Açores X Hardcore

A cena açoriana tem muito para contar.

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set 4 2012, 10:32am


Os Resposta Simples a preto e branco.

Há uns meses atrás, o Ritz Clube reabriu as portas. Quem sabe alguma coisa sobre o punk/hardcore (HxC) português, terá estranhado que nas notícias sobre este regresso não se tenha falado nas matinés que encheram aquela sala nos anos 90 e que a muitos ainda faz suspirar de saudade; para bandas rançosas que também lá passaram não faltaram palavras. Foi o tempo dos “X” na mão, dos discursos, das fanzines caseiras e de horas a gravar cassetes para emprestar e desaparecerem a seguir, mas que valia a pena porque a música ficava gravada na memória dos ladrões tal era o uso do botão repeat. Foi uma época e uma “cena” sem as quais (digo eu que não a vivi, mas arrisco) não existiriam uma catrefada de bandas e músicos actuais, uns rançosos outros bons.

Por outro lado, se para o Ritz Clube não houve linhas sobre o HxC, seria de esperar que a presença da “cena” num lugar como os Açores, longe do urbanismo que o underground tanto aprecia, já tivesse despertado algum interesse (digno do substantivo) nos media. Pelos vistos não e, como sintoma tardio da morte do jornalismo musical português após os primeiros sinais de obesidade do Miguel Esteves Cardoso, um artigo sobre um estilo musical que podia ensinar tanta coisa boa a tanta gente má (e vice-versa, para sermos justos) é escrito por alguém que, de certa maneira, lhe está ligado. Podem chamar-me chauvinista ou parcial, o refrão da “Wasted Youth Crew” dos Blood For Blood manda-vos beijinhos.

Tradicionalmente o underground açoriano está associado ao metal, desde o início dos anos 90 que bandas como os Morbid Death, e mais tarde os Anomally ou os Sanctus Nosferatu, fazem as delícias dos melómanos insulares no que toca a metal monocromático e gadelhudo. Quanto ao punk/HxC as coisas são diferentes, segundo Paulo Lemos: “nos Açores, simplesmente não há punk ou hardcore.” Mas depois rectifica: “existiram bandas como os Palha d’Aço e Sangue ou Punk, que deram a conhecer este género de som aos terceirenses mas estes grupos não eram, a meu ver, assumidamente punk/HxC e não representavam um movimento do género.”

Em 2000, o Paulo era apenas mais um puto da ilha Terceira quando decidiu formar uma banda punk, chamou-lhe Paradigma e com 16 anos (a mesma que Ian MacKaye quando fundou os Teen Idles) deu o primeiro concerto. Passados três anos, a banda acabou e, juntamente com Fábio Couto e Tiago Cardoso, Paulo fundou os Resposta Simples (RS) — a única banda punk/HxC açoriana. Este trio começou a ouvir HxC como tantos outros. Skate para aqui, Bad Religion e NOFX para acolá e daí até ao material gravado por amigos que estavam no continente com X-Acto, Força Interior ou Liberation foi um pulinho. Bandas como Mata-Ratos, Censurados e Crise Total também chegavam à ilha de uma forma natural: Tiago, o baterista dos RS, é sobrinho do baterista dos míticos Crise Total.


Os Resposta Simples encostados à parede.

Mas nem só de música vive (ou vivia) o HxC e o espírito da “cena”. O DIY depressa se apoderou dos três amigos. Fontes de informação alternativas como as fanzines também iam aparecendo na ilha e a consciência política, a ética social e o meio ambiente rapidamente se tornaram alguns dos temas da banda. Tiago confirma isso mesmo quando diz que este tipo de conteúdos representou “uma semente dos nossos valores actuais” e que “o punk/HxC construiu as pessoas que hoje somos”.

É preciso entender que não são miúdos que um dia decidiram ir à Casa de Lafões ou ao Revolver Bar para ver como era um concerto com mosh e quem sabe safar-se com uma miúda com alargadores e um Tumblr. Estes terceirenses abraçaram o punk/HxC desde o início e quando acima referi o espírito DIY foi para levar a sério. Se não é fácil ser punk, imaginem numa região onde as touradas à corda, o folclore e as festas religiosas preenchem as agendas culturais. Ter uma banda punk/HxC muito menos: “Praticamente não tínhamos onde tocar e eram poucos os que nos convidavam e, por isso, começámos nós mesmos a organizar os nossos concertos”, conta o baterista. Actualmente, nos Açores é difícil precisar quantos concertos punk haverá por ano, mas de HxC, na Terceira, há três — um por cada pausa escolar.

