Um incêndio florestal num trecho da fronteira do Sudão do Sul. Todas as fotos por Tim Freccia.
A VICE foi ao Sudão ver como uma das civilizações mais ricas e avançadas durante os séculos de colonialismo na África transformou-se num país castigado por golpes de Estado, ditaduras e desmandos, mergulhado numa série de conflitos intermináveis após a independência, em 1956. Nesta série de 22 capítulos, Robert Young Pelton e o fotógrafo Tim Freccia mostram de perto o que acontece num dos maiores países do continente africano, rico em petróleo e guerras, rachado ao meio em 2011, e com um futuro incerto pela frente.
Eu e o fotógrafo Tim, juntamente com Machot (um ex-menino soldado que fez a viagem de volta dos EUA ao Sudão na esperança de ajudar seu país de origem) e Amos (nosso motorista e guia, com passado de ex-sargento do exército sudanês), caímos numa rotina.
Videos by VICE
Machot sai do hotel para passear pelas manhãs. Ao me ver com Tim desfrutando de nossos cafés, ele exige saber por que não estamos saindo. Então, os dois entram numa discussão furiosa, geralmente sobre o ódio de Machot por Nairóbi, enquanto Amos, de pé atrás de nós, fica sem jeito e simplesmente não diz nada. Eu dou uma de pacificador, acalmando a todos finalmente. Estamos lutando nossa própria pequena guerra para sair do Quênia. Já tínhamos nossa pista de pouso em Akobo, agora só precisávamos de alguém para nos levar embora.
Depois de vários impasses, nosso quebra-galho, Edward, esbarra numa pista de um piloto que pode nos levar pela mata para encontrar Riek Machar, ex-vice-presidente do Sudão do Sul, deposto sob acusação de tramar um golpe. Um conhecido de Edward, também por acaso um queniano branco nativo, acha que pode nos arranjar um voo dentro do Sudão do Sul. Alertaram-nos para o fato de o piloto não poder ser nomeado nem fotografado. Tudo o que sabemos é que o piloto é na verdade uma mulher e que o voo, só de ida, nos custará US$ 17.200. Isso é mais do que o dobro da taxa de um avião fretado nos períodos em que o país não está prestes a se canibalizar.
Edward nos passa os detalhes de seu contato: “Você serão deixados – ela nem vai desligar os motores – e, quando estiver tudo certo com o equipamento de vocês, ela decolará.” Concordamos.
Mais tarde recebemos a ligação: “Estejam no aeroporto às 6 da manhã.”
Exultantes, nos preparamos comprando comida, suprimentos para camping e presentes para os novos amigos que conheceremos nas nossas viagens. Machot parece obcecado em comprar coisas que seus associados insistiram que Machar iria precisar: uma tenda, botas, cebolas, leite em pó para bebê e outras besteiras aleatórias. Eu dou uma variada, comprando um candelabro, temperos e Tabasco. O sudanês também diz precisar de roupas, apesar de ele ter colocado na mala suas vestes de rua normais e uma camisa, calças e mocassins de couro. Amos, como sempre, fica parado silenciosamente atrás da gente.
Logo após surgirem entre nossos contatos rumores de que estamos partindo, pedidos para levar pessoas e equipamentos começam a transbordar. Nada como um voo de US$ 17.200 rumo ao quinto dos infernos de um país para atrair novos amigos. Nossa bagagem se avoluma com um novo telefone via satélite Thuraya, duas filmadoras, tripés, mais comida e botas.
A essa altura, Tim e eu temos a impressão de que Machot tem feito bico às nossas custas. Ele desaparece por longos períodos de tempo, consumindo minutos no nosso Thuraya, seguido de constantes exigências para carregarmos os telefones via satélite de comandantes aleatórios. Ignoramos esses pedidos. Ele nos promete que ficaremos na linha de frente. “Tudo bem se vocês ficarem na linha de frente?”, pergunta. Tim e eu olhamos um para o outro.
