Ilustrações por Benjamin Marra
SAN YSIDRO
Estou na fronteira terrestre mais movimentada do mundo. Consigo atravessar rapidamente porque estou indo na direção certa, que na verdade é a direção errada. Estou a caminho do lugar onde ninguém quer estar. Do outro lado da Highway 5, uma extensa e brilhante fila de automóveis aponta para o norte, para os Estados Unidos da América. Ali, as pistas congestionadas parecem corredores de supermercado. Dá para comprar pipoca, biscoito, cigarro. Quer um café? Um menino que mal tem tamanho para alcançar a janela do seu carro serve para você. Quer um jornal em espanhol? Ótimo. Em inglês? Quem sabe. Quer uma toalha com estampa de oncinha? Existem centenas delas.
Estou indo para um evento literário realizado em Tijuana e Mexicali, anunciado como um encuentro. Fui informada de que se trata de algo entre um “festival” e uma “confe-rência”, mas não existe nenhuma outra palavra que faça jus para encuentro. Sua sonoridade remete tanto ao verbo “encontrar” como à palavra “conto”, o que serve como uma pista para o que vai acontecer neste turbilhão de libertinagem e mesas-redondas: a ficção vai ser a moeda corrente, algumas pessoas vão autografar livros, outras assinar contratos com editoras e outras ainda vão falar mal de Mexicali e dizer que gostariam de estar em Oaxaca. As pessoas vão transar. Nada vai começar no horário planejado. De manhã, biscoitos vão ser servidos com cafés em copos de plástico. À noite, a cocaína vai ser servida nas cabines dos banheiros.
Na travessia da fronteira, quem me acompanha é uma mulher chamada Sidharta. Sim, como no livro de Hesse. Descubro que Sidh gosta do José Saramago. Gosta de sair à noite. Gosta de dançar com homens e também com mulheres. Esta semana, ela pode reatar o namoro com um músico de Tecate que é viciado em anfetamina e tem um temperamento cheio de “altos e baixos”. Mas provavelmente não. A Sidh é assim. Ela está usando salto agulha.
Ela me diz que Tijuana melhorou nos últimos dois anos. A mídia americana tem dito a mesma coisa. Mas as variações e as inconsistências são sempre inevitáveis quando meus compatriotas conversam sobre como a situação está ruim “lá embaixo”. Obviamente, lá embaixo não se resume a um único lugar, mas a milhares, e a verdade é que a coisa me-lhorou em Tijuana, mas piorou em Tamaulipas, e continuou péssima em Ciudad Juárez. Pergunto a Sidh como era viver em Tijuana durante os meses mais complicados, e ela me diz algo interessante — nem tanto sobre viver sob a constante ameaça da violência, mas sobre falar a respeito da vida sob a constante ameaça da violência: é impossível falar sobre a situação quando você ainda a está vivendo.
“Não dizíamos que a situação estava ruim quando ela estava ruim de verdade”, ela conta. “Agora podemos dizer.”
Sidh não está se referindo à imprensa, mas a seus amigos mais próximos. Mesmo quando se reuniam em lugares privados, desviavam o foco daquilo que sua vida havia se tornado: medo na hora de sair para beber, medo na hora de ir trabalhar, na hora de pegar o ônibus, de comprar um maço de cigarros ou até de atravessar uma rua. Agora eles conversam sobre isso. É mais fácil falar quando o pior já passou, sem a ameaça de que tudo possa ressurgir em uma onda de vingança. Sidh me conta que vários de seus amigos começaram a tomar antidepressivos durante o período mais complicado. Ela mesma nunca tomou, mas agora sente que talvez esteja precisando.
TIJUANA
A Avenida Revolución é pontuada pela presença das estruturas ocas do turismo barato. Os bares vazios são como relíquias de uma civilização extinta, consumida por seus próprios excessos hedonistas: pistas de dança silenciosas emolduradas por paredes cobertas de bambu e decorações que imitam um ambiente selvagem, varandas iluminadas por tochas com cartazes anunciando happy hours regados a tequila que ninguém mais frequenta. Os clubes noturnos parecem casas desapropriadas. Os turistas foram afugentados. O Centro Cultural Tijuana tem um teto de vidro de uma beleza surpreendente que filtra a luz do sol em cores vivas. Mas as únicas pessoas que vejo lá dentro são homens vendendo passagens de ônibus para outros lugares.
