Bem-vindos ao meu relato do SWR, o festival com a maior abundância de pontas espigadas e pele seca por metro quadrado em que alguma vez estive. Talvez não fosse má ideia experimentarem aqueles boiões de pastas à base de manteiga de karité ou de cacau. Adiante.
A nossa viagem começou sexta-feira por volta das 14:30h, quando saímos de casa para nos encontrarmos com a nossa boleia. Aproveitámos para passar num spot e comprar uns suminhos naturais, uma espécie de despedida de qualquer actividade remotamente saudável para os nossos corpos.
Cheguei a casa do meu amigo Kikas (o baterista de Putn was the bastard) e vivi o ritual anual de o ouvir queixar-se da sua vida. Não tenho nada a dizer sobre a viagem de carro até Barroselas, passei-a a dormir profundamente no banco de trás com uns pratos de bateria entre as pernas e uma tarola debaixo do braço.
Já no recinto, a prioridade foi tratar de arranjar pulseiras, steels e senhas para comer. Este nosso primeiro dia não teve muito a assinalar, a chuva foi uma constante para a qual eu estava bem preparada: o meu anorak de penas e capuz pode não ter sido a opção com mais estilo, mas aumentou significativamente a minha qualidade de vida.
O meu evento favorito de sexta foi o concurso “Screams of Steel” no café da piscina, cujo justo vencedor foi o Kikas (ainda ele se queixava da vida). A sua participação consistiu em encostar o microfone às colunas, um bom minuto de feedback acompanhado de piças para o público e um esgar de satisfação. Boa Kikas.
O concerto que causou melhor impressão entre os amigos foi Pungent Stench, por isso no final tratamos todos de ir chillar com os manos da banda.
Não sei se foi divertido ou assustador.
No fim da noite retiramo-nos para Barcelos, onde o nosso amigo Tojó nos acolheu na casa com o melhor duche do Minho. Nada como uma cama lavada, uma refeição da aldeia e um bom duche para recuperar as energias. Algures durante o sono a mãe do Tojo entrou no quarto e veio tapar-nos com mais uma mantinha. Se algum de vocês tiver uma relação difícil com a vossa mãe, recomendo uma temporada em casa do Tojó para satisfazer toda e qualquer necessidade de amor maternal que possa faltar na vossa vida.
Se tiverem por habito rapar as sobrancelhas, é boa ideia não aparecer na mesa do almoço sem maquilhagem na casa das outras pessoas.

A tarde de Sábado foi passada por Barcelos. Não estávamos com pressa de voltar para a lama e o metal, por isso, cházinho ao sol, videos engraçados e esplanar largo foi o programa do dia, até aproveitamos para marcar o quarto de hotel para o Milhões de Festa. Quase ficámos tentados pelas diversões coloridas. O jantar foi pelo Xano e no fim enfrentamos à sinuosa estrada até Barroselas.
#sdds
Tentar ser vegetariana em Barcelos é catar os picles das moelas.
O último dia é aquele em que dás tudo por tudo, o dia de colar o ácido. No café da piscina (acho que foi onde passei a maior parte do meu tempo) encontrámos alguns panfletos informativos sobre drogas duras e sexo seguro.
Eu gostei deste.
Claro que umas horas depois o panfleto do speed já tinha sido utilizado para cozer e cheirar speed, e umas das folhas transformada num tubinho.
Havia um gajo de uma banda que queria mesmo muito arranjar speed e sempre que alguém lhe arranjava um bocadinho ele cheirava aquilo e lambia sofregamente o papel.
O concerto da noite era, de acordo com o Bruno (o rapaz da foto das moelas), Anaal Nathrakh, do qual eu aguentei talvez dois minutos antes de ter de fugir, contendo o vómito provocado pela intensidade dos graves a bombar dentro do meu peito. Foi hora de fugir para o café da piscina e conviver à mesa com os amigos disponíveis, aos quais agradeço desde já pela paciência para as minhas verborreias.
O Tojó e o Bruno, com um ar triunfante e satisfeito. Acho que foi um bom concerto para quem conseguiu ultrapassar o mau-estar fisico.
Tojó \m/
A partir daí o resto da noite aconteceu entre o café da piscina, o refeitório no backstage e o contentor dos Black Miasma onde girava uma miríade de substâncias potenciadoras de festa, trocavam-se garrafas, copos, saquinhos e sorrisos exagerados. São circunstâncias sob as quais (ainda que difícil) é muito importante saber dizer “não”.
