Qualquer pessoa que já tenha visto o Jean-Paul Belmondo imitando o Humphrey Bogart em Acossado, de Jean-Luc Godard, sabe que os franceses têm uma quedinha pela cultura norte-americana. Os eletropunks parisienses Cheveu não fogem a essa regra, mas a banda prefere o lado kitsch ao intelectualizado. Desde que se juntaram no verão de 2003, o trio canaliza coisas mundanas para obter resultados charmosamente surreais. A faixa “Charlie Sheen”, do segundo álbum do Cheveu, 1000, de 2010, começa cantadinha e chega num frenesio, com direito à pausa onde o Lemoine pergunta: “O que posso fazer por você, Charlie? Quer algo pra acompanhar suas batatas fritas?”. Numa linha similar, o pseudo-cover de “Ice Ice Baby” da banda troca a cadência suave do Vanilla Ice por um abandono dance-rock empolgante.
Em casa, na França, o Cheveu tem status de estrela: já impressionou a plateia do festival Rock en Seine em 2009, além de dividir palcos regularmente num esquema faça-você-mesmo com seus colegas do avant-rock Crack Und Ultra Eczema. A banda achou um segundo lar em solo norte-americano, aparecendo no ilustre Gonerfest de Memphis em 2006 e fazendo turnê com grupos mais garage como o Black Lips, Tyyek e o King Khan. O Cheveu talvez não soe como a maioria desses grupos, mas qualquer fã de punk pode apreciar a presença de palco insana do trio, os berros rasgados do alto e musculoso Lemoine, além dos riffs imortais de três acordes do Nicolas, que poderia ser o irmão gêmeo do Booger, do filme A Vingança dos Nerds.
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Como todos os grandes artistas outsiders, os membros do Cheveu parecem não perceber quão bizarros eles são. O Lemoine citou o ABBA como influência em entrevistas, e vídeos da turnês da banda mostram eles curtindo G N’ R e AC/DC. Você poderia cair nessa armadilha, mas é só escutar uma faixa como “Happiness”, de 2008, na qual Lemoine recita o monólogo pervertido que o Philip Seymour Hoffman declama no filme homônimo de Todd Solondz (em português, “Felicidade”) e pronto. Como no caso do Cheveu, dá para inferir que o Godard nunca imaginaria as relações franco-americanas dando nisso.
– Palavras por Hank Shteamer.
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