Poucas coisas nessa vida são tão lindas quanto a cumplicidade de chorar junto a camelôs compartilhando no horizonte o Brás no auge do seu alvorecer. Tive esse privilégio ao longo da última madrugada, quando me encontrei com os 300 ambulantes que se puseram em procissão contra o fato de estarem proibidos — ordens dum tal “chupa-rola” — de trabalhar naquele lugar que já ocupavam há anos (era a segunda manifestação consecutiva em menos de um dia). Daí que por nove horas pudemos consolidar elos afetivos tão intensos que os carregarei para sempre em minhas lembranças, não incomodando mais a falta de sono, se assado e sem pomada. Nem importando o fato de eu ser um “filho da puta” por trabalhar para a imprensa. Críticas construtivas, quando de amigos, são sempre bem-vindas.
Tudo começou em uma via de apelo místico. Era meia-noite quando me sentei na calçada da rua Oriente à espera da manifestação marcada para a meia-noite por ali. Lá já se reuniam algumas razoáveis sombras informais e policiais somadas a alguns pouco iluminados da televisão — essas últimas dentro de seus carros cheios de logotipos. A Record, por alguma razão, é a mais odiada, enquanto o Datena é de certa forma respeitado. Mas como ensina a boa etiqueta contestatória, impressiona-se é no atraso. Então até o grosso dos indignados dobrar a esquina e se juntar ao resto, o que aconteceu uma hora depois, me entretive em saber como um amigo camelô recém-feito contornaria aquele prejuízo revendendo ingressos para o show do Exaltasamba acrescidos de uma taxa cambista.
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Depois conheci foi o Rogério, 42, que seguia à frente de mais 30 gritando “Queremos trabalhar! Queremos trabalhar”. Acha ele aí na foto: “Todo mundo me conhece por Corinthians”. Impossível não se dar bem quando com tanto em comum, o que fez desnecessária qualquer frescura: Para onde ia? Podia acompanhá-lo? Fale-me mais sobre você, sobre o que faz da vida. Sobre a revolta! “Sou camelô aqui, um dos mais antigos. Faz seis anos que estou aqui, e sou bem conhecido na rua [o que, depois me explicou, fez dele um dos três ‘líderes’ daquele movimento sem líderes]. A ideia é seguir até o final da rua, seguir para a porta da Feirinha e depois ocupar a avenida do Estado. Hoje nenhuma loja abre”, contou. “Eu não sei o que o Kassab tem contra os camelôs, a gente só quer trabalhar. Se eu não trabalhar aqui, vou trabalhar onde? Tô velho!”.
Seguimos em frente.

Putz, é verdade. Óbvio que tinha um monte de corintianos (e isso é muito foda pra quem já superou a idiotice), mas o Rogério é o da direita. O da esquerda é o segundo líder, Jeferson, outro ali pelo respeito que tem na região. Esse encontro se deu logo ao virar na rua Ministro Andrade, quando encontraram com o Major Steve Carell (oficialmente batizado pelo pai como Pignolori) pra acertar os rumos do protesto. “A gente foi autorizado [pelo subprefeito da Mooca, segundo o Jeferson] a ocupar a avenida do Estado por meia hora.” “Quinze minutos”, replicou o comandante da operação naquele turno que iria até as 9h. Sob as ordens dele estava um efetivo de 400 policiais e (pelo que contei) vinte viaturas, fora a Rota.
E aí todo mundo prometeu que estava lá em missão de paz e segurança (inclusive) para os manifestantes e todos os envolvidos, só que com ressalvas. “Vamos fazer isso [de ir até a avenida do Estado] pra chamar a atenção da mídia. Só queremos ter nosso direito de trabalhar. Não vai ter desordem, mas por casos isolados eu não me responsabilizo. Os policiais são doutrinados a obedecer o comando. A gente não consegue controlar todo mundo”, continuou o Jeferson. “Tudo bem, vamos respeitar a reivindicação de vocês. Mas aqui é todo mundo maior de idade e vacinado. Se alguém quiser se aventurar… A responsabilidade da segurança é da minha equipe, e eu não garanto [que qualquer medida de retomada da ordem] vai ser sobre apenas um indivíduo.” “A gente só veio preparado pra trabalhar” — Jeff. “E nós estamos trabalhando” — major.
Fiquei muito seguro de que nada ia acontecer.

Juro que também tinha gente com blusa da torcida Independente e do Palmeiras. Mas foda-se, o que importa é que a galera voltou a andar, pegou a rua São Caetano e foi direto pra esquina com a avenida do Estado. Sentaram e deitaram por lá e ficaram ali por uma meia hora.


Como numa sala de estar, fui conhecendo mais gente. “Tenho 32 anos e dois filhos pra criar, por isso estou aqui”, me disse a Daniela — que não é essa da foto acima (ela não quis aparecer). Ela estava presente no levante do dia anterior, e desde muito marca presença trabalhando na região. “Simplesmente apareceram aqui e resolveram que a gente deveria sair. Mas ninguém nunca perguntou ou ajudou a gente a se regularizar. Duvido que uma pessoa aqui não queira se regularizar.” “Tem que parar com essa ideia de que camelô é bandido, que só vende coisa ilegal. A maioria das pessoas aqui até emitem nota”, foi o que me disse outro presente que não quis se identificar.

