
Estudantes da Escola Meng Jie para Cegos em Hebei, China, 2014. Foto por Lijie Zhang.
Fotos Poulomi Basu, Tanya Habjouqa, Olga Kravets, Pete Pin, Pedro Silveira, Shehab Uddin, Lijie Zhang / Magnum Photo.
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Estamos vivendo uma transformação na indústria da mídia, atualmente isso oferece poucos recursos e oportunidades de financiamento para apoiar a documentação aprofundada de questões importantes com uma visão criativa, como acontecia nas décadas anteriores.
Em 2007, membros do coletivo Magnum Photos se reuniram para confrontar e abraçar os desafios desse novo paradigma. Nós criamos a Magnum Foundation, que oferece apoio, orientação intensiva, distribuição de direções e meios de colaboração através de vários subsídios e bolsas. Com nossos programas, estamos construindo uma rede de apoio para a comunidade de documentário global.
A melhor articulação do que a Magnum Foundation representa pode ser encontrada nestas páginas. Você vai ver o trabalho de um de nossos primeiros bolsistas, Shehab Uddin, assim como o de um dos novos participantes, Pedro Silveira. Das ruas da Índia ao Brasil, suas vozes regionais fornecem uma perspectiva interna de questões de relevância global. Tanya Habjouqa, que recebeu apoio para seu trabalho na Palestina, agora orienta jovens bolsistas de região árabe. Pete Pin expandiu seu projeto documental como bolsista alguns anos atrás para uma colaboração crescente com a diáspora cambojana e a nova geração de cambojanos-americanos. É dentro desse contexto de apoio e envolvimento que essas histórias emergem, como contrapontos marcantes às narrativas dominantes.
O legado da Magnum Photos, que foi criado por e para fotógrafos sustentarem trabalho independente e excelência artística, é um marco dentro do campo da prática documental. Enquanto os fotógrafos de hoje tomam os papéis de colecionadores e colaboradores, a Magnum Foundation busca apoiar formas emergentes de narrativa documental.
Agradecemos aos fotógrafos desta edição – e além – que estão gerando curiosidade, conscientizando sobre aqueles que passam despercebidos e nos fornecendo acesso às complexas paisagens culturais de hoje. É através dessas experiências autorais que somos exortados a manter uma visão crítica do mundo.
– SUSAN MEISELAS E EQUIPE DA MAGNUM FOUNDATION
Nos anos 80, aproximadamente 150 mil refugiados cambojanos se assentaram nos EUA, principalmente em comunidades lutando contra a pobreza e a violência urbana. A Diáspora Cambojana é um projeto em andamento que examina a experiência dos refugiados através de gerações nas comunidades cambojanas-americanas. Trinta anos depois do genocídio cambojano, as sombras do massacre ainda podem ser sentidas na diáspora nos EUA, se manifestando através de gerações em narrativas de família fragmentadas e um profundo silêncio sobre seus resultados. Muitos cambojanos que vivenciaram o genocídio mantêm o silêncio porque não sabem como falar sobre sua experiência, e também porque às vezes não falam a mesma língua que seus filhos cambojanos-americanos. O silêncio é exacerbado por um trauma intergeracional – os mais velhos sobreviveram ao genocídio e seus filhos americanos sobreviveram os perigos da violência urbana.

Bronx, Nova York, setembro de 2011. Sonny Vaahn, 25 anos, segura o documento de identidade de refugiado dos membros de sua família, recebido quando eles entraram num campo de refugiados na fronteira entre Tailândia e Camboja depois do final do genocídio no país.

Bronx, agosto de 2011. Om Savaeth, 58 anos, no quintal da casa da família Vaahn.
Em 2009, Ramzan Kadyrov anunciou orgulhosamente que “a paz tinha chegado a Chechênia”. A ascensão ao poder do líder da República Chechena começou em maio de 2004, quando Vladimir Putin o apontou como vice-primeiro-ministro da Chechênia, depois da morte do pai de Kadyrov. Aos 30 anos ele recebeu carta branca para comandar o país, desde que mantivesse os rebeldes sob controle.
Oficialmente, a Chechênia continua parte da Rússia como resultado de duas guerras, mas a constituição russa é aplicada seletivamente por aqui. O governo tortura jovens que mostram qualquer sinal de dissidência. As casas das famílias de rebeldes são queimadas como ordem direta do presidente, e ativistas pelos direitos humanos enfrentam grupos violentos que incendeiam seus escritórios e os espancam. Álcool só é vendido em hotéis cinco estrelas para estrangeiros e Kadyrov conseguiu convocar 60% da população da república para um comício “Amor para o Profeta Muhamed”.
Uma vez, quando perguntaram onde ele conseguia o dinheiro para manter seu estilo de vida nababesco e arranha-céus construídos pelos turcos, Kadyrov respondeu: “De Alá”.

