Música

Conversamos com Rhys Hughes, a Mente por Trás da Radio 1 & 1Xtra da BBC

Há algumas semanas, nós fomos convidados para ir à nova central de difusão da BBC para falar com Rhys Hughes, o diretor de programação da Radio 1 & 1Xtra, sobre como vão as coisas na organização. Elegantemente vestido, de fala tranquila e eterno fã do punk rock dos anos 80, Rhys subiu nos quadros da BBC e agora é o responsável por muitas das entidades mais visíveis da estação – a Essential Mix, os programas de rádio e a filial da estação em Ibiza, tudo opera sob sua supervisão. Sentado em uma sala de imprensa bem iluminada, Rhys explicou como uma variedade de fatores se juntaram para dar forma à Radio 1 & 1Xtra que nós conhecemos hoje em dia.

No que se refere a fazer os programas acontecerem, as responsabilidades recaem sobre um time bem menor e menos centralizado do que você pode imaginar. Uma equipe de apenas duas pessoas trabalha no mínimo em três programas por semana, juntamente com os respectivos apresentadores. “É um esforço colaborativo”, Rhys conta. “Não tem aqui nenhum DJ superstar em um pedestal e nós o servindo. Tem que ser um processo de duas vias. Eu acho que o que a gente realmente encoraja aqui é um sentimento de família onde todo mundo ajuda todo mundo”. Rhys credita esta filosofia como a chave da eficiência da rádio.

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Um programa estava sendo gravado ao vivo quando nós entramos.

Os programas passam do conceito para as ondas do rádio através de um desses dois esquemas: ou uma produtora independente, como a Diplo & Friends mix, propõe ideias à BBC ou o programa é concebido internamente. Rhys entra no modo história para explicar as origens de um de seus favoritos entre os programas concebidos internamente.

O Annie Mac Show é um bom exemplo do quão estranhamente as coisas podem fluir às vezes. Annie teve o seu primeiro contato com a BBC durante uma experiência de estágio de duas semanas no programa do Zane Lowe, quando Rhys era o produtor executivo. Depois de terminado o contrato e colocada em seu currículo a experiência de rádio, não demorou muito até que ela voltasse como assistente do Zane Lowe. Não querendo que a sua ambição de ter seu próprio programa passasse despercebida, ela constantemente lembrava Rhys sobre isso, até que ela finalmente conseguiu seu programa piloto. Ao lembrar daquele primeiro programa a voz de Rhys se enche de orgulho: “Nós colocamos ela no estúdio e aquele sotaque de Dublin, leve e cadenciado, realmente nos conquistou. Ela então aprendeu sozinha a discotecar e nós acabamos dando a ela um programa na quinta à noite”. Rhys se detém antes que possa dar muito crédito a si mesmo. “A partir daí eu não reivindico nada para mim”, ele explica, “a Annie se tornou a maior DJ do mundo por seus próprios méritos”.

A decisão de colocar uma mulher em um papel de tamanho destaque foi uma escolha deliberada de Rhys e da BBC. “Eu sinto há muito tempo que as DJs mulheres têm sido muito sub-representadas na dance music”, ele explica, “não me lembro em que revista eu vi um top 100 DJs, mas havia só três mulheres lá, o que eu acho ridículo. Desde a Maya Jane Coles, até a Magda ou a Nina Kraviz, há muitas que merecem estar lá”. Os quadros da Radio 1 & 1Xtra desde então passaram a incluir várias personalidades de destaque como B.Traits, Hannah Wants e Heidi, para citar só algumas.


Rhys admite que alguns equipamentos da estação são menos high tech que outros.

Artistas de house melódico como Duke Dumont podem ser os favoritos dele no momento, mas Rhys defende vigorosamente a diversidade da estação contra os críticos que afirmam que ela é muito dedicada à house music. “Eu acho que o nosso desafio é nos manter sempre distintos”, ele me conta. Quando você realmente tira um tempo para checar os vários programas que estão na grade, as palavras dele de fato parecem mais críveis do que a fama que a Radio 1 carrega normalmente. Rhys ri quando eu pergunto como eles se mantém atualizados nas tendências musicais atuais. “Se eu contasse isso estaria revelando segredos demais”, ele diz. O que ele pode revelar, porém, é que muitos membros da equipe, tanto os internos quanto as equipes de produção independentes, estão constantemente acompanhando o que acontece nos clubes através do país, em busca do próximo som ou artista a ser exibido na rádio.

