Foto por Paul Van Jaarsveld

Quando fomos para a África do Sul filmar o documentário Surf Afrika para a VBS durante o mundial de futebol com os surfistas brasileiros Fernando Fanta, James Sanches e Cássio Santos, conhecemos o Bruce Gold, uma lenda viva do surfe local e milianos de Jeffrey’s Bay – um dos picos de surfe mais considerados do mundo. Dá uma “shalohada” no papo que batemos com ele recentemente.
Vice: Oi Bruce. Obrigado por topar fazer essa entrevista para a Vice.
Bruce Gold: Gosto da Vice, ela também é publicada aqui. Eu até tenho uma cópia. Depois me manda algumas edições antigas.
Pode Deixar. Mas conta pra gente, você é de J-Bay mesmo?
Não. Nasci em Natal, em Pietermaritzburg. A primeira vez que vim a J-Bay foi em 1953. Foi só um domingo. Por dois anos eu estive em um internato a quarenta quilômetros de Jeffrey’s Bay, mas só voltei em 1968, quando surfei aqui pela primeira vez. Mas não me mudei para cá. Eu morava em Durban, e ia e voltava. Eu era motorista de táxi de madrugada e surfava durante o dia. No começo dos anos 70 fui ficando cada vez mais tempo aqui, mas não sei em que ano me mudei de vez.
Como era J-Bay naquela época?
Quando viemos para cá pela primeira vez, só surfávamos no Point e no Tubes, não em Supertubes. Tinha uma pequena área de camping no Point, pagávamos 50 centavos por noite. Tinha até uma ducha fria e banheiros. Tinha muito preconceito contra surfistas naquela época, os moradores se recusavam a alugar quartos ou qualquer outra coisa. Quando cheguei em 68 as coisas estavam mudando um pouco, porque o comércio local estava se beneficiando. Pelo que dizem, Supers foi surfada pela primeira vez no final de 68 por dois australianos. Eles fizeram uma long board e a dividiam. [risos] Um ficava sem a prancha quando o outro saía para surfar.
Foi nessa época que começou a revolução das shortboards, não?
No fim de 68, todos os meus amigos estavam fazendo as próprias shortboards. Fui até a Safari [Pranchas de Surf] e eles falaram: “Ah, tem essa prancha 6.8’’ com v-bottom, mas isso é só uma modinha. Vamos fazer uma 9.6’’ bem bacana pra você”. Eu amava minha 9.6’’ e hoje fico feliz por ter começado a surfar com ela. Quer dizer, eu tive uma prancha de madeira de 10 pés antes dela, mas fico contente de ter tido minha 9.6’’. Demorei para diminuir a prancha.
E que prancha era aquela que você usou no dia em que você surfou com os surfistas brasileiros?
Era a prancha de Jeff Bushman [shaper havaiano], ele me deu, junto com uma camiseta. Patrocinado aos 63 anos. [risos] Mas tenho outras pranchas, agora até tenho uma fish 6.2’’’. Você pode me ver com ela no surfimsges.com. Tem até uma foto minha lá dropando o Kelly [Slater], um clássico. Conheci o Kelly naquele dia. Eu disse pra ele “Ei, não interfira nas minhas ondas”. [risos] Não gostamos muito do campeonato da Billabong. Todos os anos as pessoas vêm, não podemos surfar, fazem barulho, danificam as dunas e vão embora. Esse é o lado lunático do surfe, Kelly Slater e seus amigos. Mas ele é um cara legal. Fora que tem olhos muito desconcertantes. Olhos grandes e cinzas, como um lobo. Olhos sérios.
Você acha que o Jordy vai ganhar do Kelly Slater esse ano?
Não estou muito preocupado. Bando de prostitutas. Não aprovo, mas é interessante de vez em quando. Mas conheço o Jordy. Ele cresceu com a gente. Mas agora ele é milionário e você acha que ele vai chegar e falar: “Ei Bruce, toma aqui 10 contos, vamos tomar uma cerveja”. Mas ele espera que eu não o veja. De qualquer forma, é difícil ser tão famoso quanto ele é.
Como é a sua relação com esse pessoal que passa por J-Bay?
Eles têm muito respeito por mim na água. Destruí completamente a prancha de um cara dois dias atrás na Supertubes. Não ficou nem um arranhão na minha prancha, e ele ficou se desculpando. Eu deveria ter desviado e provavelmente ter prosseguido. Não é que eles sejam ruins, o problema é que eu tenho que remar e passar por todo mundo que fica na minha frente, é que eles ficam esperando pelas ondas menores. [risos]
Você é uma lenda, as pessoas te veem vindo e abrem passagem para você.
É, quando eu coloco o meu capacete rosa, ganho respeito. É um capacete rosa choque.
E esse teu jeito arqueado de surfar, de onde veio?
Nat Young e esses caras surfavam assim. O macaco vê, o macaco imita, sabe? A primeira vez que viemos para Jeffrey’s Bay, a Irmandade estava aqui. A Irmandade da Vida Eterna. Esses caras traficavam drogas pelo mundo inteiro. LSD. Isso tudo tá no livro do Nat Young. Eu vi esses caras com cabelo comprido e fazendo yoga e jejum. Pô, eu tinha que tentar fazer tudo isso. Demorou 30 anos pra África do Sul acompanhar.
E você foi convidado para entrar na Irmandade?
[risos] Eu tinha cabelo escovinha e era orelhudo. Eu era ex-policial. Passei três anos na polícia. Eu não recebi nenhum amor por parte deles. Eles tinham o melhor ácido de todos, e nada sobrava pra mim. Lembro uma vez que encontrei um desses caras e ele deu uma de cuzão, tentou gritar comigo, e eu mordi a orelha dele.
Quando você deixou a barba crescer?
A primeira vez que vim a J-Bay. Assim que saí da polícia. Era pra me proteger do sol, e das mulheres também. Nunca precisei de uma na minha vida. São uma âncora.
Liguei pra você esses dias e sua mensagen na secretária eletrônica diz “Shaloha”. Também tem um filme sobre você que se chama Shaloha. De onde vem esse nome?
Shaloha é só uma palavra que veio na minha cabeça durante uma viagem. Estávamos em Moçambique e o rum de lá era razoavelmente bom e estávamos shalohando isso, shalohando aquilo. Decidimos chamar o documentário que fizemos em Moçambique de Shalo-haaaaa. Porque de vez em quando alguém sempre falava Haaaaa pra você lá. Então isso se tornou o Shalo-Ha, entendeu? É um conceito incrível. Paz na Terra. Paz para os indivíduos. Shalom e Aloha.
Você pode conferir o Bruce Gold em ação no filme Surf Afrika no site da VBS: www.vbs.tv
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