Na manhã da nossa partida nos reunimos numa aurora fresca no Aeroporto de Wilson, a plataforma de estacionamento comercial de Nairóbi. Os pilotos estão fumando seus cigarros matinais. Aviões novinhos em folha taxiam na passarela antes de decolarem para entregarem alimentos frescos na Somália.
Robert e Machot se abraçam antes de embarcarem na aeronave fretada em Nairóbi.
No escritório no andar de cima, o contato do Edward conta cuidadosamente o maço de grana que dei a ele. Depois conta uma segunda e uma terceira vez. Ele olha com nervosismo para Tim, que está apontando sua câmera a ele, e nos lembra de que não devemos filmar nossa piloto.
Finalmente chegou a hora? Eu me recuso a acreditar até que estejamos voando. Pela segunda vez. Primeiro precisamos voar até a piloto que nos levará até nosso destino final.
Depois de arrastar nosso equipamento por uma fila de segurança temporária, carregamos o avião e taxiamos para sair. Machot dá um sorriso largo. Ele nunca voou num avião pequeno. As rodas logo estão no ar e voamos para o norte à medida que a paisagem se torna acidentada e montanhosa, depois finalmente se alisando até se tornar um planalto seco.
Começamos a descer e a pista lá embaixo chega à nossa vista. Aviões de carga destroçados e abandonados sujam a pista, e nos encaixamos entre eles na aterrisagem.
Logo depois de aterrisarmos, nossa piloto chega – a mulher do momento. Ela está pilotando uma Cessna Caravan gigante, o burro-de-carga monomotor de 12 passageiros da África. A bagagem é guardada num compartimento no trem de pouso. O destaque do lado de dentro era o papelão marrom escuro no chão e as capas de algodão para assento manchadas.
Carregamos nossas coisas enquanto ela bebe Nescafé e fuma Marlboros vermelhos um atrás do outro. A mulher sugere que nos apressemos e evitemos os olhos intrometidos dos trabalhadores do aeroporto, que espreitam atrás do prédio.
“Como está?”, ela pergunta nervosamente a respeito da pista de pouso. Digo que está bem, que temos conversado com as pessoas do local e elas estão nos esperando. Então, sacudindo para lá meu atordoamento nairobiano, percebo que o tempo todo era Machot falando com as pessoas no terreno. Admito que não faço ideia de como a situação esteja. Peço ao sudanês que ligue para eles novamente, e ele disca do meu telefone via satélite.
Nossa responsável por pilotar está nervosa porque, antes do nosso voo, tentou pedir um favor a um general que conhece em Juba. Ela esperava que o militar lhe desse permissão para pousar em Akobo. Sua resposta foi que de jeito nenhum o avião deveria pousar perto de lá. Isso significava que se ela fosse avistada na pista, seus negócios no Sudão do Sul estariam terminados.
Então, em vez de nos levar até Akobo, ela nos oferece como destino Pochalla, uma cidadezinha perto da fronteira com a Etiópia. Sob minha direção, Machot faz uma breve ligação aos rebeldes, que dizem estar a cidade em mãos inimigas. Tem que ser Akobo ou Waat. Ela escolhe a segunda cidade, nos colocando a 160 quilômetros do nosso destino.
Piloto se prepara para o pouso em Waat, detida por rebeldes, Sudão do Sul
Não tardou muito para o sudanês voltar ao telefone, gritando e nos passando informações de segunda mão: “Eles têm 300 pessoas e a pista está segura.”
Depois de desligar ele diz: “Eles também perguntaram se podemos trazer de volta quatro pessoas feridas.”
Nossa piloto mostra irritação: “Não, vocês não me disseram isso”, ela diz. “Não farei isso, não posso trazer feridos de volta para cá. Vocês sabem quanto problema isso pode causar? Quanta papelada, quanta dor de cabeça?”