Todos tentam vender alguma mercadoria nas ruas, mas ninguém compra. Se eu quisesse, poderia adquirir todo e qualquer tipo de coisa: um burro com listras de zebra, cartões postais ostentando dez pares de peitos e a carcaça vermelha de uma lata de Tecate na areia, um sapinho de madeira ornamentado com um cigarro de verdade em sua boca, que foi entalhado por um velhinho na minha frente. Eu poderia comprar uma camiseta estampada com a expressão estoica de Pancho Villa ou o rosto onipresente de Che Guevara, uma camiseta com uma piada sobre cerveja, uma camiseta com uma piada sobre tequila, uma camiseta com uma piada sobre misturar tequila com cerveja ou uma camiseta que expõe o objetivo e a consequência de toda essa bebedeira (“Eu trepo no primeiro encontro”). Convenientemente, existe um hotel bem na frente de todas essas bodegas pitorescas, anunciando quartos por 99 pesos por hora. Não vejo ninguém entrar ou sair.
Em Tijuana, transpiro o tempo todo. Estou esperando a água voltar para eu poder tomar um banho. Estou escrevendo as frases das camisetas no meu bloco de anotações. Estou pensando nos copos de bebida. Tentando decifrar a mistura do “espanglês” por trás de suas piadinhas. O tempo todo penso em Sidh dois anos atrás, apertando o passo por essas calçadas esburacadas com seus sapatos de salto alto fazendo clique-claque em uma cadência nervosa como a de uma respiração acelerada, porém mais lenta que a de uma rajada de metralhadora. Não conseguíamos conversar sobre isso na época… Ao longo da fronteira, diversas cidades ainda estão em silêncio. As pessoas que descrevem Ciudad Juárez como a cidade mais perigosa do mundo não são as mesmas que vivem lá.
Acho que se eu andasse pelas ruas em um lugar onde a cidade inteira estivesse apavorada, talvez entendesse um pouco melhor o medo. Esse é o grande equívoco do turis-mo, a ideia de que nos transportar fisicamente para algum lugar nos faz ter alguma intimidade com o local. Tudo não passa de uma pequena dose de empatia. Nós a absorvemos da mesma forma como viramos uma dose de tequila, ou mandamos um tirinho na chave da casa de algum desco-nhecido. Queremos a ilusão da presença física para tentar eliminar a questão da diferença. Às vezes a cidade trepa na primeira noite, mas acordamos com a sensação de que não a conhecemos nem um pouco.
Acordo de manhã e como huevos con jamón em um lugar chamado Tijuana Tilly’s. Eu poderia ter pedido wa-ffles, mas não pedi. Quero uma refeição autêntica. Estou à mesa com uma assessora de imprensa chamada Paola e um romancista chamado Adán. Os dois pediram waffles. A Paola diz não acreditar que o DF (a Cidade do México) seja o lugar mais seguro do país hoje em dia. O Adán me conta que Mexicali é relativamente segura. Relativamente é uma palavra importante por aqui. Seja como for, Mexicali fica duas horas a leste. Sua primeira explosão demográfica foi durante a Lei Seca, assim como Tijuana, mas as semelhanças acabam por aí. O Adán fala muito rápido, e não estou certa de estar entendendo o que ele diz — ou pelo menos de estar entendendo corretamente —, porque ele parece falar sobre uma cidade subterrânea cheia de chineses. No fim, meu espanhol deu para o gasto: nos anos 1920, havia mais trabalhadores chineses do que mexicanos em Mexicali, em uma proporção de oito para um, e uma rede de túneis subterrâneos tornava acessível suas casas de ópio e bordéis aos americanos ávidos por diversões ilegais que viviam do outro lado da fronteira.
Quando vou embora de Tijuana, fico ansiosa para conversar sobre a cidade — da mesma forma como as pessoas ficam ansiosas para conversar sobre um sonho assim que acordam, com medo de que ele se desintegre caso os detalhes não sejam fixados e um fio condutor não seja estabelecido em meio a tantos absurdos. “Que cidade era essa?”, me pergunto.
