Lee Van Cleef Para Tinhoso

Bando de Dois, a HQ de “bangue-bangue à brasileira”, é o último trabalho de Danilo Beyruth, 38, um ex-aluno de Desenho Industrial que virou publicitário. Não daquele tipo que faz títulos engraçados e maliciosos para campanhas, mas do que desenha. E bem. Ele começou como assistente de direção de arte numa agência na qual ficou por 15 anos e hoje mantém o próprio estúdio, chamado Macacolândia. “O trabalho em estúdio é diferente de um emprego comum. Quando há um job, ele geralmente tem que ser resolvido em poucos dias, e quando o job acaba, você pode gastar seu tempo da forma que quiser. Nos últimos 4 anos tenho aproveitado esse tempo para fazer quadrinhos”, diz. Aproveitando, também, falou sobre seu mais recente lançamento.

VICE: Por que criar um “bangue-bangue à brasileira”?
Danilo Beyruth:
O velho oeste histórico não tem nada a ver com os filmes de faroeste. Os tiroteios foram poucos e todos eram raquíticos, desdentados e doentes, mas o cinema mudou essa visão e criou uma era maior do que a realidade. A minha intenção foi fazer um pouco disso com o cangaço. Sou de uma geração acostumada a ver tudo que é da cultura brasileira retratado sob uma ótica social, o que tem uma função, mas muitas vezes falha em entreter. A minha intenção foi criar uma história de aventura.

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Não é como se você fosse um grande entusiasta do cangaço, então?
Não acho que eu possa dizer isso não, mas acho que o cangaço abre mais oportunidades para histórias do que o velho oeste americano. Os cangaceiros eram uma mistura de piratas, samurais e pistoleiros, numa região implacável e onde não havia lei. Perfeito para histórias de aventura.

Sendo você um ilustrador, acredito que o roteiro tenha sido o maior desafio para esta HQ. Qual a maior dificuldade, no caso?
Como faço tanto a história quanto a arte, dispenso um roteiro formal, cinematográfico, quadro a quadro. Prefiro trabalhar página a página, integrando todos os elementos. A dificuldade de se criar uma história e fazer ela ser ao mesmo tempo interessante e surpreendente. Apesar de meu processo ser muito gráfico, e na verdade eu não escrever um roteiro propriamente dito e sim decupar as cenas já anotando diálogos, não tenho problemas em criar o roteiro. Na verdade o roteiro é uma ferramenta pra se construir a HQ, mas o produto final, o que o leitor vê, é a HQ. O importante mesmo é a história.

A história mudou muito desde a primeira versão?
A história mudou sim, conforme os personagens tomavam forma, surgiam outras solução para o roteiro, até que a trama começou a fazer sentido. Mas nada que valha pena citar.

No próprio livro, a referência citada é a obra do Sergio Leone. Em outras entrevistas você também já falou de histórias do Akira Kurosawa. E filme sobre cangaceiros, teve algum que te ajudou ou inspirou? Ou algum videogame?
Assisti Lampião, o Rei do Cangaço, o Cangaceiro e um filme italiano que chama O Cangaceiro — meio de comédia. Os filmes serviram como referência para a ambientação e para a indumentária dos cangaceiros. Mas o que mais ajudou foi um livro chamado Cangaceiros, Coiteiros e Volantes de José Anderson Nascimento, da editora Ícone, que conta histórias reais do cangaço. Cheguei até a ir ao museu da ROTA pesquisar armamentos da época. Não tive inspiração em jogos, mas se tivesse jogado o Red Dead Redemption antes, teria. Mas o livro foi a maior fonte.

Foi você quem desenhou esta capa também (link)? Elas são bem parecidas. Qual a sua nóia com cabeças decepadas?
Olha, no meu outro gibi, o Necronauta, eu já autografava desenhando cabeças decepadas, e quando fechei de fazer o Bando, a história já girava em torno do assunto. Acho que o que talvez tenha me interessado tanto no cangaço tenha sido a foto das cabeças do bando de Lampião. Agora o porquê da fixação me escapa. A Jesus Hates Zombies foi uma antologia de 2007 na qual eu fiz uma HQ de 5 páginas. O protagonista é um Jesus Cristo que volta à terra depois que uma praga de zumbis assolou o planeta. Na época eu postava num fórum gringo de quadrinhos e recebi o convite do criador da série e aceitei participar.

Li em outra entrevista sua que junto com Bando de Dois você enviou outras idéias de HQ pra a Zarabatana. Que idéias eram essas?
Não posso contar, já que talvez algum desses projetos venha a ser feito.

Você chegou a mostrar alguns trabalhos seus para o Mutarelli, pelo que andei vendo. Que trabalhos foram esses e o que ele achou?
Não eram exatamente trabalhos. Era mais um fanzine amador. Isso foi há muito tempo, eu e um amigo fazíamos umas história de humor bem de improviso, com um personagem que era um Frankenstein. Era uma brincadeira bem tosca num estilo MAD. Na época ele falou que a gente tinha que melhorar, que era muito amador pra mostrar para um editor. E era, foi tudo finalizado com caneta Bic.

Alguns dos personagens de “Bando de Dois” não têm cara de brasileiros. Você se preocupou com isso quando desenhou?
Sim, e evitei povoar a história só com personagens que fossem o estereótipo do nordestino. Há personagens no Bando que tem ascendência holandesa, por que houve presença holandesa na região. Corisco, do bando de Lampião era loiro. O Brasil e um país de muitas raças, não há um tom de pele, tipo de nariz ou rosto único que você possa rotular de brasileiro.

Inclusive o tenente Honório parece o Tom Selleck, aquele ator do “Três Solteirões e Um Bebê” e “P.I. Magnum”. Foi proposital? Você se baseou em alguém para desenhar os personagens, que sejam os principais?
O tenente foi livremente baseado no Odorico Paraguaçu, interpretado pelo Paulo Gracindo. O Cavera é baseado num jovem Gerard Depardieu. O Tinhoso é meio Lee Van Cleef.

Agora me explique por que o Cavera usa mais a norma culta na hora de falar que o Tinhoso?
Isso tem a ver com a história pregressa dos personagens e, como pode vir a fazer parte de uma futura continuação, não posso contar.

OK. Se Bando de Dois fosse virar um filme, que atores gostaria que dessem vida aos personagens principais?
Fabio Lago é o Tinhoso perfeito, e já me sugeriram o Irandhir Santos como Cavera. Os outros eu realmente não sei.

E quem seria o diretor – tem que ser brasileiro.
Heitor Dhalia ou Fernando Meirelles.

O que aconteceu com o Zeca no final das contas? Ele sumiu.
Muita gente me pergunta isso. Quando escrevi o Bando, o Zeca era um pedaço muito pequeno da história, mas acho que o personagem caiu no gosto dos leitores. Como eu talvez faça uma continuação, não posso contar (hehe, meio chato isso).

Já pensa em alguma sequência para a história, ou ela acaba por ali mesmo?
Existe a intenção de fazer dois álbuns. Um contando o que aconteceu depois do Bando de Dois e o outro que conta a história antes, até o massacre no começo do álbum.

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