Machot fica bravo, retrucando: “Eles tiveram de viajar desde Akobo. Eles têm de ser levados embora de avião.”
“Quais são as feridas deles?”, ela pergunta.
“Eles têm TEPT (Transtorno de Stress Pós-Traumático).”
“TEPT? Pensei que você tivesse dito que eles estavam feridos.”
“Eles sofreram por causa da luta pesada”, o sudanês protesta. “Um homem liderou a fuga de Riek de Juba e não dorme há 14 dias. Eles têm de ser levados embora.”
Machot está prestes a arruinar nossa única possibilidade de carona para fora. Dando o melhor de mim para não chateá-lo ainda mais, tento explicar-lhe que TEPT não é considerada exatamente uma ferida fatal, e nem requer uma evacuação médica.
Nossa piloto se recusa: “Não. Eu vou voar para Juba depois. Não vou levar essas pessoas de volta”.
Discutimos com Machot e pedimos para ligar de novo aos rebeldes informando-os de que vamos entrar e ninguém vai sair. Dizemos que podemos arranjar algo mais tarde, se for preciso. Estamos mentindo. Ele está se tornando um risco.
Nossa piloto não está se divertindo. Enquanto Machot grita em nuer ao telefone, ela diz: “Eu já fiz isso antes. Eles vão atacar o avião, mostrar suas armas e ameaçar me sequestrar. Já vi isso muitas vezes com essas pessoas.” Não acho que seja uma boa ideia. Vou embora e fumo um cigarro. Eu digo: “Se você quer pilotar o avião, vá em frente. E se uma pessoa me reportar a Juba posso perder todos meus negócios”. Ela balança a cabeça. “Não, isso não é bom. Se eu levar essas pessoas de volta a Juba, eles os matarão.”
Um soldado senta na traseira de um Toyota Land Cruiser cheio de guerrilheiros desertores do SPLA.
Machot desliga o telefone e ela pergunta o que eles disseram. “Eles não estão contentes”, ele responde.
Ela tenta nos deixar na mão. “Eu posso voltar depois”, diz. “Tem um hotel barato aqui. Vocês podem passar a noite.”
Deixamos claro que estamos entrando. Dizemos a Machot para ligar novamente e ter absoluta certeza de que não há nenhum problema. Ele o faz e nos assegura de que tudo está bem. Tiraram todas as pessoas da pista.
Digo à piloto que é agora ou nunca: se ela quer o dinheiro, entraremos de avião hoje; não temos os fundos para continuar tentando. Ela precisa de grana. Os negócios têm sido uma merda nas última duas semanas. Ela tira outro cigarro do maço e diz: “Vamos.”
Passamos pelo único detector de metal do terminal e embarcamos no avião.
A piloto tem bons motivos para estar nervosa. Conta-nos que no dia anterior seu avião estava carregado de corpos de três dos guarda-costas do Kiir. Ela foi contratada para transportar os corpos mortos de volta à vila natal deles.
Até 11 da manhã não há nada no chão a nos indicar que cruzamos para o Sudão do Sul, exceto os grupos de cabanas tukul que aparecem de vez em quando. Ela fuma e lê um livro enquanto o avião está em piloto automático. Ao nos aproximarmos de Waat, agrupamo-nos ansiosamente para ver qualquer sinal de nossos anfitriões. A cidade é pequena, bissecada por uma pista lavrada grotescamente, um pit stop para etíopes abrindo caminho pela fronteira. À medida que nos aproximamos, tudo o que enxergamos é um grupo de pessoas aleatórias vagando pela pista. Não há evidências de segurança ou de homens com armas que nos protegerão do que rapidamente poderia se transformar num ataque. Ao descermos até alguns poucos pés de altura, o grupo se dissipa. Pousamos.
Mesmo dentro da fuselagem, a frescura de Nairóbi se foi. Está cerca de 32 graus. O sol é ofuscante, e um vento seco levanta a poeira. Crianças curiosas são seguidas por mulheres que nos saúdam com alimentos equilibrados em suas mãos. Não há sinais de forças rebeldes.
