A Vila Turística Submersa

Não acredito em fantasmas, mas se eles existissem, morariam em Villa Epecuen. O lugar surgiu em 1920 como uma cidade turística na encosta de um lago de sal algumas centenas de quilômetros do sul de Buenos Aires. Depois de várias décadas entretendo turistas da capital argentina, em 1985 um rompimento numa represa enterrou a Villa Epecuen – que naquela época era moradia de aproximadamente 5.000 pessoas – debaixo d’água.

Uns anos atrás, no entanto, algo no clima mudou, e a cidade começou a reemergir. Depois de descobrir lugar num documentário, decidi dar uma olhada. Levei minha câmera e acabei ficando em um antigo matadouro que passou os últimos 25 anos debaixo d’água. O prédio, como qualquer outra coisa na Villa Epecuen, tinha cheiro de mar.

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Durante a noite havia tudo quanto é barulho esquisito, porque o meu matadouro abriga hoje milhares de ninhos de pombos. Era desorientador escutar a água do lago batendo contra a trilha, que não era muito longe de onde estávamos dormindo. A estradinha de macadame ao lado de fora desaparecia no mar.

O lugar estava cheio de árvores mortas, que pareciam ter sido queimadas em vez de afogadas. Suas raízes secas estavam todas cerca de um metro acima do chão. Há algo de perturbador na forma em que as árvores ainda estão organizadas em linhas.

Não sei como sobreviveram, ou por que não foram levados pela água, mas espalhados entre as árvores havia alguns sinais de turistas que se foram há tempos. Camas, garrafas de Coca-Cola, copos, um linha de pratos e placas. Acho que o fundo do oceano é assim. Deprê, né?

Encontrei um cara chamado Pablo Novak na Villa Epecuen. Ele é a única pessoa que ainda mora na cidade. Quando teve a enchente em 85, a maioria das pessoas se mudou para a cidade mais próxima, Carhué, e nunca mais voltou, fora o Pablo. Ele mora em uma cabana de pedra com uma geladeira, um fogareiro e vários calendários pendurados na parede. Não tenho certeza pra quem você paga o aluguel quando vive em uma propriedade como essa.


Pablo Novak, via Flickr

A residência do Pablo está localizada onde, antes do acidente, ficavam os subúrbios da cidade turística. Ele me disse que a enchente pegou todo mundo desprevenido, e que no começo todos esperavam no teto de suas casas, imaginando que a água finalmente baixaria. Obviamente não baixou, e dois dias depois da enchente inicial, a cidade estava praticamente vazia.

O Pablo parecia sentir muita saudade de sua antiga cidade, e falou muito sobre seus dias de glória nos anos 50, 60 e 70, quando disputava o carinho dos turistas com Mar del Plata. Não há muitas pessoas em Buenos Aires que sabem sobre a Villa Epecuen hoje em dia, apesar estar sendo muito usada como locação para vídeo clipes e aparecendo ocasionalmente na mídia como uma curiosidade.

As pessoas de Carhué nos contaram que, já que a Villa Epecuen não é protegida pela lei, pessoas frequentemente vão à cidade para roubar objetos. No entanto, não tenho muita certeza do que pode ser furtado em uma cidade como essa. É maravilhosa, mas literalmente podre e assustadora pra caralho.



TEXTO POR FEDERICO PERETTI VICE AR
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR

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