Eis se não quando: sangue nas mãos do Bruno. O alarme. De onde vinha o sangue? Alguém pergunta “are you a woman?” e eu começo instantâneamente a fazer contas de cabeça para saber se não havia de facto alguma possíbilidade daquele sangue ter origem algures no meu sistema reprodutor — não, o Bruno tinha cortado o dedo e não parava de sangrar (não me perguntem como é que eu achava que havia sangue da minha vagina no dedo do Bruno, provavelmente a minha cabeça conseguiu arranjar um cenário onde entre as 10 camadas de roupa que estava a usar isso seria remotamente possível).
Mantendo o sangue frio, um gajo grande e cabeludo, todo ele sorrisos, agarra um pedaço de guardanapo e fita adesiva preta e faz o curativo mais heavy metal que eu alguma vez vi. A melhor descrição que posso fazer da aparência desta pessoa é: imaginem o Cheshire cat mas versão gajo grande e cabeludo.
Ao fim de um espaço de tempo impossível de definir, aquele contentor tornou-se claustrófobico e o Bruno tinha de ir fazer xixi, aproveitámos a deixa para abandonar a embarcação, não sem ser vitima de um puxão no casaco e um pedido para ficarmos. Aparentemente o nosso humor cósmico-negro estava a fazer furor no contentor.
De volta ao café da piscina, torna-se imperativo manter uma mesa “da malta”. Uma espécie de jogo das cadeiras à medida que o fim se aproximava e o café se torna o local mais apetecível. Entre conversas dignas do consultório de um psicólogo, idiotices pegadas e uma feijoada que ainda hoje não consigo imaginar de onde veio, e tivemos todos de fazer um grande esforço para conter os sons de nojo causados pela feijoada manital de forma a não estragar a experiência do senhor estrangeiro que a estava a comer.
A música pára. Uma onda de pânico abate-se sobre mim. Acabou? Mas não tinha acabado, a música passou a existir no café da piscina. Algumas vozes de protesto erguiam-se contra a continuidade do metal. “Porque não ouvir algo mais agradável?” — Ninguém quis saber.
Chega a vez do rei de Barroselas passar som: o Kikas com ritmos africanos animados. Festejei este acontecimento com uma sessão de dança em cima de uma mesa. A mesa era instável e tive dedescer e continuar a minha dança no chão com um espanhol estranho e a dança teve de acabar quando o movimento frenético teve inevitáveis consequências físicas dos duros dias que passaram: vómitos violentos afastaram-me da pista e fui remetida de volta para os banquinhos.
À medida que os amigos começam a abandonar o local, torna-se mais urgente descobrir uma forma de regressar ao Porto. Não tínhamos isso planeado porque YOLO e é sempre divertido tentar resolver coisas importantes em alucinogénicos variados (sei que há muita gente que questiona a lógica por trás de alucinogenicos num ambiente como o de Barroselas, mas eu tenho uma teoria que um dia partilho convosco).
As nossas malas estavam guardadas no contentor transparente, decidimos que se calhar era boa ideia ir indo buscar. Quem é que tem a chave? Onde estão as pessoas responsáveis por essas coisas? Umas voltas e uns telefonemas mais tarde e a aparece a Nini (uma amiga da organização).
De malas às costas, começamos a caminhar em direcção à estrada. “Olha lá, Nini, arranja-me aí mais uns steels”, era a última frase que esperava ouvir naquela altura mas o Bruno continua a defender a sua lógica de que era relevante pedir mais steels quando estavamos a tentar ir embora. Também tivemos de o dissuadir de voltar para o bar da piscina.
Acenámos furiosamente ao primeiro táxi que apareceu, tentamos negociar sem sucesso uma viagem para o Porto por 40 euros. Acabámos por ir de comboio e foi uma viagem do caralho.
Pode não parecer mas estava a adorar a minha vida neste momento.
De volta à cidade invicta, mais uma viagem de táxi, gatos, tirar a roupa, lavar a cara e fazer uma máscara facial de hortelã. Depois foi só dormir 70 por cento dos dois dias seguintes e passar uma semana inteira a dormir entre 10 e 20 horas por noite (percebem a demora do artigo agora?), a ser mal-disposta e insuportável (desculpem lá peeps) e dar tempo ao tempo.
É isto. Cumprimentos e saudinha para todos.
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