Sondando a área em busca de problema, nossa piloto grita conosco para sairmos e descarregarmos. Dentro de minutos nosso equipamento está empilhado na pista. “Tenham cuidado”, ela diz, subindo de volta no avião. Então, numa rajada brusca de poeira e pedras, ela se vai.
Robert pega carona.
Ao que o avião desaparece, olhamos para os locais, que nos olham alternadamente. Temos uma pilha impressionante de bagagem e nenhum lugar para colocá-la. Em pouco tempo uma picape com homens armados surge, e eles nos saúdam. Não são os 300 homens armados que Machot nos prometeu, mas é melhor que nada. O assento do Toyota saqueado da ONG está coberto de sangue coagulado. Jogamos nossas coisas para dentro, e eles nos levam.
Quando chegamos lá, o clima não era amigável. Oferecem-nos cadeiras de plástico para sentarmos enquanto homens ao redor de uma mesa de plástico discutem nosso destino.
Uma vespa-cavadora de seis centímetros e meio de comprimento está ocupada fazendo um buraco debaixo da mesa. Uma grande águia dourada voa sobre nossas cabeças enquanto corvos-de-pescoço-branco procuram comida. Um soldado vestindo um colete à prova de balas das Forças de Paz da ONU passa por nós.
Há um problema de espaço. Os quatro homens supostamente sofrendo de TEPT não foram embora no nosso avião, então não há espaço suficiente no carro para todos nós irmos a Akobo.
Alugaremos um carro? Talvez.
Um lagarto bege se apressa pela terra tratada. Permanecemos sentados educadamente.
Uma ambulância da Cruz Vermelha saqueada, mas utilizável, é encontrada. O dono quer US$ 700 para alugá-la. Negamos, só para descobrirmos depois que era uma pechincha.
O comandante Dieu Koang Bangot rumina sobre a situação com seus homens. Foi decidido que todos nós simplesmente nos empilharíamos dentro do Toyota Land Cruiser verde maltratado que nos trouxe para ir com ele aproximadamente 240 quilômetros ao leste até Akobo. O problema é que somos 17. Sentamos quatro embaixo, com dois sobre o teto, e de alguma forma encontramos lugar para nosso equipamento.
A estrada é uma reta pela savana seca. O solo é seco e despedaçado profundamente por rachaduras. Quando a chuva vier, isso será um pântano impenetrável. Por enquanto é uma estrada brutal, o caminho todo.
Passamos por mais pessoas caminhando com alimentos equilibrados em suas mãos. Estamos em território nuer e não devemos ter medo do inimigo. Além da picape, AKs e uniformes, essa paisagem mudou pouco desde que as pessoas começaram a viver por aqui.
Machot e guerrilheiros desertores do SPLA carregam um antílope abatido.
O carro para abruptamente e um dos homens sobre o capô aponta. Uma manada de antílopes está pastando à nossa direita. Um dos soldados pula para fora do caminhão e mira cuidadosamente. Bang! A manada se espalha. Um animal é ferido, sua traseira imobilizada. Corremos para lá e vemos sangue saindo de sua ferida. Ele ainda está consciente, então os rebeldes lhe golpeiam a cabeça e pisam em sua garganta. Ele morre. A carcaça é amarrada ao capô. Isso será o rango depois, já que nenhum dos rebeldes carregam água ou suprimentos para dentro do campo.
Os homens são todos nuer, e essa é sua terra natal. Apesar de usarem uniformes do SPLA, sua luta atual é contra o governo de Salva Kiir. Todos eles sabem dos ataques contra seus colegas tribais, uma situação que atiçou os nuer contra seus irmãos dinka.
Depois da caída da noite chegamos em Akobo. Agora estamos definitivamente com os rebeldes. Uma longa procissão de oficiais dão uma passada pela nossa cabana de adobe e nos saúdam. “Vocês ouvirão tiros essa noite”, diz um senhor. “Não se preocupem – é um tiroteio feliz. Não se assustem.”