Embora esse seja um assunto de disputa em muitos círculos underground do Reino Unido, Rhys defende o apoio da sua estação ao EDM. Considerando os programas de seus residentes mais ecléticos, ele me conta que os Dance Anthems de Danny Howard e vários artistas de renome do house progressivo continuam sendo importantes para a estação, para que ela reflita o estado atual da música. De fato, com Tiësto e Martin Garrix aparecendo no 1 Big Weekend, fica difícil negar que o EDM está começando a permear a indústria musical britânica.

“Há uma certa ironia porque eu me lembro de estar em Miami para o WMC no início dos anos 2000, quando o garage britânico e a house eram a bola da vez, e boa parte do público americano era resistente a esses estilos. Aí quando eu vejo 150 mil pessoas em uma pista de corrida nos arredores de Las Vegas, enlouquecendo, dançando com a house music… a ironia ainda não acabou pra mim”, Rhys brinca.

A influência do EDM mainstream e dos britânicos bêbados de férias vindos das Midlands pouco abalaram o apoio da BBC a Ibiza – a rádio completa agora o seu vigésimo ano na ilha. Veterano de 30 anos frequentando muitos dos clubes de lá, Rhys ainda descreve a ilha como um lugar mágico, com muitas casas, como o DC10, que atendem ao mais radical dos ouvintes de nicho underground.


Um membro da equipe prepara o Live Lounge para mais uma performance.

Apesar da ampla e positiva recepção entre o público jovem, as duas estações sob o comando de Rhys e do diretor Ben Cooper não estão livres de críticas por parte de outras figuras de dentro da BBC. Esse ano mesmo, o colega de emissora Jeremy Paxman questionou publicamente a existência das estações após ouvir uma música desagradável sendo tocada em um dos elevadores do prédio. A resposta de Ben Cooper foi: “Use as escadas”. Rhys fala sobre o incidente com um sorriso no rosto. “Basicamente todas as estações de rádio da BBC são tocadas nos elevadores e eu acho que a pessoa em questão formou essa opinião particular depois de ouvir algum som de hardcore grime que por acaso estava tocando”, ele conta. “Não vamos nos preocupar demais com o que um homem de 63 anos acha do UK grime”.

Durante os últimos 5 anos, o ambiente de competição mudou dramaticamente para a Radio 1. Enquanto antes eles disputavam cabeça a cabeça com as school radios, a Triple J e a Hot 97, agora Rhys admite que eles estão disputando com algo menos claro. “Qualquer coisa que tome o tempo dos jovens”, ele explica. “Esse é o ambiente caótico de mídia no qual nós estamos agora, e nós temos que lutar bravamente para atrair a atenção dos jovens”. Com canais de YouTube como Majestic Casual, Mr. Suicidesheep e The Sound You Need crescendo cada vez mais, fica difícil discordar disso.

Flutuando em torno da marca de dois milhões de seguidores em todos os canais de mídias sociais, fica claro que eles não estão derrotados na luta pela atenção dos espectadores. Além disso eles ainda têm algumas ferramentas novas a caminho: Além de ativar o uso do iPlayer para seus programas, os futuros ouvintes também terão acesso ao BBC Playlister nos próximos meses. Construído em conjunto com várias outras empresas de música, a funcionalidade permitirá a qualquer um ouvir o, digamos, Hottest Record of the Day do Zane Lowe, e adicioná-lo à sua playlist do Spotify.

Alvo constante de pedidos de retirada do ar por parte da BBC, o SoundCloud é outro serviço de música que está sempre na cabeça de Rhys. Embora haja um clima ruim, causado por envios de intimações de retirada do ar a ouvintes que publicam gravações do Essential Mix, apenas para tê-las publicadas novamente alguns dias depois, a equipe se mantém esperançosa de que o serviço logo encontrará o equilíbrio correto entre os interesses dos usuários e os dos detentores de direitos autorais.


Uma multidão de funcionários pode ser vista através das janelas do estúdio.

Como qualquer grande empresa, a Radio 1 & 1Xtra se esforçará sempre para manter o seu lugar no topo. E face a um ambiente musical, cultural e tecnológico que evolui rapidamente, nunca foi tão difícil se manter relevante. Mas esse é um desafio do qual Rhys Hughes e as incríveis equipes de ambas as estações estão plenamente conscientes e para o qual estão melhor equipadas do que nunca.

Ziad Ramley está no Twitter: @ZiadRamley

Tradução: Stan Molina

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