A insularidade tem destas coisas e as adversidades multiplicam-se (incluindo uns problemas com a câmara de Angra do Heroísmo, por causa de uns cartazes) mas, quais Maomé armado em Sísifo, os RS enfrentaram a montanha e no ano da fundação editaram uma demo em K7. “Fomos nós que a fizemos, que andámos a recortar os booklets à mão e a gravar as K7 nas nossas aparelhagens em casa”, explica aindaTiago. Mais retro e DIY que isto é difícil.

Depois de alguns concertos na ilha, em 2004 o Paulo decidiu arriscar e organizou o Acção Directa, o primeiro festival açoriano de punk/HxC, com bandas locais e com os Mata-Ratos a tocar pela primeira vez na região. No ano seguinte, a festa repetiu-se, mais ambiciosa e dividida em dois dias, com os Pointing Finger e os Freedoom a encabeçar o cartaz.

Lá fora é outra coisa e a internet faz maravilhas
Depois do secundário, os três punks continuaram os estudos no continente mas não foi por isso que abrandaram — pelo contrário, estavam agora mais afincados que nunca. No início de 2005, Paulo fundou a editora Impulso Atlântico e os lançamentos sucederam-se com bandas da Terceira e do continente e algumas compilações.

Estando perto dos círculos do HxC português, começam a contactar com outros grupos, outras pessoas, os concertos multiplicam-se, e de lés a lés do país partilharam o palco com bandas como os For the Glory, Fitacola ou Blasted Mechanism. Esta diversidade demonstrou outra das facetas dos RS: a ausência de bairrismo. Em Portugal, a “cena” caracteriza-se pelo espírito comunitário e de entreajuda mas também pelas subdivisões geográficas, reflectidas nas diferentes abordagens sonoras das bandas de cada zona e em algumas rivalidades. Assim, dentro do HxC nacional há depois a “cena” de Lisboa, do Porto e de Faro, a MSHC (Margem Sul), LVHC (Linda-a-Velha) ou a das Caldas da Rainha (CRHC).

Provavelmente por serem a única banda açoriana do género, segundo Paulo, com os RS não há nada disto: “Sempre fomos neutros quanto à nossa categorização, não é por praticarmos uma sonoridade punk/HxC que nos fechamos nesse mundo. Durante estes anos partilhámos o palco com bandas de diversos géneros, desde HxC, crust, metal até ao pop-punk. Devido a este facto, creio termos uma boa relação com as bandas da cena nacional.” E continua, em jeito de crítica às outras bandas do arquipélago: “Penso que esta é uma das maiores diferenças entre os RS e as restantes bandas açorianas, por termos actuado durante vários anos no continente, demos a conhecer o nosso nome a nível nacional e não nos fechámos ao arquipélago. Nunca tivemos qualquer tipo de disputa ou intrigas com outros grupos.”

A banalização da internet e redes sociais também teve um papel importante, ajudou a promover a banda e a distância deixou de ser uma barreira para acompanhar o que se faz lá fora. Mas nem tudo são rosas na globalização e, se por um lado a internet ajuda a partilhar informação e a manter contactos, por outro, o tempo que os miúdos do HxC estariam em concertos e a fazer alguma coisa relevante, passam-no agora em frente ao PC a ver t-shirts e tatuagens e a decidir quais as bandas da próxima estação.

Nos Açores, isto não acontece e quando questionado sobre se o HxC já virou moda na Terceira, Paulo é peremptório: “Não, nada disso. Desde o surgimento destas tribos urbanas que a Terceira não foi alvo da globalização do punk/HxC. Agora com a internet as coisas são diferentes, mas como não existem mais bandas deste género, os miúdos que entram na “cena” não têm qualquer tipo de referências e os que lá estão há mais tempo dificilmente irão alterar o seu estilo.”


Os Resposta Simples ao vivo.

O que não muda é o estilo dos RS. Com um álbum, uma demo, 2 EPs e um vinil editado pela Juicy Records, os Resposta Simples continuam com o seu estilo rápido, nervoso e incisivo e não tardam a celebrar dez anos de carreira. Apesar de algumas paragens forçadas (Paulo é mestrando em Coimbra, enquanto Tiago se dedica à agricultura biológica e Fábio gere a Anoise Recs, uma promotora/editora DIY), o grupo está aí para durar.

Ser HxC nos Açores é isto: é cuspir na cara do isolamento que a insularidade impõe e não desistir. E os Resposta Simples são.

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