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MEXICALI
Se a rodovia usada por quem chega a Tijuana é repleta de armas, viaturas e homens fardados (o próprio espetáculo do pânico americano), a estrada para quem sai é poeirenta e fantasmagórica. Fora dos limites da cidade, barracos se equilibram nas encostas lamacentas. Muitos têm as paredes ou os telhados feitos de pedaços de cartazes publicitários, que exibem tubos gigantes de pasta de dente e belos sorrisos. Por fim, a favela cede lugar à estrada conhecida como Rumorosa, uma montanha-russa que faz mergulhos em meio às curvas em cotovelo e às encostas rochosas das montanhas avermelhadas.
Em um mirante a meio caminho de Mexicali, onde a estrada descamba violentamente para a esquerda, saímos de uma curva e vimos os destroços parcialmente carbo-nizados de um caminhão. Um homem está deitado no chão em posição fetal, com a testa sangrando. Não parece estar morto. Não há nenhuma ambulância à vista. Um padre está em pé ao lado do homem, protegendo-o do sol do meio-dia, murmurando orações e acenando para os carros que passem devagar. Deve estar mais de 30 graus em pleno mês de outubro, e esse sujeito está vestindo uma batina preta que absorve todo o calor. Seu crucifixo brilha em um tom prateado. A grade do radiador do caminhão brilha no mesmo tom atrás dele.
Não é apenas a violência que predomina aqui — intencional, casual, acidental, incidental —, a perspectiva e as consequências da violência nos cercam por todos os lados: homens com metralhadoras na Avenida Revolución, cães rosnando e pulando em veículos utilitários para farejar drogas, um bêbado desmaiado em frente a uma panadería, um caminhoneiro tão cansado ou alucinado que arremessa o caminhão em um precipício. Passamos por um soldado em posição de alerta com uma semiautomática nas mãos, aparentemente vigiando a pilha gigante de pneus velhos atrás dele. Não há mais ninguém à vista. Os soldados locais estão de prontidão contra uma violência incontrolável, empoleirados no lixo, com as armas apontadas para o vazio.
Em uma blitz, nossa van é revistada. Veículos maiores atraem mais suspeitas, é inevitável. Os soldados esvaziam nossas malas. Tudo parece mera formalidade, mas mesmo assim o clima é tenso. Quando nos afastamos, olho para trás e vejo que outro soldado, em pé em uma caminhonete, nos manteve sob a mira de uma metralhadora o tempo todo.
Não há casas noturnas espalhafatosas em Mexicali. Seria impossível encontrar um sapo fumante, mesmo que sua vida dependesse disso. A iluminação é mais austera nesta cidade. Os hotéis anunciam preços para períodos de quatro horas em vez de uma. Não sei o que isso significa, mas parece ser sinal de uma diferença em termos de cultura cívica.
O bairro chinês é movimentado. Os restaurantes servem tofu com molho picante e tacos de barbatana de tubarão. Eu almoço no Dragón de Oro, cujo estacionamento faz limite com a fronteira, uma cerca marrom e espessa de uns cinco metros de altura. Dá para ver as casas de alvenaria e dos campos de beisebol de Calexico por entre as fendas da cerca.
Nós, participantes do encuentro, somos 50. Tem o Oscar, um poeta que expõe para mim sua visão a respeito de Heidegger enquanto come chilaquiles, e a Kelly, uma intérprete simultânea que está escrevendo um glossário de termos eróticos em espanhol. Tem o Marco, outro poeta, que cruza a fronteira a pé para comprar um par de tênis Converse em Calexico. O Marco me conta que abandonou seu “eu lírico” um ano atrás, quando sua cidade se tornou tão violenta que ele passou a ter medo de sair de casa. Ele está atrás de uma nova poesia, adequada aos dias atuais, e tem especial interesse na poesia Flarf1. O Marco dá aulas em uma faculdade. Na noite anterior à sua viagem a Mexicali ficou acordado até 1h30 corrigindo trabalhos, então decidiu se dar ao luxo de dormir até mais tarde no dia seguinte. Acabou acordando dois minutos depois do horário habitual com a explosão de uma granada, seguida por uma rajada de metralhadora. “Como uma conversa”, ele contou, “uma voz e logo depois a resposta”. Ele acrescenta que isso não era incomum.
