Discos: Vincent I. Watson

Serene
Pyramids of Mars / Rekids
2013

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A fantasia do sequestro é um ponto de partida recorrente para o desenvolvimento dos mais diversos discos. Numa escuta com  headphones , tal como num rapto vulgar, um dos sentidos fica normalmente obstruído (a audição no primeiro caso, a visão no segundo) e a imaginação é logo aí chamada a responder ao estímulo ou à falta dele. Quer isso dizer que a experiência oferecida por uns quantos discos não difere assim tanto daquela em que alguém se encontra, depois de ser empurrado para dentro do porta-bagagens de um carro (se exceptuarmos, como é óbvio, todo o pânico envolvido na segunda). O que acontece aqui é que o controlo assumido por um álbum totalmente imersivo (aquele que nos tranca no interior da sua música) é bastante semelhante ao das mãos do sequestrador que ata bem os seus nós.  Mas para confirmar a existência de “discos-sequestro” é necessário recorrer a alguns exemplos. Comecemos por um bastante óbvio: “Feiticeira”, a primeira faixa de  White Pony , descreve um rapto, com um homem e uma mulher em posições invertidas, no arranque daquele que nem por acaso é o álbum dos Deftones mais capaz de nos agarrar do início ao final (e que ainda tem “Passenger” para sustentar a ideia de viagem). Depois há também essa majestosa obra chamada  Remembranza , em que o mexicano Fernando Corona (mais conhecido por Murcof) condensa todas as sensações de angústia e de incerteza, que são peculiares de uma América Latina em que abundam os raptos. Não muito longe daí e com uma data de lançamento bem mais recente,  Despertar Con Otro Nombre , o EP do uruguaio George Paar, está em linha com os últimos discos do grande Jeff Mills no magnetismo poderosíssimo de uma techno que nos transporta consigo, tal como uma nave espacial em missão de abdução.
Nessa imaginária linhagem de “discos-sequestro”,  Serene  será porventura o menos violento, mas também o mais dramático (tal como confirma o piano da faixa-título que faria chorar até o Chuck Norris). Vince Watson desvinculou-se por completo dos beats que tantas vezes dominavam os seus discos de techno (aqui e ali um bocado azeiteiros) e adoptou o mais pomposo nome de Vincent I. Watson para arriscar o seu mais assumido álbum de atmosferas cinematográficas (cheias de crescendos, sons ofuscantes e uma apoteose new-age durante “Celtic Beauty”). O resultado disso é  Serene , que, ao contrário do que por aí se diz, não é suficientemente pacífico para ser remetido â divisão da  ambient . Quanto muito,  Serene  é tão  ambient  como qualquer coisa alguma vez gravada por Angelo Badalamenti ou Cliff Martinez para acompanhar as sequências filmadas por determinado realizador.  Serene  é uma banda-sonora para um dramalhão que ainda não existe. Parece que a Marisa Tomei vai a dormir no banco de trás e a sonhar com cascatas. Deixem-na estar.
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