Um cozinheiro de kebab nos arredores de Grozny, em frente ao restaurante onde trabalha, que foi decorado com um pôster do filme Shrek.

Estudantes da Universidade Islâmica Russa em Grozny (homens na frente, mulheres atrás), ouvem uma aula de um mulá convidado da Jordânia.

Um coro de meninas conta uma música dedicada a Akhmad Kadyrov, o pai do atual líder checheno, Ramzan Kadyrov. Ramzam declarou 10 de maio como o Dia da Lembrança na Chechênia, para comemorar a deportação e morte do pai. Ele não pôde fazer isso no dia 9 de maio, quando seu pai foi realmente morto, porque a Rússia comemora o Dia da Vitória, marcando o fim da Segunda Guerra Mundial.
Os 15 a 20 mil moradores de rua de Daca estão entre as pessoas mais vulneráveis e negligenciadas de Bangladesh. Eles têm pouquíssimos recursos para sobreviver num ambiente social, político e econômico que virtualmente os ignora. Suas principais preocupações são alimento, roupas e um lugar para dormir. Essas pessoas vivem o presente – sem passado nem futuro. Elas se envolvem em várias atividades para ganhar a vida (trabalhando como porteiros, puxadores de riquixá, empregados domésticos, trabalhadores sexuais e catadores de lixo), com suas próprias lutas e alegrias. Eles têm consciência de suas identidades como seres humanos.
Sua população tem aumentado na última década, na mesma taxa da população geral de Daca. Muitos novatos chegam depois que escapar de inundações que arruinaram seu meio de vida em áreas rurais, o que está se tornando mais frequente com as mudanças climáticas. Outros têm dívidas e são enganados por promessas de oportunidades melhores. Mas vendo o influxo de moradores de rua aqui, a mudança não traz a vida melhor que eles esperavam.

Estádio Mugda, Daca, Bangladesh, 2010. Lili Begum acorda de madrugada para se preparar para um dia coletando lixo. Ela vive embaixo do estádio com a família. Cerca de 500 pessoas se abrigam embaixo do estádio. A maioria veio de Gaibandha, uma das áreas mais pobres de Bangladesh.

Bazar Kawran, Daca, 2010. Dois garotos, Arshadul e Shumon, brincam no Bazar Kawran. Ashadul coleta papel para reciclagem. Shumon rouba para viver. Eles são bons amigos.

Estádio Mugda, 2010. Rezina e sua família voltam para Daca depois de visitar seus parentes em Gaibandha. Muitas famílias sentem que chegaram ao fundo do poço quando mudam da área rural para a cidade. Mas ainda têm fé de que vão conseguir se reerguer. A família migrou para a capital procurando trabalho muitos anos atrás. Agora Khabir puxa um riquixá e Rezina recolhe lixo para reciclar. A filha deles estuda na creche Amrao Manush para moradores de rua, mas o filho passa o dia todo sem fazer nada.
Mais de cinco milhões de escravos foram trazidos para o Brasil até 1850. Hoje, os negros representam a maioria da população do país, mas a opressão social aos descendentes de africanos é endêmica. Esse projeto busca examinar a luta do passado e do presente pelos direitos civis no Brasil, além das tensões históricas entre brancos e negros que ainda enfrentamos hoje.
A narrativa é baseada numa história oral de um quilombo de famílias africanas que chegaram a Bahia. Depois que um navio negreiro afundou na costa brasileira, os sobreviventes construíram uma comunidade longe dos campos dos donos de escravos do país. Mas no começo do século 18, exploradores portugueses acharam ouro nas proximidades e escravizaram os locais para trabalhar nas minas.
O Brasil aboliu a escravidão em 1888, mas a história dessa região é representativa da opressão social que famílias negras continuam sofrendo até hoje.

Barra do Brumado, Bahia, Brasil. O recurso mais precioso da comunidade é a água. A mesma fonte é usada para beber, cozinhar, plantar e tomar banho.