Sou apresentada a um homem chamado Franco, um hedonista barbudo fundador da Conspiração Shandy. Toda vez que me vê, Franco diz que estou pronta para ser “shandyzada”. Tudo o que sei sobre esse processo é que envolve “sutileza” e “trevas”. Franco é o fornecedor da casa — na verdade, é mais um distribuidor, na maioria dos casos ele parece não cobrar — e muda de sala duas vezes por se incomodar com todo o movimento diante de sua porta. Ele publica uma revista (o epicentro de sua “conspiração”) em cujo cabeçalho se vê uma ilustração de um leão atacando uma zebra. Em vez de sangue, do pescoço da zebra jorra um fluido com as cores do arco-íris. Uma viagem darwinística de ácido. Me pego examinando essa arte em termos fractais sociopolíticos: como posso enxergar a guerra do narcotráfico em zebras ilustradas? É uma sensação estranha observar esse jorro tão peculiar provocado pelas mandíbulas da guerra — como um grito gutural, escancarado e pungente, um chafariz absurdo de sangue com as cores do arco-íris. Analiso tudo levando em conta a gravidade do conflito.
Para ser mais exata, analiso só o que sou capaz de entender. Muita coisa escapa à minha compreensão. Em um grupo de escritores bilíngues, meu espanhol é uma vergonha, e essa vergonha começa a ganhar a forma de uma posição embaraçosa em termos nacionais e políticos. Tenho receio de conversar sobre o atual panorama da guerra do narcotráfico porque tenho medo de dizer alguma besteira. Os americanos são conhecidos por seus equívocos no que diz respeito à compreensão dos conflitos em outros países. Então eu escuto. Aos poucos vou me interando mais. O Cartel de Sinaloa controla boa parte da Costa Oeste mexicana — onde a maioria da maconha é plantada e a cultura local considera o traficante um fora-da-lei — ao passo que o Cartel do Golfo opera na costa atlântica, no Golfo do México, traficando cocaína e imigrantes ilegais da América Central chamados de pollos, que são contrabandeados ou extorquidos.
Ler a respeito da guerra do narcotráfico é como tentar desembaraçar um fio de negativas duplas. Um cartel paga um carcereiro para liberar prisioneiros à noite para matarem membros importantes de um cartel rival. Então o cartel que foi o alvo do atentado sequestra um policial e o tortura até que ele admita o ato de corrupção. Eles gravam e divulgam a confissão. As autoridades intervêm e o carcereiro é transferido, mas os presos fazem uma rebelião exigindo sua volta. Os jornalistas que cobrem a rebelião são sequestrados pelos rivais do cartel que divulgou o vídeo do policial torturado. Eles divulgam seus próprios vídeos de outros homens torturados confessando outros atos de corrupção.
Entendeu?
Tentar compreender os pormenores é como ouvir um comentário sarcástico do pior tipo em uma língua estranha, em uma conversa na qual você não tem habilidade para se expressar. “Conversa” nesse caso significa algo diferente: uma torrente de palavras que não sou capaz de entender, uma espécie de debate entre metralhadores que eu desconheço.
Sou apresentada a outro grupo, não de escritores, mas de assassinos. El Teo luta pelo controle do Cartel de Tijuana e gosta de matar pessoas em festas porque isso torna sua mensagem mais audível. El Pozolero dissolve os corpos das vítimas de El Teo com ácido quando seus feitos e suas mensagens precisam voltar a ficar invisíveis. O chefe do tráfico mais famoso do México é El Chapo, ele comanda o Cartel de Sinaloa e atualmente ocupa o 60º lugar da lista da Forbes das pessoas mais poderosas do mundo. Isso o coloca atrás de Barack Obama (2°), Osama Bin Laden (57º) e Dalai Lama (39º), mas à frente de Oprah Winfrey (64ª) e Julian Assange (68º). O presidente do México nem aparece na lista. Em Mexicali, me pego aprendendo as estatísticas de duas economias distintas — os escritores não recebem adiantamento pelas obras, e os matadores de aluguel de Ciudad Juárez ganham 2 mil pesos por trabalho — e os contornos de duas geografias paralelas, uma que mapeia a guerra do narcotráfico e outra o panorama da produção literária. A primeira tipografia se sobrepõe como um véu tenebroso sobre a segunda. Durango, por exemplo, é onde El Chapo conheceu sua noiva adolescente, mas é também a terra natal de um poeta que usa coturnos militares e cospe quando lê seus poemas, que na maioria das vezes versam sobre seios. Sinaloa é a sede do cartel que leva seu nome, é claro, mas também é a sede do grupo de estudos sobre Heidegger de Oscar. A capital de Sinaloa, Culiacán, tem um cemitério repleto de mausoléus de dois andares dos chefes do tráfico, impecavelmente mobiliados e com ar-condicionado para o conforto de amigos e parentes enlutados. Do outro lado da cidade, longe desses palácios, fica a casa de Oscar, onde ele vive com sua gatinha Heidie. Eu imagino a família completa: um cachorro chamado Dasein e dois pássaros chamados Tiempo e Ser. Imagino um aparelho de ar-condicionado rugindo baixinho perto das cinzas de um homem. Estou tentando fundir essas duas Sinaloas, torná-las uma só.
