa e imediatamente nos tornamos amigas. Um pouco depois de nos conhecermos, ela foi diagnosticada com câncer de mama e  decidimos registrar sua doença com a ideia de mostrar ao mundo as coisas pelas quais ela passou quando jáestivesse recuperada. Infelizmente, Philipa faleceu em fevereiro de 2012, após o câncer ter se espalhado para seu cérebro.

Essa série de imagens virou a primeira parte de Proud Women of Africa. Philipa tinha orgulho de quem era e nunca deixou que sua doença a definisse. Fiquei impressionada com sua determinação e persistência durante a luta contra o câncer e decidi então procurar outras mulheres na África que viviam com esse mesmo orgulho.

Durante minhas viagens frequentes à Cidade do Cabo para ficar ao lado de Philipa e registrar sua luta contra o câncer, também comecei a documentar outra amiga minha, a Ruth. Ela vive num distrito chamado Manenberg. Foi estuprada por um funcionário da piscina local quando tinha 14 anos de idade. Agora mãe, é a primeira em comando da brigada de sua igreja e se orgulha de ser uma jovem trabalhadora. Essa série de imagens se tornou a segunda parte de Proud Women of AfricaRuthy Goes to Church [Ruthy vai à igreja].

Meu objetivo é tentar mudar a imagem estereotipada que o mundo “desenvolvido” tem das mulheres na África. As mulheres que fotografo têm orgulho de suas vidas e de quem são. Têm sonhos e estão cansadas de serem vistas como vítimas.

O que você aprendeu sobre o continente africano que talvez seu público não esperaria?

Que a esperança existe em lugares que pensamos estar perdidos.

O que podemos esperar ver nas próximas edições de seu projeto?

O PWOA ainda está em andamento, agora estou começando a pensar no que fazer. Tenho algumas ideias iniciais, mas gostaria de pensar um pouco mais antes de divulgá-las. Mas é claro que vai ser alguma coisa na África sobre mulheres.

E depois disso?

Graças ao PWOA aprendi que o que mais gosto de fazer é dar voz a pessoas que merecem. Quero continuar focada nisso. Há muitas pessoas mundo afora que merecem ser ouvidas e que são tão orgulhosas e fortes quanto as do PWOA. São as histórias delas que gostaria de contar.

O que você quer que fique da série das Black Mambas?

As Black Mambas precisam de ajuda para continuar na luta contra a caça ilegal. Elas dependem muito de doações e patrocínios de comunidades locais e internacionais. Itens como botas e uniformes estão em falta e precisam ser renovados regularmente. Os pneus são normalmente de segunda mão e o combustível é caro e essencial para as atividades diárias.

Doações podem ser feitas por meio de sua página, www.blackmambas.org.

Acompanhe o trabalho de Julia Gunther em sua página.

Tradução: Flavio Taam

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