Se você perdeu a primeira exposição do fotógrafo francês Guy Bourdin (1928-1991) no Brasil, não precisa chorar. A gente foi, e até levou um fera pra te explicar o que pegava em “Uma Mensagem pra Você”, que ficou em cartaz no Mube, em São Paulo, até domingo agora. Vamos lá:
De um lado, um ícone da fotografia do século XX que, inspirado pela liberdade de expressão do surrealismo nos anos 50, revolucionou as imagens de moda com seu trabalho cheio de sexo, cores, ângulos inusitados e poses quase impossíveis. Do outro, o fotógrafo paraibano Ronaldo Sabino, 46 anos, especialista em fotos 3×4 e dono de uma loja de fotos para documentos no centro de São Paulo.
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No que daria um encontro de um operário da fotografia com as obras de um transgressor da linguagem visual? Era exatamente o que a gente queria descobrir, por isso acompanhamos Ronaldo, que soltou a imaginação, desabafou, tentou falar difícil, e deu o seu recado sobre as fotos exóticas de Bourdin. Foi muito mais legal ouvir suas opiniões do que ler esses jornalistas metidos a críticos de arte que copiaram o release na cara dura enquanto a mostra estava em cartaz.
Grass Field
“O que o fotógrafo quis expressar é uma foto onde as pessoas estão na cidade grande, saem do tumulto do dia-a-dia e vão em busca da natureza, do descanso, da coisa de se encontrar mesmo. Porque todos nós sonhamos com o verde, um final de semana tranquilo. O modo em que a mulher está vestida, com esse vestido chique, se deparando com o verde, com a vida, a liberdade. Sem carro, sem asfalto, sem barulho, sem buzina, sem polícia, corpo de bombeiro, sem nada. É um contraste. O que me chamou a atenção foi a forma como a mulher está na foto, deitada, abraçando a vida, o natural, o verde. Verde é vida.”
Two rocks
“Uma forma de liberdade. Como as pessoas sonhariam, como poderiam estar. Livre, com o corpo `a vontade, mesmo diante do asfalto. Mas os trilhos do trem é como se estivessem viajando. Sem ninguém pra criticar, pra olhar. No caso da mulher, ela está seminua, mas se sente bem. É uma fotografia muito bem bolada. A mulher me parece sem medo, sem pudor, sem vergonha. Ela está a vontade. Sonhando o mundo como ela gostaria que fosse. Essa é a forma que eu vejo.”
Limousine
“A cena de um crime. Ou melhor, quando você vê um calçado feminino, o desenho de uma pessoa conforme foi assassinada, um carro parado adiante, subentende talvez um crime de amor. Realmente uma cena de uma fotografia chocante. Talvez não seja um crime de amor, mas há vestígios de sangue, o óculos como está. A polícia técnica certamente fez esse desenho. Pode ter sido um crime de ciúmes, ou coisa assim. O cara deve ter assassinado ela, ou houve uma briga, alguma coisa dessas. Não é verdade?”
Girls in bed
“Representa estudantes, jovens, meninas de colegial quando se encontram no final de semana para falar de namorado, de besteiras, sei lá. São crianças que passam por adolescentes ou adultas. Parece algo artificial. Mas o que ele quis passar é isso, que umas figuras sejam bonecas. E o que ele quis falar na fotografia é sobre as jovens, adolescentes rebeldes, que ficam nuas ou seminuas pra falar a respeito de namorado, coisa assim. Foram passear na casa de alguém, da vó, de algum parente. Eu diria que não havia muito espaço nessa casa e todas foram dormir juntas. Essa é apenas uma ideia que eu tenho do que vejo no cotidiano, muitos jovens que viajam e ficam todos juntos.”
White Table
“No momento que a menina está com as pernas bem afastadas uma da outra, esse desenho da mesa, ou criado mudo, simboliza alguma coisa. A forma das pernas passa uma sensação tranquila, aquela coisa de erotismo mesmo, uma coisa bonita. Não aquela coisa pornográfica, ele insinuou algo bem bonito. O desenho da flor no meio da mesa simboliza a parte mais íntima da mulher, o fotógrafo fez esse corte para caracterizar ainda mais essa parte. Um bom trabalho!”
Blue Bathroom
“Dá pra entender que a mulher está no banheiro. Marcou um horário com ele e certamente ele não chegou. Tá chegando de madrugada, como você vê o paletó desalinhado, e ela está brava. Ela estava no banho e ele chegou pra conversar, mas ela não quis saber. Me chamou a atenção o corpo da mulher, a forma como ela está se expressando. Isso é muito natural quando uma pessoa está irritada, principalmente a mulher, ela não procura se esconder em nada. Do jeito que ela estava, se defendeu, alguma coisa ela falou. Eu percebo dessa forma.”
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