When You Arrive There
Flau
7/10
Há na música das Ikebana uma espécie de guitarra amnésica, que viajou por muitos discos e canções até chegar onde está hoje. Sobre a guitarra amnésica diríamos que soa geralmente como se estivesse a ser tocada por dedos cansados e livres da obrigação de um riff acentuado. Mas o melhor nestes casos é mesmo oferecer uns quantos exemplos para identificar a estética em causa. No lugar da prova A, “Song Slowly Song” é um daqueles milagres incomparáveis compostos por Tim Buckley (pai de Jeff buckley) quando este ainda era menor de idade. Apesar de totalmente discreta, a guitarra que atravessa “Song Slowly Song” é um tratado de subtileza que haveria de ser reinterpretado vezes sem conta por ilustres como Durutti Column, John Frusciante ou Vincent Gallo.
A prova B pertence ao duo francês Deus Filles (ainda hoje um mistério subestimado) e surge aqui por dois motivos em particular: a sua estética encontra-se muito próxima da que escutamos nas Ikebana (também elas um duo feminino) e desta vez tentei evitar a todo o custo falar dos Cocteau Twins. “Drinking at a Stream”, das Deux Filles, é um deslumbrante exercício de guitarras em viagem onírica entre dois pontos incertos. Com tudo isto, está mais ou menos apresentado o álbum de estreia das Ikebana , When You Arrive There, cujo título aponta igualmente para um conceito de viagem. E são diversos os percursos mentais que fazemos pelas mãos das Ikebana, que aqui têm algumas canções extremamente frágeis e doces, e uma ou outra ideal para acompanhar momentos de sexo oral cheios de meiguice. When You Arrive There inclui ainda como bónus uma canção chamada “Spring”, que, adaptada livremente do japonês original, parece ter versos como “Cecílio-san Cecílio-san / Cecílio move-se Cecílio move-se / Cecílio stoned Cecílio stoned”. Diverte-me bastante.
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