Só que aí o tempo permitido acabou e eles tiveram que vazar. Rolou tudo tranquilo — saíram de lá direto pra frente da entrada principal da Feirinha da Madrugada.

Essa era a situação da porta principal naquele instante. Pra segurança dos “que são autorizados a trabalhar”, manifestantes e manutenção da ordem pública, sempre. É que, pra recapitular, o cerne da rebeldia dos camelôs se resume à recente recolha (violenta, pelo que dizem e parecem mostrar as fotos do que aconteceu na madrugada de segunda pra terça) e proibição, pela prefeitura, de que eles ocupassem as calçadas ao redor do terreno principal da feira para montarem suas banquinhas. Apesar de ganharem seu pão há anos com essa prática, ficou decidido que apenas os que possuíssem licenças fornecidas pelo município é que poderiam exercer o comércio por ali. E os tais autorizados têm que alugar boxes no interior dessas portas azuis.
E aí comecei a questionar sobre essas tais autorizações e me desafiaram a investigar a seguinte história, verdade entre dez dos dez camelôs com os que bati a teoria: dizem que essa operação de “limpeza” naquela área está sendo levada a cabo pra que um dos centros comerciais da região seja mais lotado e valorizado. O motivo disso seria o de “familiares do Kassab serem os donos do lugar”. Reafirmo: até então não passa de hipótese. Era a vez deles de se expressarem.

Voltando: chuta lá quem faz parte da maioria dos permitidos? Chineses! Eram mais ou menos umas 2h10 quando eles começaram a aparecer pra trabalhar. Rolou uma indignação. “Pede pra revistar as sacolas deles pra ver se é tudo com nota fiscal. Pede pra ver se tem nota fiscal!”, “Ah, ah, ah. Chinês irregular!” e “Fala que você come macalão com o pau!” eram os hits, inclusive entoados por bolivianos. Nem os asiáticos nem os andinos quiseram dar entrevista, por “não saberem muito bem como falar português”. Também sobrou pra polícia: “Ão, ão, ão! Polícia é pra ladrão.” Ficaram nessa por mais um tempo. Como não ia passar mais muito disso, cogitaram voltar pra avenida do Estado.
Vai deixar, major?

“Não! Já ocuparam. Não vão ocupar mais.”

Restou voltar pra rua Oriente, então. 3h da manhã. Aí montaram uma assembleia pra que todos ouvissem tudo. “Agora vamos descer a Rodrigues, que tem gente lá trabalhando. Se a gente não trabalha, ninguém trabalha.” Ovação. “Não tem ninguém trabalhando lá, não. Tô com o cara no rádio, ele tá lá embaixo e dizendo que não tem não.” Aproveitando, reforçaram que o protesto deveria ser feito sem vandalismo, que eles unidos jamais seriam vencidos e que não desistiriam tão cedo. Palmas.
Mesmo. “Não vamos sair daqui até tudo ser resolvido. Não vamos desistir! Aqui é camelô, caralho! Não é bandido não! É trabalhador!”, mandou aos ventos o Leandro Dantas. Ah, mal aí a falta de educação. Esse foi meu já sei lá qual amigo. Era o terceiro “porta voz” da militância, também presidente do Sindicato Independente dos Camelôs do Estado de São Paulo — que não tem um site na internet, nem um telefone fixo, “põe aí [disse ele] com uns 7 mil filiados” mas que [disse ele 2] não cobra contribuição sindical. Um cargo, vai viajando, de responsa pra caralho.
Terminaram às 3h30. Rumo: avenida do Estado. E dessa vez foram direto.

Eles também. A Rota. “Chega dessa merda! Agora o primeiro aqui a pisar na rua vai preso, caralho!”, se fez claro um dos Tobias de Aguiar. Murmúrio na multidão. “O que você falou aí, seu bosta?” “Q. Nã. Tratado.Bdido”, responderam. “A gente sabe que não tem bandido aqui”, rebateu. “Mas estamos sendo tratados como bandidos!” “Tá nada! Não tá NÃO! Você sabe como a Rota trata bandido, mano. VOCÊ SABE COMO A ROTA TRATA BANDIDO!” Evacuaram depois de quinze minutos. Mas também não ia acontecer nada de mais.
Voltamos todos pra frente da Feirinha. Até por volta das 4h30, nada de muito mais radical aconteceu. Ótimo, que dava tempo de tomar um cafezinho a R$ 0,50 de uma mulher que também diz ir praquela área todo dia, por volta das 3h, pra sair às 6h e engatar em outro trabalho, numa loja de roupas. “Tenho que tirar o meu sustento, né? E hoje vim ajudar aqui, que o que o prefeito tá fazendo com esse pessoal é muita sacanagem. Tira eles daqui e vai colocar onde?”