Dormimos sob as estrelas, tiros desvanecendo na distância. Pela manhã há dois grupos de rebeldes uniformizados operando uma revista casual e uma lista de chamada. Eles carregam o que parecem ser novas armas, com cintos de munição para metralhadoras PK amarradas ao redor de seus corpos.
Contam-nos que os tiros aleatórios são para ter certeza de que os canos das armas não foram curvados depois das armas terem sido lançadas dos aviões. Pergunto quem as entregou. Eles me dizem que são cortesia do Sudão, através de uma aeronave eritreia.
Akobo diz muito sobre o Sudão do Sul. A cidade segue o rio, que esculpiu um bulevar sinuoso e aquoso. Barcos fluviais de metal, canoas e barcos a motor alinham-se à sua margem, mas o combustível está em falta. O centro social é uma rua central rasgada por árvores onde pessoas passeiam para cima e para baixo, dizendo olá umas às outras inúmeras vezes ao dia. Escolas grandes e vazias ficam adjacentes a prédios do governo. Os expatriados e as ONGS já partiram faz tempo. Não há eletricidade e as pessoas ainda se lavam no rio e cagam nos campos. Onde estamos hospedados há uma fossa sanitária, mas uma massa contorcida de larvas está atualmente ocupando-a a ponto de inutilidade. Logo fora do portão há uma coleção triste de novos caminhões Toyota em blocos, desprovidos de suas partes.
O jantar está amarrado ao capô do Land Cruiser.
Uma bandeira apagada do Sudão do Sul oscila fracamente na praça da cidade. Eletricidade zune do escritório do comissário – dizem-me que alguém das Forças Armadas dos EUA instalou painéis solares e baterias. Embora haja energia, o escritório está trancado, e apenas certas pessoas podem entrar para carregar seus celulares. Embora não haja mais cobertura na área, as pessoas ainda gostam de andar com seus celulares como se tivessem alguém com quem conversar ou alguma coisa sobre a qual falar.
Teias de aranha e redes elétricas mortas ligadas à mão conectam as cabanas nos arredores. Dois grandes geradores estão desocupados; suas baterias de arranque, mortas. As velhas estruturas coloniais estão cobertas de grafite e de dejetos humanos, já que os locais preferem suas construções de pau a pique em vez de blocos de concreto e tetos de estanho enrugados.
Por algum motivo o mercado local está fechado hoje, e a polícia avisa a grupos de jovens para voltarem a suas casas. O “mercado” é uma coleção de barracões instalados por ONGs que vendem alimentos secos vindos da Etiópia. Ali, um homem faz funcionar uma máquina de costura operada pelos pés, e crianças vendem pacotes de glicose e escovas de dente.
Logo atrás da base da ONU, no rio, há um depósito. Um caminhão branco descarrega o que só pode ser farinha e grãos recém-saqueados. A carga também inclui uma impressionante coleção de cadeiras de plástico e alimentos. O homem que administra o local é bem-vestido e fica um pouco perturbado com nossas câmeras. Ele vende sorgo tirado de um saco grande para donas de casa.
Esbarramos em soldados que vieram de Waat conosco. Eles têm orgulho de sua cidade. Também têm bastante apreço pelo fato de a Missão da ONU no Sudão do Sul ter permanecido segura depois da luta ter estourado na região poucas semanas atrás. De alguma forma, o fato de não ter sido saqueado é uma indicação de seu controle sobre a área ao redor.
Isso nos faz pensar nervosamente quando vamos sair daqui e continuar com o show. A última coisa que queremos é abusar da hospitalidade.
Capítulo anterior | Índice | Próximo capítulo
Traduzido por: Julia Barreiro
More
From VICE
-

-

Steve Jennings/Getty Images -

Screenshot: The Pokémon Company