Daiana Nascimento em Barra do Brumado.
O trabalho de Habjouqa foca em questões de gênero e direitos humanos no Oriente Médio. Ela diz que tenta abordar seus temas com sensibilidade, mas também com um olhar para o absurdo. Essas fotos, parte da série Occupied Pleasures, mostra o ridículo do cotidiano que os 48 anos de ocupação na Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental criaram – e a beleza apesar disso, com os palestinos se recusando a deixar o sofrimento definir sua existência.
Numa Gaza sitiada, onde um passeio de barco de cinco minutos é a epítome da liberdade e um fundo de estúdio serve como fantasia de viagem, as fotos mostram um humor onde geralmente vemos tristeza e que, na Palestina, os oprimidos nunca param de sonhar com uma vida de possibilidades maiores. Um criativo palestino de Gaza se recusou a ser privado de seu direito ao amor e trouxe a noiva jordaniana do Egito através de um túnel de contrabando. Ele disse: “Foi como um filme de Bollywood, ela tremendo, suja de terra… eu corri até ela e a cobri de beijos”. Habjouqa diz que esse momento ficou em sua cabeça e alimentou seu desejo de capturar essas pequenas pepitas de alegria e luz que os palestinos às vezes encontram, literalmente, no fim do túnel.

Depois de pegar trânsito num posto de controle em Qalandia, um jovem fuma um cigarro no carro na última noite de Ramadã. Ele estava levando uma ovelha para casa para a celebração do Eid.

Hayat Abu R’maes, 25 anos, e Nabila Albo, 39, levam alunas para uma caminhada e aula de ioga em Zatara, nos arredores de Belém. Às vezes elas vão para pontos turísticos (como as ruínas romanas próximas), onde os assentados tentam intimidar os palestinos. Elas chamam isso de “resistência interna”.

A equipe de dardo da Universidade Al-Quds no último treino antes das férias de verão em Abu Dis, Cisjordânia, perto do muro de separação com Israel.

Uma garota no parque de diversões de Banana Land, Jericó, tira um retrato num estúdio. Para a maioria da população da Cisjordânia, viagens são caras e estressantes através da única saída disponível – a Ponte Allenby, controlada por Israel. Para muitos, estúdios como esse é o mais perto de uma aventura tropical que eles podem experimentar.
“É escuro, não há lux. Tenho medo que alguém possa aparecer.” Radha Bishwa Karma tem apenas 16 anos, mas uma vez por mês fica exilada numa cabana improvisada no meio da floresta no oeste do Nepal. Seu único crime é que ela está menstruando. Karma é uma intocável, uma agente “impura” poluidora, que deve ser temida e evitada porque, durante a menstruação, pode trazer má sorte e calamidade para sua comunidade.
O Chhaupadi, uma tradição supersticiosa ligada ao hinduísmo, considera as mulheres menstruadas impuras. O Nepal proibiu a prática em 2005, mas a decisão teve pouco efeito nos distritos remotos de Surkhet e Achham, onde isso se originou.
O rito de exílio e as práticas associadas geralmente são vistos como benignos, e os adeptos seguem isso cegamente, sem saber que estão preservando uma divisão de gênero de séculos atrás. Isso pode ser visto no festival Rishi Panchami, que acontece em Catmandu e lembra uma mulher que reincarnou como prostituta porque não se submeteu às restrições menstruais. Ela deve expiar seus pecados lavando o corpo com esterco e urina de vaca 365 vezes. Mulheres supostamente mais educadas praticam o ritual, considerando isso uma tradição inofensiva, divorciada de um contexto mais amplo de opressão de gênero. Na verdade, isso perpetua a visão das mulheres como impuras e legitima a continuação da prática do Chhaupadi, apesar disso ser contra a lei.
Para garotas como Karma, o Chhaupadi é prejudicial e perigoso. “As deusas são mulheres. Não são?”, ela disse. “Elas sangram, mas ainda podem ficar no tempo. Por que nós não podemos?”

Mulheres realizam o ritual de lavar os pecados cometidos durante a menstruação no festival Rishi Panchami, Catmandu, Nepal.

Devi Ram Dhamala, um curandeiro de Surkhet, Nepal, trata uma de suas pacientes. Curandeiros tradicionais podem usar abuso físico e verbal para curar jovens que ficam doentes durante a menstruação, acreditando que elas estão possuídas por espíritos.

Radha Bishwa Karma, 16 anos, em Surkhet.

Karma vai para o exílio em Surkhet durante sua menstruação: “Meus pais trabalham na Índia. Minha avó não me deixa ficar em casa. Ela fica brava se volto e me deixa sem comer. Às vezes eu queria que minha mãe estivesse aqui para me levar para casa ou me dar remédio, principalmente quando tenho dor”.
Tradução: Marina Schnoor