Eram 30 litros de café. Todos com açúcar.
4h30 e pouquinho:

Isso é uma vidraça da rua Henrique Dias quebrada. Só se ouviu o barulho, ninguém sabe e ninguém viu nada.

A polícia foi ver o que era, ficou um tempo num esquema meio CSI tentando entender o que aconteceu. “Não dá pra dizer com certeza. As bordas da janela estão meio desgastadas, pode ter soltado a janela. Ou podem mesmo ter arremessado alguma coisa”, me disse o major. “Por favor, mande alguém da base”, disse ele no rádio. Mer-da.

Mas o Lula (era como o pessoal chamava ele, que o nome de verdade é Carlos), também ambulante do Brás, tava lá pra descontrair. “Deve ter sido um rato! Deve estar cheio de rato lá. Os ratos que os chineses comem!” Risos! Dei o fora pra ir encontrar o resto da galera em outra rua. Eles tinham voltado a andar, e eu estava curtindo eles, e eles me curtindo. Colei com eles na esquina da Barão de Ladário com a Henrique Dias.
“Aê seu cuzão, tá tirando foto de quê?”, mandou um dos camelôs pro Matheus (o fotógrafo das fotografias que você vê aqui). Daí que por um motivo óbvio vão faltar aqui as imagens dessa hora. “Vaza, filho da puta. Vaza! Vocês da imprensa tão tudo querendo fuder a gente, seus filhos da puta!” Foi o tempo de tentar explicar que não éramos da Globo e “Vai embora, cuzão. Segue a rua, segue pela outra rua!”. Até que um intercedeu: “Calma, calma. Eles são gente boa. Mas aí, vaza pela outra rua, que a galera tá mais eufórica e agora as coisas vão começar a ficar tensas”. E às 5h50, último horário que consegui anotar, as coisas ficaram tensas.
Em uma ponta da Ministro Andrade estavam os policiais. Do outro lado, os manifestantes. Na transversal São Caetano, o Choque. “Filhos da puta! Coxinha!” Até que explodiu a primeira bomba (depois fui perguntar pro major o motivo, e ele disse que ordenou aquilo depois de seus homens serem alvejados com uma garrafa d’água). Bom, daí pra frente:




Adivinha? Avenida do Estado.

Fecharam o trânsito, tacaram fogo (isso quer dizer que tinha gente com gasolina, apesar de essa fogueira ter sido apagada rapidamente e depois ter sido vetado, com intromissão do Leandro, o incêndio de outros objetos — pelo menos naquela rua).

Aí já sabe, né? Por um lado o choque.
Do outro a montada.

E por cima e direto as balas de borracha e granadas carpideiras.

Corre, diabo. Daí, seguindo os rastros.


Eles de fato começaram a persuadir com tapas, pontapés e até pedradas os lojistas pra que mantivessem suas lojas fechadas.

E a argumentação, pra quem não quisesse obedecer, de democracia só tinha a maioria.

Essa menina saiu de um ônibus apedrejado por um dos rebeldes mais enervados.

Enfim, não falei que foi incrível? E antes que alguém venha me encher o saco, já adianto: como amigo, é óbvio que fui perguntar o motivo daquele vandalismo. Primeiro pro major, que disse ter sido procurado pelos “três que se apresentaram líderes” do movimento logo no início da manhã pra ser avisado de que “alguns manifestantes estavam fugindo do controle. Então falei: se vocês perderam o controle, então agora o controle é meu” — vale ressaltar que logo depois o próprio disse nunca ter perdido o controle da movimentação. De acordo com ele, o ocorrido não passou de uma “quebra de ordem” controlada “sem confronto” (que não houve contato físico entre policiais e camelôs).
Depois, pra confirmar, fui perguntar para o Leandro e o Rogério se aquilo era verdade. Os dois disseram que procedia. “Alguns fugiram do controle mesmo. Infelizmente, acontece. Como vou controlar um pai de família que não tem prato na mesa, que não pode levar comida pra família?” OK, e, até eu ir embora, ninguém tinha sido detido. Mas e a mobilização de hoje teve sucesso? “Ainda não conseguimos nada”, respondeu o Corinthians. “Enquanto a gente não conseguir o que quer, que é poder voltar a trabalhar aqui, a gente não conseguiu nada. Mas vamos ficar aqui até conseguirmos.” Ao que, diz o comandante da operação, “a polícia vai continuar aqui até precisar”.
E como se não bastasse os ânimos estarem mais exaltados graças ao cerceamento das atividades dos ambulantes há dois meses do Natal, quando quase todos “já investiram em estoque que, com os dias parados, não podem têm que pagar o fornecedor mas sem dinheiro entrando”, alguns já anunciam que se nada for resolvido até o sábado o problema vai ficar ainda mais sério. Isso foi dito, inclusive, na assembleia: “É o nosso dia de maior movimento, de mais vendas. Então nem quero ver o que vai acontecer. É uma tragédia anunciada”. Pelo visto palavra de camelô é compromisso.
Texto: Bruno B. Soraggi
Fotos: Matheus Chiaratti
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