Endless Endings
Nothings 66
7/10
Quantas vezes já encontrámos alguém a dizer que não se importaria de viver eternamente nos 30 segundos de uma canção favorita? Muitas, certamente. É um desejo exagerado, como é óbvio, mas expressa bem uma ideia básica acerca de como funcionam os sentidos e os seus afectos: os ouvidos adoram aninhar-se na repetição de um bloco sonoro como se os protegesse de alguma coisa. Na verdade, até protege. Basta, por exemplo, reparar como os monges repetem exaustivamente as mesmas orações à procura de que isso os livre de males e tentações.
Portanto, o loop ou a perpetuação do som representam também recursos de protecção. Até aí estamos entendidos. Tentar depois descrever a música de moshimoss, incindindo no que tem de mais “protectora”, acaba por ser um exercício quase impossível de cumprir sem fazer referência aos Sigur Rós. Aliás, era mais fácil escrever este texto sem utilizar por uma só vez a letra “T” do que fazê-lo sem mencionar a tal banda islandesa dos rapazinhos envergonhados.
Toda a paisagem musical de Endless Endings, o segundo disco de moshimoss, tem um cheirinho a Sigur Rós que não dá mesmo para contornar: seja naquela estética da cassete a rebobinar como se fosse o tempo a andar para trás, nas vozes em desaparecimento gradual, ou na prevalência dos pequenos instrumentos de metal enquanto resistem a uma tempestade de neve (simulada, é claro). Parece-nos que moshimoss nem sequer disfarça muito a sua fixação e convidou para este disco algumas vozes dos Rokkurro, que nem por acaso são islandeses. Ou seja, para quem alguma vez disse que não importava de viver em certa parte do cancioneiro dos Sigur Rós, este Endless Endings é uma paragem altamente recomendável. Os outros podem ficar a comer pipocas.
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(Photo by Frank Micelotta/Getty Images) -

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