A aula de geografia avança para o leste: Tamaulipas é uma região que ficou famosa em agosto de 2010 pelo massacre de 72 imigrantes ilegais que se recusaram a pagar o Cartel do Golfo quando solicitado. Se recusaram. Até parece. Não puderam pagar. Mas Tamaulipas é também onde mora o Marco, o poeta interessado no movimento Flarf1. Quando penso no Flarf, o que me vem à mente são poemas que desconstroem e fundem posts de blogs a respeito do petróleo iraquiano e da vida sexual do Justin Timberlake. O método de Marco pode até ser o mesmo, mas seu projeto usa material diferente e talvez um pouco menos de ironia. Ele está adaptando a linguagem do conflito em seus poemas. Ele frequenta fóruns de Internet cheios de postagens de pessoas em cativeiro em suas próprias casas. Retira frases das marcas que os cartéis deixam nos cadáveres das vítimas e recolhe as mensagens que entalham na pele dos mortos. Reordena citações e remonta as peças do quebra-cabeças do medo em seus poemas. É uma réplica com inovação: poesia Flarf sobre, para e a partir da guerra do narcotráfico. Narco-Flarf. Me pergunto como esse trabalho preserva uma parte fundamental do Flarf: o senso de humor. Me pergunto também o quanto isso é importante. A julgar pelo tanto que Marco dá risada (bastante), parece ser muito importante.
O encuentro em si é uma estranha mistura de amenidade e seriedade. As pessoas falam o tempo todo e parecem sofrer muito com a guerra do narcotráfico, mas também usam muita cocaína. Elas cheiram nas chaves das casas umas das outras, exatamente como imaginei que fariam, e eu me pego pensando sobre essas chaves e as portas que elas abrem. Quantas fechaduras as pessoas têm em casa? Mais do que tinham antes? Com que frequência vão dormir com medo?
Poucas semanas antes de vir para Mexicali, o Marco expôs seu trabalho em uma galeria chamada LACE (Los Angeles Contemporary Exhibitions). O nome da obra era SPAM. Era uma peça pendurada na parede que mostrava um poema que ele produziu a partir de fragmentos de fóruns de Internet — no caso, postagens de moradores de Comales, um barrio nos arredores de Tamaulipas que se transformou basicamente em um aglomerado de bunkers, e que servem mais de esconderijo do que de moradia. O Marco chama seu bairro de zona cero. Marco zero. Na Internet, e no traba-lho de Marco, essas vozes encontram a mobilidade da qual seus corpos já não dispõem: “No se trabaja, no hay escuela, tiendas cerradas… estamos muriendo poco a poco”. A linguagem não é “poética” porque a mensagem não nasceu como poesia. Nasceu como lamento. E agora é outra coisa. O Marco, é claro, abandonou seu eu lírico meses atrás. Seus poemas não têm mais uma única voz, mas um aglomerado de vozes de pessoas comuns que disparam essas palavras desesperadas na cadência de suas próprias mãos impotentes.
SPAM foi produzida em Tamaulipas e exibida em Los Angeles, mas é composta de materiais extraídos de uma rede imaterial (a Internet), algo impalpável, contraditório e infinito, que paira entre esses dois lugares mas não fica em lugar nenhum. A obra demonstra alguma fé na Internet, mas também parece entender como ela abstrai a experiência e a transforma em algo sem sentido ou ilegível (spam!). A obra ignora as fronteiras, mas parece falar diretamente para elas: “La pieza intentará crear diálogo más allá de las fronteras…”. A obra não é uma simples declaração, escreve Marco, mas parte de uma conversa — a mesma conversa, não posso deixar de pensar, da granada que explodiu em sua rua.
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