Se tinha alguém que mantinha a mão ocupada quando pensava em pornochanchada nos anos 70 era José Luiz Benício. Esse gaúcho foi o ilustrador responsável por traçar as beldades para cartazes de filmes brasileiros na época em que a Xuxa acariciava um baixinho – ponto para os meninos. Vamos ver o que o Benício tem a dizer.
Vice: Pelo que eu sei você deixou de ser uma promessa dos pianos, passou a radialista e acabou virando desenhista. Como foi isso?
Benício: São talentos que a gente tem. Assim como eu tinha jeito pra desenhar, tinha talento pra tocar também, então estudei piano por muitos anos. Só que eu era muito garoto ainda, muito rapaz, então não sabia direito o que eu queria. – comecei a tocar por volta dos oito anos de idade. Eu até tentei viver só do piano; tive um programa de rádio onde eu tocava muito arranjo de música americana e essas coisas românticas.
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E por que parou?
Ah, eu enchi o saco daquilo. Não tinha vocação pra ser pianista mesmo. Eu tinha talento pra desenhar e, naquela época, todas as escolas primárias tinham cursos específicos de desenho. E como eu tinha talento para aquilo, me deram muitas aulas extras. E assim eu fui me desenvolvendo. Depois, como comecei a trabalhar muito cedo também, no próprio trabalho eu fui me aperfeiçoando pela continuidade.
Entendi. Mas na verdade o que eu quero mesmo saber é como você começou a desenhar aqueles cartazes de pornochanchada.
Ah, isso foi porque eu entrei pra Rio Gráfica Editora, que na época tinha revistas femininas e de contos, e eu comecei ilustrando histórias pra elas. Então passei a desenhar muitas mulheres, e me especializei em desenhar mulher bonita. Fui desenvolvendo e acabei meio que especializado nisso. Aí lá pelos anos 70 comecei a fazer os cartazes dos filmes.
Mas elas posavam peladas ou era tudo feito baseado em fotos mesmo?
Que peladas nada, rapaz! E eu tinha gabarito pra ter mulher pelada? Tava começando a vida, não tinha nem condição de ter mulher pelada à minha disposição. Era tudo baseado em fotografia mesmo. Desenhava e depois pintava com guache. Quando eu comecei a fazer cartaz de cinema eu já trabalhava havia muito tempo em ilustração. Já era casado inclusive, tinha filho. Então é muito mais fantasia das pessoas achar que meu estúdio era cheio de mulher. Eu via algumas, até cheguei a fotografar, mas era coisa rara.
E já rolava uma manipulação naquela época? Do tipo afinar a cintura de uma, aumentar os peitos de outra…
Claro! Eu metia umas plásticas ali. Tirava celulite, fazia elas um pouco mais gostosas do que eram na realidade, coisas assim. Isso aí era uma chamada que a gente tinha pra agradar mais o público.
Qual era o maior desafio para se fazer cartazes eróticos naquela época de ditadura?
A censura naquele tempo era muito rigorosa. Mas aí é que está, a gente tinha que usar a sedução da ilustração até onde podia ir. Daí surgiram essas manhas de colocar florzinha, estrelinha e essas coisas, porque não podia aparecer. Bico de seio, por exemplo, não podia aparecer de jeito nenhum. [Risos] Era uma hipocrisia, mas existia isso.
E de todos esses cartazes, qual é o seu favorito?
Ah, o da Vera Fischer eu gosto muito. De A Super Fêmea. Aquele cartaz ficou muito famoso. Virou uma referência do meu trabalho. Todo mundo conhece aquele cartaz.
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